Segundo uma pesquisa, o destino dos elefantes-da-floresta africanos, como que existem no Parque Nacional de Ivindo, no Gabão, está diretamente ligado ao das árvores de ébano
É costume dizer-se que o destino age de formas misteriosas. No coração da Bacia do Congo, na África Central, a segunda maior floresta tropical do mundo, esta frase revela ser mesmo verdadeira - e, ao mesmo tempo, um enorme monte de cocó.
Os destinos das árvores de ébano, de uma espécie de mamíferos que está em perigo crítico de extinção, das comunidades camaronesas e de um importante fabricante de guitarras dos EUA estão todos indissociavelmente interligados. Este futuro, contudo, não foi lido em folhas de chá ou nas estrelas, antes obtido a partir de um novo tipo de ferramenta de adivinhação: o estrume de elefante.
A perda de habitat e, principalmente, o comércio ilegal de marfim contribuíram para uma quebra estimada em 80% da população continental de elefantes-da-floresta africanos nas últimas três décadas, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que os classifica como próximos da extinção na natureza.
O declínio desta população de elefantes pode ser catastrófico para a sobrevivência das árvores de ébano em toda a região, depois de armadilhas fotográficas e análises de fezes terem revelado, naquelas que são conclusões sem precedentes, o papel fundamental dos elefantes na dispersão e germinação das suas sementes.
As manadas podem consumir os frutos da árvore de ébano e transportar as suas sementes durante quilómetros, antes de as excretarem no solo da floresta, aumentando o alcance da dispersão e reduzindo a probabilidade de perda de diversidade genética por endogamia. Outro benefício está no facto de os roedores serem dissuadidos de comer as sementes que se encontram envoltas em fezes.
Um estudo realizado há nove anos pelo Instituto da Bacia do Congo (CBI, na sigla inglesa) da UCLA descobriu que existiam menos 68% de plântulas de ébano em regiões florestais sem elefantes, encaminhando para a conclusão de que, parafraseando a letra de Paul McCartney e Stevie Wonder, os destinos do ébano e do marfim estão unidos em perfeita harmonia.
“Os resultados são bastante assustadores”, reage Eric Onguene, assistente de investigação do CBI, em declarações à CNN.
“No início, pensámos que as sementes (de ébano) poderiam, muito provavelmente, ser espalhadas por todo o tipo de animais. Esperávamos que se regenerassem naturalmente. Contudo, se o elefante desaparecer, devemos esperar uma perda, uma extinção, das espécies de ébano”.
Investir no inevitável
A investigação foi financiada, em grande parte, pela Taylor Guitars, da Califórnia. É algo que origina logo a questão: porque é que um fabricante de instrumentos musicais gastaria centenas de milhares de dólares em investigação científica a cerca de 13 mil quilómetros de distância?
A resposta está no cerne escuro, muitas vezes negro como azeviche, da árvore de ébano. Denso, durável e liso, o seu acabamento espelhado é há muito utilizado em pontes e escalas de guitarras. Foi algo que ajudou a impulsionar a Taylor Guitars, com sede em El Cajon — fundada por Bob Taylor e Kurt Listug em 1974 — para o sucesso global, com artistas como Taylor Swift e Jason Mraz entre os que já tocaram as suas criações nestes instrumentos.
Como coproprietário da fábrica de ébano Crelicam, na capital camaronesa, Yaoundé, Taylor ficou ainda mais preocupado ao perceber que um recurso fundamental estava a tornar-se cada vez mais difícil de encontrar.
O valor comercial do ébano fez com que as árvores em toda a área com cerca de 3,7 milhões de quilómetros quadrados se tornassem um dos principais alvos para abate por parte de algumas das 80 milhões de pessoas que vivem na região.
“Na maioria dos locais onde o ébano era extraído, o stock tinha esgotado”, conta Matthew LeBreton, diretor da fábrica da Crelicam, à CNN.
