Neggy Shelton treinou até colapsar. Aspirante a culturista pode nunca recuperar

20 dez 2022, 22:08
Neggy Shelton em 2021 (DR)

Imigrante iraniana nos EUA, Neggy tem 36 anos e sonhava ser culturista profissional. Para isso, contratou James Ayotte, um treinador conhecido no meio, e sujeitou-se a um intenso plano de treinos e a uma dieta rígida. Foi encontrada inconsciente no seu apartamento

Neggy Shelton, uma praticante de culturismo de 36 anos, seguia um plano de treinos agressivo, com sessões de duas horas e meia e ingestão de apenas 890 calorias por dia, por recomendação do seu treinador, James Ayotte. “Estou com pouca energia e às vezes fico tonta”, queixou-se. “Sem problemas. Faça o seu melhor”, respondeu Ayotte. “Mas não aldrabe a dieta!” Dois dias depois, Neggy foi encontrada inconsciente no seu apartamento em Ashburn, Virgínia, EUA, com um nível de glicose no sangue perigosamente baixo, de acordo com os registos médicos analisados pelo The Washington Post. Isto aconteceu a 9 de novembro e, desde então, a atleta está praticamente inconsciente e só sobrevive com a ajuda de máquinas.

Os médicos concluíram que o estado de hipoglicemia de Shelton estava “provavelmente relacionado com a dieta, os suplementos e os exercícios” e terá provocado uma lesão cerebral. A família foi avisada que ela pode nunca recuperar.

A história de Shelton, uma imigrante iraniana que sonhava em competir profissionalmente, põe a nu os perigos de um desporto com pouca supervisão e nenhuma qualificação exigida aos treinadores, que muitas vezes ditam todos os aspectos da vida dos atletas, da ingestão de alimentos e água, ao regime de exercícios, plano de medicamentos e suplementos durante os meses em que se preparam para uma competição.

Mas, quando algo corre mal, os atletas sofrem as consequências – com poucas ou nenhumas repercussões para os treinadores, descobriu o Washington Post. Neste caso, Ayotte negou qualquer responsabilidade pelo que aconteceu.

Na altura, Shelton estava a preparar-se para uma competição na Virgínia organizada pelo National Physique Committee, a principal federação de culturismo amador do país. Em grande parte destes eventos não há testes generalizados de despistagem de esteróides e outras drogas para melhorar o desempenho.

A federação recusou-se a responder às perguntas do jornal, mas numa declaração anterior disse: “A saúde, a segurança e o bem-estar de todos os nossos concorrentes são e sempre serão de extrema importância para nós.”

James Ayotte, de estrela do culturismo a acusado de má conduta sexual e tráfico de drogas

Quando Shelton encontrou Ayotte pela primeira vez no Instagram, no ano passado, ele já tinha um grande número de seguidores nas redes sociais e publicava fotos da transformação dos seus clientes, a quem ele se refere como “ovos”. A sua empresa, Team Atlas, está localizada em Montreal, no Canadá.

Aos 30 anos é um empresário de sucesso. Sem formação médica, começou a trabalhar como treinador depois de lutar contra a sua própria obesidade e fez um ano de “autopesquisa” antes de treinar o seu primeiro cliente no culturismo, de acordo com uma entrevista de 2020. A Team Atlas orgulha-se de ter centenas de clientes com “resultados inacreditáveis” desde 2015, muitos dos quais competem como culturistas, lê-se no seu site.

Ayotte conquistou um lugar de relevo na indústria, ajudando a conseguir patrocínios para os concursos em todo o país. Alguns dos melhores atletas de Ayotte, incluindo a competidora India Paulino, elogiaram-no por ajudá-los a atingir os seus objetivos. “Ter o treinador certo é crucial para o sucesso e para a saúde”, disse Paulino numa publicação no Instagram, cerca de dois meses antes de Shelton ser encontrada inconsciente. “James presta atenção aos detalhes e faz-nos sentir a única pessoa que ele está a treinar, embora ele treina centenas de mulheres.”

