“Não é indiferente liderar a oposição ou não liderar a oposição”, diz André de La Palisse Ventura, que a partir de hoje lidera a oposição. Não governa, mas sabe o que quer para a Constituição (substituí-la pelo programa do Chega) e sabe quem não quer para Belém (Marques Mendes). Quanto ao Almirante... veremos se será o Cavalo de Tróia do Chega para conquistar o poder
Hoje é o dia em que André Ventura será elevado a líder da oposição. Não se admire, portanto, que venha aí uma vaga de calor. As coisas vão aquecer. Há vários dias que André Ventura não dava uma entrevista a uma televisão, mas ontem foi reposta a normalidade democrática, com uma entrevista à SIC. À bica de ver consumado para o Chega o estatuto de segundo maior partido de Portugal (“Neste momento tudo indica que o Ch será o partido mais votado fora de Portugal”, salientou, antecipando uma vitória que se adivinha nos círculos da emigração), Ventura foi eloquente e convincente como Monsieur de La Palisse: “Não é indiferente liderar a oposição ou não liderar a oposição”.
Liderar a oposição significa que foi quebrada a rotação eterna de PS e PSD na disputa do poder. Mais: “A nossa responsabilidade aumentou muito quando deixamos de ser o terceiro ou quarto partido e passamos a ser o partido que deve ser alternativa ao Governo. Ou seja, que tem a responsabilidade de liderar o Governo, caso esse momento chegue. É assim que eu interpreto os resultados.” Tudo indica que é assim, também, que os resultados interpretam o Chega.
Sempre em campanha. Ventura saiu da campanha, mas a campanha não saiu do Ventura. “Ninguém vota em mim ao engano”, diz ele, naquela que foi a mais indisputada verdade da noite. Defende uma revisão constitucional para lá inscrever as soluções simples e mágicas que já tinha apresentado na campanha eleitoral para resolver problemas complicados: reduzir deputados, introduzir a prisão perpétua, acabando “com esta história de que há um limite de pena, que é 25 anos”, inverter o ónus da prova para tipificar o crime de enriquecimento ilícito. E ia pontuando as suas propostas com avaliações de mérito: “Não me parece que isto seja grave”... “Isto é atentar contra as liberdades?” Sim, em boa parte dos casos, é mesmo atentar contra as liberdades, mas como se trata de passes de magia, é provável que os telespectadores fiquem mesmerizados pelo lado mágico da coisa, sem pensar nas consequências.
Estabilidade é estabilidade. É por estas e por outras que José Luís Carneiro, o futuro-líder-do-PS-que-parece-que-já-foi-eleito, diz que o PSD terá de escolher em que companhias quer andar na próxima legislatura: se quer um compromisso de estabilidade governativa com o PS, que implica também estabilidade constitucional e em questões de regime, ou se prefere vogar de acordo com as marés do Chega, o autoproclamado “Farol da oposição”.
“A AD tem de clarificar sobre com quem quer ter o diálogo relativo às matérias de regime”, foi o desafio de Carneiro, que almoçou com fundadores do PS para reavivar esse passado de estabilidade dos grandes entendimentos ao centro. “Os compromissos constitucionais e democráticos têm mais de 50 anos e foram construídos entre PS e PSD. Quando falamos da Constituição falamos desse compromisso fundador”.
Manuel Triste. Chamado ao almoço de José Luís Carneiro com os fundadores do PS (apesar de não ser fundador do PS), Manuel Alegre fez-se porta-voz das reivindicações constitucionais, das perplexidades eleitorais e da angústia existencial que por estes dias os socialistas comem ao jantar. “Eu não sou bruxo, eu próprio tenho dificuldade em compreender”, balbuciou, sobre o terramoto eleitoral do PS às mãos de Pedro Nuno Santos que ele, Alegre, apoiara com tanto entusiasmo. “Mas penso que este fenómeno não é isolado do que se passa na Europa… É uma situação grave em que nós devemos pensar para reformar o partido… e voltarmos a ser o partido dos pobres e dos desprotegidos.”
Tudo saía com voz frágil, hesitante, quase irreconhecível o barítono com voz de canhão de outras lutas. Como se tivesse gastado as últimas energias com um líder que deixou o partido na bancarrota eleitoral (e financeira também, ao que consta).
