Regina George, Jay Gatsby e Olivia Pope - na foto de capa deste artigo - estão entre as personagens poderosas e extrovertidas que se enquadram no perfil de pessoa "fixe". Contudo, segundo os investigadores responsáveis por um novo estudo, tal nem sempre é sinónimo de ser-se "bom"
Uma equipa internacional de investigadores pode ter, finalmente, decifrado o código daquilo que permite considerar uma pessoa como alguém “fixe”.
Independentemente do país onde se viva, os traços de personalidade que fazem alguém parecer “fixe” parecem ser consistentes entre as diferentes culturas, segundo um estudo publicado no “Journal of Experimental Psychology”.
Os investigadores concluíram que, em comparação com pessoas consideradas “boas” ou “agradáveis”, as pessoas vistas como “fixes” são percebidas como mais extrovertidas, hedonistas, poderosas, aventureiras, abertas e autónomas.
“O mais surpreendente foi ver que os mesmos atributos surgem em todos os países”, refere Todd Pezzuti, professor de marketing na Universidad Adolfo Ibáñez, no Chile, que é um dos investigadores principais do estudo.
“Seja na China, na Coreia, no Chile ou nos Estados Unidos da América, as pessoas gostam de quem desafia os limites e provoca mudanças”, afirma. “Por isso, diria que ser ‘fixe’ representa algo mais fundamental do que o próprio rótulo de ‘fixe’”.
Ser "fixe" não significa ser "bom"
Os investigadores – da Universidad Adolfo Ibáñez, da University of Arizona e da University of Georgia – levaram a cabo experiências entre 2018 e 2022, com cerca de seis mil pessoas de uma dúzia de países: Austrália, Chile, China, Alemanha, Índia, México, Nigéria, Espanha, África do Sul, Coreia do Sul, Turquia e Estados Unidos.
Foi pedido aos participantes que pensassem numa pessoa das suas vidas que considerassem “fixe”, “não fixe”, “boa” ou “não boa”. De seguida, deviam avaliar a personalidade dessa pessoa com base em duas escalas: o modelo dos Cinco Grandes Traços de Personalidade (Big Five, em inglês), que é muito utilizado na psicologia, e o Portrait Values Questionnaire, que mede os valores básicos de um indivíduo.
Os participantes associaram, de uma forma consistente, o facto de se ser calmo, consciencioso, universalista, afável, caloroso, seguro, tradicional e conformista com aquilo que é uma pessoa boa - mais do que com ser-se uma pessoa “fixe”. Ser competente foi considerado tanto uma qualidade de alguém “fixe” como de alguém “bom”, mas não um exclusivo de nenhum dos dois. Já a fórmula para se ser “fixe” consistia em ter os seis traços de carácter – mais extrovertido, hedonista, poderoso, aventureiro, aberto e autónomo – independentemente da idade, do género ou nível de escolaridade da pessoa.
Pezzuti não acredita que estes traços do que é ser-se “fixe” possam ser ensinados.
“Nascemos com esses atributos”, diz. “Cinco desses atributos são traços de personalidade. Os traços de personalidade tendem a ser bastante estáveis”.
A investigação mostrou que as pessoas “fixes” e as pessoas “boas” não são necessariamente as mesmas, mas que podem partilhar alguns traços, afirma Caleb Warren, um dos investigadores principais do estudo, que é professor de marketing na University of Arizona.
“De uma forma geral, para se ser visto como ‘fixe’, alguém tem de ser minimamente simpático ou provocar admiração, o que os aproxima das pessoas ‘boas’”, refere Warren num comunicado à imprensa. “Contudo, as pessoas ‘fixes’ tendem a ter outros traços que nem sempre são considerados ‘bons’ do ponto de vista moral, como o hedonismo e o poder”.
Uma das limitações do estudo assenta no facto de apenas terem sido consideradas pessoas que compreendiam o significado de “fixe”. Pezzuti argumenta que seria interessante – embora difícil – perceber se os resultados seriam parecidos em culturas mais tradicionais ou em grupos isolados, menos familiarizados com o termo.
