Fica com dores de cabeça quando bebe vinho tinto? Estudo dá pista sobre a razão

CNN , Kristen Rogers
25 dez 2023, 12:00
A causa das dores de cabeça quando bebe vinho tinto pode estar relacionada com um composto presente na bebida, segundo um novo estudo. AsiaVision/E+/Getty Images

O vinho tinto possui uma quantidade dez vezes superior de compostos fenólicos, especialmente flavonoides, em comparação com o vinho branco

Os cientistas podem estar mais perto de perceber a razão pela qual o consumo de vinho tinto provoca dores de cabeça a algumas pessoas.

Um flavonoide presente naturalmente nos vinhos tintos pode interferir com a capacidade do organismo para metabolizar o álcool, provocando uma acumulação de toxinas que pode levar a dores de cabeça intensas, sugere um estudo recente publicado na revista Scientific Reports.

A quercetina, o flavonoide em questão, é um composto vegetal que se encontra em frutas e legumes, incluindo uvas, frutos vermelhos, cebolas e brócolos.

"Quando (a quercetina) entra na corrente sanguínea, o corpo converte-a numa forma diferente chamada glucurónido de quercetina", explica o coautor do estudo Andrew Waterhouse, um químico de vinhos e professor emérito do departamento de viticultura e enologia da Universidade da Califórnia em Davis, EUA, em comunicado. "Nessa forma, bloqueia o metabolismo do álcool."

O vinho tinto possui uma quantidade dez vezes superior de compostos fenólicos, especialmente flavonoides, em comparação com o vinho branco, o que torna a bebida o "principal candidato responsável" pelas dores de cabeça, afirma a investigação.

Waterhouse e os outros investigadores pretendiam descobrir a razão pela qual as dores de cabeça após a ingestão de apenas um ou dois copos de vinho tinto podem mesmo acontecer a pessoas que não têm dores de cabeça quando ingerem outras bebidas alcoólicas - por isso, estudaram a forma como o flavonoide pode afetar uma variante genética de uma enzima chamada ALDH2 que está envolvida no metabolismo do álcool no organismo.

Cerca de 8% da população mundial possui uma variante da enzima que não é particularmente ativa, e esta deficiência é altamente prevalente entre as pessoas de ascendência asiática oriental - afetando cerca de 40% desta população. Ter uma variante ALDH2 disfuncional tem sido associado a rubor cutâneo, palpitações cardíacas e dores de cabeça após o consumo de álcool.

Quando as pessoas consomem bebidas alcoólicas, o álcool é decomposto no fígado pela enzima desidrogenase, que o transforma num composto acetaldeído - uma "toxina bem conhecida, uma substância irritante e inflamatória", indica o autor principal do estudo, Apramita Devi, investigador de pós-doutoramento no departamento de viticultura e enologia da UC Davis.

A presença de acetaldeído no organismo é supostamente de curta duração, uma vez que a enzima ALDH2 o transforma em acetato, que é menos tóxico.

Através de testes laboratoriais, os autores descobriram que um derivado da quercetina - o glucurónico de quercetina - inibia a variante da enzima. A interferência, segundo a hipótese dos autores, levaria a uma acumulação da toxina acetaldeído - e a dores de cabeça - nas pessoas mais suscetíveis.

Um mecanismo não testado

Mas especialistas que não estiveram envolvidos no estudo recomendam cautela, caracterizando-o como uma proposição de uma teoria e não como uma prova.

"O estudo foi realizado apenas em laboratório e as substâncias foram testadas fora do corpo humano em concentrações várias vezes superiores às presentes no sangue após alguns copos de vinho", observa Jonas Spaak, professor associado de cardiologia no Instituto Karolinska em Estocolmo, Suécia.

Este tipo de pesquisa pode gerar ideias sobre os potenciais processos envolvidos na relação entre o vinho tinto e as dores de cabeça, acrescenta, mas, "idealmente, os investigadores deveriam ter incluído amostras e testes em humanos para verificar este mecanismo".

Isto é especialmente importante porque em contextos naturais do corpo humano o derivado da quercetina que os autores utilizaram é algo gerado no fígado e excretado pelos rins, explica Vasilis Vasiliou, chefe do departamento de ciências da saúde ambiental da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Nem Spaak nem Vasiliou estiveram envolvidos no novo estudo.

O que se segue

Os autores planeiam testar a sua hipótese num pequeno ensaio clínico com pessoas que desenvolvem estas dores de cabeça, comparando os vinhos tintos com quantidades elevadas de quercetina com outros com pouca quantidade da mesma substância.

"É importante também mencionar que todo o consumo de álcool é apenas para desfrutar, e que não há provas sólidas de quaisquer efeitos positivos para a saúde no consumo de vinho tinto ou de álcool, mas há provas sólidas de danos relacionados com a dose", sublinha Spaak. "Se beber, faça-o com moderação."

Para minimizar as dores de cabeça pode também experimentar e provar vinhos de diferentes produtores e castas, uma vez que os "níveis de compostos que podem desencadear dores de cabeça variam substancialmente entre os diferentes vinhos", acrescenta.

A quercetina é produzida pelas uvas em reação à luz solar, esclarece Waterhouse. "Se as uvas forem cultivadas com os cachos expostos, como acontece em Napa Valley para os seus cabernets, obtêm-se níveis muito mais elevados de quercetina. Nalguns casos, quatro a cinco vezes superior."

Consequentemente, poderá ter mais sorte com vinhos tintos mais baratos ou com vinhos brancos, que têm um teor global de flavonoides mais baixo, de acordo com o estudo.

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