O grande fogo que começou no concelho de Arganil foi apagado há uma semana. As notícias seguem o seu caminho e não há nada mais antigo do que uma notícia da semana passada. Mas todos os que vivem e trabalham nas vastas áreas dizimadas pelos incêndios são obrigados a encarar o inferno todos os dias
O turismo, uma das principais fontes de rendimento da Beira Interior, fica mais difícil nos próximos meses e provavelmente nos próximos anos.
Reina o silêncio e cheiro a cinza onde imperava o açor na serra a que deu nome. A natureza está de luto e são poucos os turistas para quebrar a tristeza desta gente hospitaleira que faz da adversidade força.
Em Pardieiros, freguesia da Benfeita, Diamantino de Jesus não estava preparado para o que os seus olhos viram. O fogo deixou a casa, mas destruiu a construção de uma vida.
“Estive aqui sozinho. Eu e Deus”, recorda.
A paisagem em redor da casa não o deixa mentir. Socalco após socalco na resta. Na extremidade aposta da aldeia arriscamos embrenhar-nos num dos ex-libris do concelho interditado desde o incêndio, a Fraga da Pena.
A frescura não é a primeira sensação. Carla Brito diz que é a “angústia”. Foi mostra-nos um dos seus locais favoritos do lugar a que chama casa. O caminho até às Cascatas está interditado, mas pode ser por pouco tempo. A água continua a correr fresquinha e convidativa e o verde venceu o fogo.
Infelizmente em volta há muito eucalipto e pouco ordenamento afirma. Carla é empresária do turismo. Num alojamento cancelado já perdeu cinco mil euros e no restaurante, “D'aqui e D'acolá”, em Coja, a receita caiu para metade desde os incêndios.
“Vai-se o balão de oxigénio que tínhamos para o Inverno”, lamenta.
Pede para os turistas não deixarem de aparecer. Os locais podem não estar tão bucólicos, mas continuam lá e alguns resistiram, como é também o caso da Mata da Matagaça, guardiã de espécies consideradas relíquias da floresta Laurissilva.
O mesmo apelo no Valado. Carla Gomes é a proprietário do único turismo rural da aldeia. Preparava-se para a festa do fim-de-semana de 15 de agosto quando o fogo chegou. Estavam cheios.
Agora só tem reservas para setembro. Gente que não quer deixar de ir para ajuda. Pede que visite o “Casas do Oiteirinho” para levar uma árvore e plantar onde quiser, mas” venham na mesma visitar a Serra do Açor. Precisamos todos.”
Quando perderam tudo, em 2017, replantaram carvalhos, sobreiros, castanheiros e medronheiros. Este fogo queimou tudo.
Deixa claro que nem sempre a falta de limpeza é por negligência. Pessoas como o tio, que encontrámos no caminho, ou o pai, que nos recebeu em casa e fez com a esposa um maravilhoso almoço para a nossa equipa, não conseguem limpar sozinhos. Além disso, é caro e não há pessoas para fazer esse trabalho.
Na praia fluvial do Agroal encontramos João Gonçalves. Trabalha no bar da coletividade quando não está a cortar madeira. Pinheiro, sobretudo, que agora ardeu.
“O meu pai dizia que vale mais um bom mandador do que um bom trabalhador”. Critica a falta de organização no combate e conhecimento do terreno.
“É triste. Quando não houver jovens aqui para combater o que restará?”, questiona.
Não há turistas. No verão chega a vender mais de uma arca de gelado por dia. Não é o caso.
Vazio também o Parque de Campismo da Bica em Pomares. A tristeza é visível nos olhos de Rita Osório, a gerente. Recorda quando o fogo chegou e como ficaram entregues à sorte da população que se valeu numa interajuda gigante. Pede aos campistas que voltem, afinal estão paredes mais com a praia fluvial. Maravilhosa num oásis de verde, entre cinzas.
Lá no alto as abelhas de Rui. Um dos maiores apicultores da região. Tinha 500 colmeias e perdeu 50. Menos que em 2017 quando perdeu quase tudo. “Estava mais bem preparado. Ele e nós”, explica o agricultor Sérgio Fonseca, o amigo que veio mostrar o negócio.
“Sentimo-nos esquecidos. Entregues à nossa sorte”, afirma. Os apoios chegam tarde, quando chegam, e os animais têm de comer todos os dias.
Mas os beirões da serra são resilientes. Ana Santos, do restaurante “Repasto do Bom Pastor” em Monte Frio, só lamenta “não ter tido água para dar um simples café aos bombeiros quando me pediram”
Agora tenta agarra a normalidade após a quebra profunda de clientes no estabelecimento.
O percurso está vestido de negro até à aldeia presépio designada assim pela beleza única: Piódão.
Marília Trindade trabalha no posto de turismo e confirma que turistas por estes dias só para saberem o estado em que ficou a aldeia. “Os passadiços estão fechados, mas Piódão não ardeu. Estamos cá”, responde.
Estão, mas mais tristes e até pouco crentes. Válter ajuda o tio no “A gruta” ao lado da igreja e também ajudou no fogo, como todos os jovens da terra. “Apareceram aqui sem material em condições e com um profundo desconhecimento do terreno”, afirma.
Querem andar para a frente, como sempre fizeram, fogo após fogo. Mas a esperança morre um bocadinho. “Quem quer vir ver terra queimada? Isto era tão bonito antes… mas agora, diz com tristeza Lucinda no auge dos seus 82 anos.
A poucos quilómetros do epicentro de 13 de agosto, Foz d’Egua. Outra joia da região. Ainda cheira a cinza, mas tal como a natureza teima em renascer também quem aqui vive e trabalha o fará. Até quando?