“Não sabemos o que íamos encontrar em culturas extremamente tradicionais, como as tribos de caçadores-recolectores ou as comunidades agrícolas de subsistência”, aponta Pezzuti.
“É possível que, nessas culturas, as pessoas consideradas ‘fixes’ não desempenhem um papel tão importante, uma vez que a inovação, especialmente a inovação cultural, não é tão relevante”, explica. “Diria que há pessoas ‘fixes’ nessas culturas, mas que o seu papel é menor. Provavelmente, não são tão admiradas como noutras sociedades”.
Ser "fixe" pode significar também ser controverso
Quando lhe foi pedido para indicar uma figura pública ou celebridade que personificasse o conceito de “fixe”, com base na investigação, Pezzuti aponta de imediato Elon Musk, fundador da Tesla e da SpaceX.
“É uma figura controversa, mas a primeira pessoa que me vem à cabeça é Elon Musk”, junta Pezzuti, acrescentando que o multimilionário preenche todos os seis atributos identificados no estudo.
Musk é “inegavelmente poderoso” e autónomo, afirma. E parece ser extrovertido tendo em conta a sua presença nas redes sociais e nos meios de comunicação, junta.
“Ouvi dizer que era tímido, talvez mais do que aparenta. Contudo, para quem o observa de fora, parece muito extrovertido. É divertido. Costuma participar em ‘podcasts’ e está sempre à frente das câmaras”, argumenta Pezzuti.
Vários comportamentos de Musk também o apontam como hedonista: “Fumou marijuana no ‘podcast’ mais popular do mundo, o ‘The Joe Rogan Experience’”.
Pezutti acrescenta ainda que a ideia de Musk de colonizar Marte acaba por mostrar que é uma pessoa aberta e aventureira.
O mais recente artigo é um dos poucos estudos empíricos que analisam, com exatidão, o que torna alguém “fixe”, afirma Jonah Berger, professor de marketing na Wharton School of Business da University of Pennsylvania.
“Apesar de há muito se falar e se teorizar sobre aquilo que torna alguém ‘fixe’, quase não existiam estudos empíricos sobre o tema. Por isso, é excelente ver trabalhos que exploram essa área”, escreve Berger por e-mail.
“Mesmo que o ser-se ‘fixe’ pareça algo com que se nasce, há certamente pessoas que podem ser dados pelas pessoas para se aproximarem dessa ideia”, acrescenta. “Tendo em conta a quantidade de pessoas que querem ser ‘fixes’ e o dinheiro que estão dispostas a gastar para alcançar esse objetivo, parece-me claramente um tema que merece ser estudado”.
A futura investigação poderá, em vez de uma abordagem isolada, avaliar como o ser-se fixe está ligado à bondade ou à maldade, sugere Jon Freeman, professor de psicologia na University of Columbia.
“Na vida real, ser-se ‘fixe’ pode ser uma qualidade positiva. Contudo, também pode implicar conotações negativas em certos contextos sociais. Seria útil que os próximos estudos distinguissem entre o que é uma pessoa ‘fixe boa’ e uma pessoa ‘fixe má’. A abordagem deste último estudo oferece uma excelente base para isso”, escreve Freeman, que não esteve envolvido na investigação referida neste artigo.
“Do ponto de vista científico, o ser-se ‘fixe’ parece mais um produto de inferência e de construção social do que da genética. Mesmo que o temperamento – que é em parte influenciado geneticamente – possa contribuir para o desenvolvimento da personalidade”, explica.
“A palavra ‘fixe’ está profundamente enraizada no nosso vocabulário social porque funciona como uma abreviação de inferências complexas. Acaba por resumir sinais de estatuto, pertença e identidade de forma instantânea, embora muitas vezes estereotipada. Do ponto de vista científico, estudar o que é ser ‘fixe’ é algo importante, precisamente porque revela como essas inferências rápidas sobre traços de personalidade influenciam o comportamento e a dinâmica social – especialmente na era das redes sociais e da cultura dos influenciadores”.