Doenças autoimunes estão a aumentar até 9% ao ano. O problema está no que se põe no prato à refeição

11 jan, 13:18
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Alteração das dietas, com mais fast-food e falta de fibra, tem contribuído para o aumento de casos em todo o mundo, dizem especialistas

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Cada vez mais pessoas em todo o mundo sofrem de doenças autoimunes, o que poderá estar relacionado com alterações nas dietas, dizem os especialistas.

“O número de casos autoimunes começou a aumentar há cerca de 40 anos no Ocidente. No entanto, agora estamos a ver os casos aumentarem em países que nunca tinham tido estas doenças antes”, revelou ao Observer James Lee, especialista que, com Carola Vinuesa, lidera vários grupos de investigação nesta área no Instituto Francis Crick de Londres. 

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Essa ideia é apoiada por Carola Vinuesa, que sublinha que o aumento no número de casos ocorre à medida que mais países têm vindo a adotar dietas "ao estilo ocidental" e as pessoas passaram a comprar mais fast food.

Só no Reino Unido, pelo menos quatro milhões de pessoas desenvolveram condições destas. Internacionalmente, estima-se que os casos de doenças autoimunes aumentem entre 3% e 9% anualmente.

Segundo estes investigadores ingleses, um dos maiores aumentos recentes de casos de doença inflamatória intestinal ocorreu no Médio Oriente e no leste da Ásia, onde a doença praticamente não existia.

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Estas conclusões não surpreendem Conceição Calhau, nutricionista e professora universitária, doutorada em Biologia Humana: "Sabemos que muitas das doenças imunitárias estão relacionadas com perturbações gastro-intestinais, uma vez que é na flora intestinal que se localizam muitas das bactérias que integram o nosso sistema imunitário", explica à CNN Portugal.

A importância das bactérias dos intestinos

As doenças autoimunes verificam-se quando o sistema imunitário deixa de conseguir distinguir entre células saudáveis e microorganismos invasores, e então as defesas contra doenças, que antes protegiam o organismo, passam, em vez disso, a atacar os seus órgãos e tecidos.

"É um problema de comunicação interna", resume Conceição Calhau. "As bactérias estão nas zonas de barreira, protegendo o organismo contra os ataques de microorganismos do exterior. O sistema imunitário é como um exército privado, que tem que saber distinguir entre o que é próprio ou externo, e entre o que é ou não uma ameaça. São as bactérias que têm que dar essa informação ao sistema imunitário. Mas quando existe uma doença autoimune, o sistema já não conhece o que é próprio e começa a reagir contra o próprio organismo."

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Para que o sistema imunitário funcione corretamente ele tem de ser "ensinado", digamos assim. "A primeira fase da vida, até aos dois, três anos, é a fase de maior aprendizagem", explica Conceição Calhau. "É uma fase de grande vulnerabilidade, mas também de grande oportunidade."

No caso da microbiota intestinal, sabemos que a exposição a antibióticos e uma alimentação deficiente nesta fase da vida terão seguramente consequências na vida adulta, afirma a nuticionista, entre as quais uma maior vulnerabilidade às doenças autoimunes.

"E para além desta fase fundamente, isto continua a acontecer", refere. A má alimentação vai afetando a microbiota intestinal de uma forma quase invisível e, o que é ainda mais perigoso, nós tendemos a desvalorizar os sinais: "A flatulência, o inchaço são sinais de que algo não está bem, mas nós vamos dizendo que é normal". 

"Uma doença pode só revelar-se na fase adulta, depois até dos 40 ou 50 anos, mas sabemos que é o efeito de uma continuidade de erros, muitas vezes cometidos na adolescência ou prolongados ao longo de anos."

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"Portanto, a má alimentação tem consequências diretas na nossa saúde, mas também indiretas pelo seu efeito na microbiota intestinal e, consequentemente, no nosso sistema imunitário", conclui Conceição Calhau. "No nosso organismo tudo se relaciona, está tudo ligado."