Perante as evidências do falhanço, terá Manuel Alegre abraçado agora com a mesma crença e energia o novo secretário-geral pré-designado? “O Luís Carneiro é o homem que neste momento está na posição de ser eleito secretário-geral do PS… portanto, é com ele que temos de contar…” Tanto entusiasmo comove.
“Muito pode acontecer sem o Ch.” A bola está do lado do PSD e, por saber disso, o social-democrata Nuno Morais Sarmento lembrou na CNN que “o Governo terá de ter consciência de que não é um Governo com maioria absoluta e tem que dialogar, principalmente nesta semi-armadilha agora lançada da Revisão Constitucional. Um tema que não junta, divide. Ou há uma ampla maioria ou não faz sentido a Revisão Constitucional, e a ampla maioria é de partidos e de sensibilidades, não é só de percentagens.”
Lendo nas entrelinhas, Sarmento veio lembrar a Montenegro que há mais política para além da vitória esmagadora, de 2/3 , das bancadas à direita do PS, e que há vantagens em conseguir ver para além do barulho das luzes trazido pelo Chega. “Muito pode acontecer sem o Chega. Talvez tenhamos finalmente também aí algum tempo de paz e que permita ser um tempo de construção e não de destruição ou de crítica vazia de alternativa, que envolva os principais partidos e não tem de representar outro bloco central, como noutros momentos não representou.”
“Estou-me a borrifar”. Ventura sabe que corre o risco de ter crescido tanto em votos e em deputados, e retirar daí muita parra e pouca uva. Ser líder da oposição garante muitas vantagens, mas pode não garantir um lugar à mesa das negociações que importam. A isso, Ventura reage como sempre: aproveitando tudo para croquetes. É mais capital de queixa que acumula contra “eles”. “Quando ameaçados, PS e PSD juntam-se para defender o pior dos tachos, dos interesses e da corrupção.”
É neste momento que Ventura protagoniza, na entrevista ao Jornal da Noite, um gesto que se transforma num meme instantâneo, que já deve estar a bombar nas redes sociais: olha para a câmara, bate as mãos uma na outra como quem diz “estou-me a borrifar”, e declara “para o futuro”: “Façam os acordos que quiserem, distribuam os lugares que quiserem, eu estou preocupado em transformar o país, em dar dignidade às pessoas, não quero saber de lugares.”
Portugueses de bem. Em tempos, Ventura dizia que se algum dia andasse a mendigar acordos com o PSD, sem o PSD os querer, o melhor era que o “internassem”. Ao fim de tanto tempo a fazer isso mesmo, sem que alguém o internasse, Ventura assume agora que a sua ambição é outra, é ser o mais votado e chegar a primeiro-ministro. “Querer ser primeiro-ministro não é uma ambição descontrolada.” O pormenor do adjetivo é eloquente.
A retórica e as contradições de Ventura trazem à memória, infalivelmente, as palavras de outro político emergente, o Almirante, que em tempos disse que se algum dia caísse na “tentação” de ser candidato presidencial, só pedia uma coisa: “dêem-me uma corda para me enforcar”. É curioso como, num país tantas vezes literal, ninguém se tenha dado ao trabalho de levar à letra estas bravatas de políticos populistas. Nem Ventura foi internado, nem o Almirante teve quem lhe chegasse a salvadora corda. Também por aqui se vê o descrédito a que chegaram os políticos.
Por curiosa coincidência, Ventura voltou ontem a fazer a corte ao Almirante-candidato. Bastou, para isso, dar uma garantia sobre a corrida presidencial: “Dos dois candidatos até agora conhecidos, há um que não será apoiado de certeza pelo Ch”. Os dois candidatos até agora conhecidos, recorde-se, são Marques Mendes e o Almirante. Ventura não quis que ficassem dúvidas e nomeou Marques Mendes como aquele que nunca levará um votinho do Chega. E o Almirante? Ventura ainda espera para ver e ouvir o que o militar dirá amanhã.
Se os unir o desprezo institucional, a veia anti-sistema, a pressa de "ver as coisas resolvidas", o ressentimento, o populismo e a demagogia, o Almirante pode ser útil ao Chega. Uma espécie de Cavalo de Tróia no Palácio de Belém. No discurso e na atitude, é muito o que os aproxima. Talvez os bons espíritos – ou os portugueses de bem – se encontrem.