Mas nem tudo corre bem a Ayotte. Em 2018, duas organizações de culturismo no Canadá suspenderam-no depois de várias atletas acusarem Ayotte de comportamento sexual indevido, incluindo pedidos de fotos nuas, de acordo com Georgina Dunnington, ex-presidente da Federação Canadiana de Culturismo. Nos últimos anos, além de conduta sexual imprópria, Ayotte foi acusado por ex-clientes de elaborar planos de preparação para competições considerados "perigosos" e de fornecer drogas para melhorar o desempenho de atletas, de acordo com diversas entrevistas, mails, mensagens, vídeos e até registos policiais a que o The Post teve acesso.

“Eu treino milhares de raparigas, certo? E 99,9% estão super satisfeitas com o meu serviço e felizes”, disse Ayotte ao The Post, negando todas as acusações.

Neggy Shelton: a luta por um sonho

Shelton mudou-se para os Estados Unidos em 2018, sozinha. A sua família está ligada ao desporto - o pai venceu competições de judo e o irmão era culturista. Em 2021, Shelton decidiu seguir os passos do irmão e participou no seu primeiro concurso. O seu sonho era um dia abrir um ginásio nos Estados Unidos, tal como a sua família tinha feito no Irão.

Mas, primeiro, ela precisava de se profissionalizar. Em novembro do ano passado, Shelton contratou Ayotte, sem saber nada sobre a história do treinador ou das acusações contra ele, segundo disse a família ao The Washington Post. Shelton pagava cerca de 1.200 dólares (1.130 euros) por trimestre pelo coaching, de acordo com os recibos do PayPal. Ela confiava completamente em Ayotte.

“Hoje sou um ovo da equipa Atlas”, comentava Shelton, com orgulho.

“Ela pensava em James como um deus”, disse Negar Shaltuki, a irmã de Neggy que recentemente chegou aos Estados Unidos com a sua mãe, Sedighe Mousavi, com vistos de emergência. A sua família deu ao The Post acesso aos registos médicos de Shelton, assim como às trocas de mensagens de Instagram e Facebook com Ayotte para ajudar a entender o que aconteceu.

Neggy Shelton trabalhava como designer gráfica freelancer e, ao mesmo tempo, passou quase um ano a preparar-se com Ayotte, com consultas online. Nos primeiros meses, o foco esteve na perda de peso. Para isso, tinha uma dieta rígida e tomava vários medicamentos para inibir o apetite e acelerar o metabolismo, além de esteróides e outros medicamentos hormonais.

Os check-ins semanais no Facebook revelam que, no início de outubro, Neggy tinha um plano de refeições de 890 calorias, ao mesmo tempo que tinha de queimar quase mil - uma tarefa que geralmente exigia um treino de duas horas e meia. À medida que se aproximava a data da competição, 12 de novembro, Ayotte aumentou a quantidade de calorias a gastar - para 1.100 e depois para 1.200 - e aconselhou-a a aumentar as doses de esteróides e outras drogas para melhorar o desempenho, de acordo com as trocas de mensagens no Facebook e uma mensagem de voz obtida pelo The Post. Nessa altura, aumentaram também as suas queixas de saúde, segundo os familiares. Tinha tonturas, sentia-se fraca. 

No dia 9 de novembro, Neggy deixou de responder às mensagens da família e dos amigos. Uma amiga preocupada convenceu o proprietário a abrir a porta do seu apartamento nessa noite.

A família e os amigos de Shelton estão a tentar angariar dinheiro para as despesas médicas, porque ela não tinha seguro de saúde. Comemoraram o seu 36.º aniversário no final do mês passado no hospital com bolo e balões. A irmã pintou-lhe as unhas de rosa brilhante. Shaltuki e a mãe passam quase duas horas nos transportes, todos os dias, para ver Neggy. De vez em quando, ela abre os olhos e parece reconhecê-las, mas na maior parte do tempo está inconsciente.

Enquanto isso, James Ayotte continua a fazer a sua vida como se nada tivesse acontecido. No fim de semana passado, em Las Vegas, o treinador tirou uma fotografia, radiante com os resultados das suas atletas.

E.U.A.

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