O que são e como se tratam as doenças autoimunes?

Entre as doenças autoimunes encontramos a doença inflamatória intestinal, a diabetes tipo 1, a artrite reumatóide, a esclerose múltipla, a doença celíaca ou o lúpus. Em todos estes casos, o sistema imunitário deixa de funcionar corretamente e ataca o tecido saudável em vez dos agentes infeciosos.

A maioria dos cientistas acredita que, além de uma predisposição genética, os fatores ambientais desempenham um papel fundamental neste aumento de casos.

“A genética humana não mudou nas últimas décadas”, diz Lee. “Portanto, algo deve estar a mudar no mundo exterior de uma forma que faz aumentar a nossa predisposição para as doenças autoimunes.”

“As dietas com fast-food carecem de certos ingredientes importantes, como fibras, e a evidência sugere que essa alteração afeta a microbiota de uma pessoa - a coleção de micro-organismos que temos no nosso intestino e que desempenham um papel fundamental no controlo de várias funções corporais”, explica Carola Vinuesa.

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“Essas mudanças nos nossos microbiomas estão, então, a desencadear doenças autoimunes, das quais já foram descobertos mais de 100 tipos”.

Ambos os cientistas enfatizam ainda que as características individuais também estão envolvidas na contração dessas doenças.

“Se uma pessoa não tiver uma certa suscetibilidade genética, não terá necessariamente uma doença autoimune, não importa quantos Big Macs coma”, diz Carola Vinuesa. Os especialistas não têm muitas ilusões quanto ao que podem fazer para impedir as doenças: “Não há muito que possamos fazer para deter a disseminação global das cadeias de fast-food. Em vez disso, estamos a tentar entender os mecanismos genéticos fundamentais que sustentam as doenças autoimunes e tornam algumas pessoas mais suscetíveis do que outras. Queremos resolver o problema nesse nível. ”

Essa tarefa é possível graças ao desenvolvimento de técnicas que agora permitem aos cientistas localizar pequenas diferenças de DNA entre um grande número de indivíduos. Dessa forma, é possível identificar padrões genéticos comuns entre aqueles que sofrem de uma doença autoimune.

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“Até muito recentemente, não tínhamos as ferramentas para fazer isso, mas agora temos esse poder incrível de sequenciar DNA em grande escala e isso mudou tudo”, explica Lee. “Quando comecei a fazer pesquisas, sabíamos que cerca de meia dúzia de variantes de DNA estavam envolvidas no desencadeamento de doenças inflamatórias intestinais. Agora conhecemos mais de 250.”

Esse trabalho está no centro dos esforços de Lee e Vinuesa, que querem descobrir como essas diferentes vias genéticas operam e desvendar os muitos tipos diferentes de doenças que os médicos diagnosticam. “Se olharmos para algumas doenças autoimunes - por exemplo, lúpus - ficou claro recentemente que existem muitas versões diferentes, que podem ser causadas por diferentes vias genéticas”, explica Vinuesa. Isso pode ajudar a encontrar o tratamento mais adequado.

“Temos muitas novas terapias potencialmente úteis que estão a ser desenvolvidas a toda a hora, mas não sabemos a que pacientes devemos administrá-las, porque não sabemos exatamente qual versão da doença eles têm. E esse é agora um objetivo fundamental para a investigação nesta  área.”

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Lee também sublinha que o aumento de casos de doenças autoimunes em todo o mundo significa que novos tratamentos e medicamentos são agora ainda mais necessários e com urgência. “Neste momento, não há cura para as doenças autoimunes, que costumam desenvolver-se nos jovens - enquanto ainda estão a tentar completar os estudos, arranjar o o primeiro emprego e ter uma família”, diz.

“Isso significa que um número crescente de pessoas serão submetidas a cirurgias ou terão que receber injeções regulares pelo resto das suas vidas. Isso não só é desagradável para os pacientes como uma enorme pressão sobre os serviços de saúde. Daí a necessidade urgente de encontrar novos tratamentos eficazes.”

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