Para Taylor, a decisão posterior de financiar a investigação resumiu-se a um mantra de três palavras que se tornou um princípio de negócio: investir no inevitável.
"Acordamos um dia e pensamos: 'Oh, rapaz. Isto não vai durar para sempre”, diz Taylor à CNN.
“Detesto usar a palavra sustentável de uma forma leviana, mas podemos dizer que isto não é sustentável: as árvores vão acabar. Por isso, temos de fazer alguma coisa... É inevitável que as árvores acabem, por isso vou investir na plantação de árvores”.
O que começou, em 2016, como uma simples missão de recolha de informação acabou por se transformar num esforço colaborativo liderado pelo CBI, a que se chamou Projeto Ébano. É uma parceria entre empresas, comunidades locais e cientistas, que trabalham para garantir a prosperidade a longo prazo da árvore de ébano.
Trata-se de um esforço impulsionado por uma das primeiras descobertas da investigação do projeto: as árvores de ébano não crescem rapidamente. Como as mudas demoram até 100 anos a atingir a maturidade completa, a CBI elaborou um plano para distribuir sementes entre as comunidades indígenas Baka, que partilham as florestas da bacia com os elefantes.
“Para proteger o ecossistema da Bacia do Congo, não se deve pura e simplesmente decretar proteção ou colocar um polícia em frente a cada árvore”, diz o investigador do CBI Zac Tchoundjeu à CNN.
“É necessário envolver a população local e mostrar-lhes quais são os seus interesses em realizar esta domesticação, uma vez que vai ao encontro das suas necessidades”.
Uma geração gentil
A avaliação de Tchoundjeu toca numa questão delicada: como convencer as pessoas a plantar sementes de árvores à sombra das quais nunca se sentarão?
Para facilitar a parceria, as comunidades Baka receberam a propriedade das árvores de ébano plantadas, bem como sementes de outras árvores de fruto e medicinais, incluindo de abacate e manga, que crescem de forma consideravelmente mais rápida, dando-lhes acesso a produtos que podem ser consumidos, utilizados ou vendidos no curto prazo.
Há ainda outros benefícios mais intangíveis. Os locais aprenderam técnicas agrícolas em viveiros de plantas, criando empregos e competências que já estão a beneficiar as 13 comunidades parceiras com as quais o Projeto Ebony trabalha.
“Mudou completamente as nossas vidas”, diz Samuel Bambo Mempong, um agricultor da aldeia indígena Baka de Bifolone, na orla da Reserva de Fauna Dja, à CNN.
“Deu-me conhecimentos que não tinha. Também vou treinar outras pessoas, noutros locais. Ao fazê-lo, voltarei para casa com outras vantagens”.
“O dinheiro irá para os meus descendentes”, diz Mempong. A primeira árvore de ébano plantada no terreno dele, que tem dois hectares e meio, já tem sete anos. “Os meus filhos, depois os meus netos. São eles quem vai beneficiar”, acrescenta.
Numa altura em que o Projeto Ébano celebra o seu décimo aniversário, foram quase 50 mil as árvores de ébano plantadas em seu nome. A elas juntam-se mais de 34 mil árvores de fruto. Taylor não tem qualquer intenção de parar por aqui.
“Espero que, daqui a 10 anos, tenhamos talvez atingido a marca de um milhão de árvores”, aponta.
“Este é um projeto que, acima de tudo, aponta um sentido. Haverá outras pessoas, melhores, mais inteligentes, mais rápidas, mais ricas, a assumir projetos semelhantes. Só quero deixar mais opções para as próximas gerações do que aquelas que temos hoje”.
É um princípio que se replica em Mempong.
“Não queremos destruir mais a floresta”, diz.
“Queremos colher os frutos da floresta de uma forma sustentável. Quando o nosso tempo passar, os nossos filhos, netos e bisnetos vão herdar a mesma floresta”.
