O contexto é de incerteza económica e de uma inflação que dá luta. Nos últimos anos, muitas famílias têm pensado sobre a necessidade de poupar. E, por isso, nada como tomar decisões estratégicas – mesmo que com passos simples e pequenos - para conseguir colocar algum dinheiro de lado ou aumentar o rendimento disponível. Num país onde a literacia financeira ainda é tabu, oferecemos-lhe sete perspetivas diferentes, para poder combinar as dicas que melhor se aplicam à sua vida, necessidades e objetivos
Bárbara Barroso, CEO e fundadora do MoneyLab
1. Ter objetivos claros. Segundo Bárbara Barroso, antes de decidir onde poupar ou investir “é essencial saber para que está a fazê-lo”. Por exemplo, se é para a reforma ou para a entrada de uma casa. “Ter objetivos bem definidos é o que determina o caminho a seguir”, diz. Porque, sem eles, “é fácil cair em decisões erráticas ou seguir tendências pouco alinhadas” com as suas necessidades.
2. Poupar de forma automática e consistente. Poupar pode ser um desafio. Por isso, “definir um valor fixo que sai logo da conta” depois de receber o ordenado “é uma forma eficaz” de criar o hábito – e de não correr o risco de gastar esse dinheiro. “A disciplina pesa mais do que o montante”, resume Bárbara Barroso.
3. Mais do que poupar, investir. Com a atual inflação, “ter o dinheiro parado significa perder poder de compra”. A única forma de contrariar este efeito é, diz Bárbara Barroso, “investir com estratégia, de forma ajustada ao perfil de risco e ao horizonte temporal de cada pessoa”. Por outras palavras, procure o investimento que se adapta melhor a si.
4. Conhecer antes de investir. Num mundo cheio de informação e desinformação, “a melhor proteção é a literacia financeira”. Só o conhecimento permite “proteger e fazer crescer o seu dinheiro”, argumenta Bárbara Barroso.
5. Preparar a reforma. Segundo a Comissão Europeia, quem se reformar em 2050 poderá receber apenas 38% do último salário. Se estava a pensar depender apenas do sistema público, o melhor será começar a “preparar a sua própria estratégia de reforma”. É um caminho de “dignidade e autonomia no futuro”.
Nuno Leal, co-CEO do Doutor Finanças
1. Rever e otimizar créditos. Para “reduzir custos e simplificar a gestão”, aconselha Nuno Leal, nada como analisar as condições do crédito à habitação (mudando de banco se for mais vantajoso) e, se tiver vários créditos, considerar a sua consolidação.
2. Garantir proteção equilibrada. Para evitar coberturas desnecessárias ou insuficientes, reveja a carteira de seguros. Pode, diz este especialista, “significar poupança e maior segurança”.
3. Criar resiliência. Prepare um fundo de emergência, que lhe permita pagar três a seis meses de despesas fixas. Assim, se o imprevisto acontecer, tem margem para dar resposta.
4. Conhecer o nosso comportamento financeiro. Analise a sua relação com o dinheiro, reconheça “padrões emocionais e impulsos”. Só assim, poderá tomar “decisões conscientes e aumentar o impacto das estratégias de poupança e investimento”.
Carina Meireles, mentora financeira
1. Criar uma “reserva financeira em três etapas”. Como fazer um grande fundo de reserva por parecer algo desmotivador, “o mais eficaz é dividir o objetivo em etapas pequenas e alcançáveis”. Na primeira etapa, procure juntar entre 150 e 300 euros para imprevistos imediatos. Na segunda, garante o equivalente a um mês de despesas essenciais. Por fim, acumule um a dois meses de despesas essenciais, de uma forma gradual. “Avançar por etapas torna o processo mais leve e aumenta a sensação de controlo financeiro”, resume Carina Meireles.
2. Identificar as despesas “invisíveis”. Há muitas despesas “automáticas” e que podem “passar despercebidas”. Durante 30 dias analise o extrato bancário. Para identificar subscrições que já não usa, comissões bancárias que podem ser renegociadas ou evitadas, seguros que já nem se lembra que tem, compras recorrentes que não lhe acrescentam valor. Assim, “sem reduzir qualidade de vida, elimina desperdícios financeiros”.
3. Criar uma fonte complementar de rendimento. Depender apenas do salário, como fazem muitas famílias, “aumenta a vulnerabilidade financeira”. Por isso, aqui fica o conselho de Carina Meireles: “porque não transformar um hobby ou interesse pessoal numa fonte de rendimento? Mesmo que pequena, pode trazer maior estabilidade mensal”.
João Morais Barbosa, sócio fundador da Reorganiza
1. Acautelar a inflação. Este indicador, diz João Morais Barbosa, terá “impacto em todos os contratos”. Por isso, “devemos estar muito mais atentos à necessidade de renegociar os contratos”.
2. Dar prioridade à poupança. “Todos os momentos e oportunidades” são bons para poupar, diz o especialista. Seja um fundo de emergência ou um plano de reforma. Só depende de si.
3. Saber mais. “Mentalize-se da importância de aprender mais sobre finanças pessoais”, resume João Morais Barbosa. E há uma área em destaque: como começar a investir com risco. Sem conhecimento, será mais provável que tome más decisões.
Ana Bravo, especialista em economia doméstica e coach financeira
1. Assumir as finanças pessoais e a poupança como “atitude”. Não devem ser “algo que se faz por necessidade”, aconselha Ana Bravo. Assim, com “consciência” de que está a trabalhar para melhorar o estado da sua vida, acabará por ter “resultados visíveis”.
2. Colocar o dinheiro a poupar como primeira coisa a pagar. “A tendência é pagar todas as contas primeiro e poupar o que sobra. Este tipo de ação leva-nos “a poupar pouco ou mesmo nada”, diz Ana Bravo. Inverter a ordem pode trazer efeitos práticos. Coloque logo de lado o dinheiro que quer poupar. Assim, não acaba, por exemplo, em compras por impulso.
3. Fazer um mapa de todas as despesas. Pode parecer básico, mas não é. Procure perceber “quanto ganha e quanto gasta exatamente e em quê”. “Aí é que começam as surpresas”, ao ter consciência das coisas desnecessárias em que gastou dinheiro, diz Ana Bravo. “Garanto que vai começar a poupar imediatamente só por ter feito este exercício”.
Bernardo Mota Veiga. Físico, estratega, gestor, investidor e conhecedor de estratégias de investimento
1. Investir em si. Afinal, é em si que tudo começa. “Pergunte-se o que tem de adicionar aos seus conhecimentos, experiências, soft skills e hard skills, que lhe permitam aumentar o seu salário em 10%”. A maior parte de nós foca-se em rentabilizar as poupanças e esquece-se do quanto vale um salto salarial, por muito pequeno que seja”, aponta Bernardo Mota Veiga. Por isso, “não espere pela formação que a empresa lhe dá, procure a sua formação e invista nela”.
2. Não esquecer a estratégia fiscal na hora de investir. “Cada produto tem o seu tratamento fiscal cada vez mais complexo”, avisa o especialista. Decisões políticas podem impactar – e muito – o retorno. Por exemplo, esperam-se novidades em relação aos PPR, com a vontade da União Europeia de vincar este instrumento como um complemento à reforma. “Acompanhe o tema e aguarde. Pode ser uma boa oportunidade para investir em PPR ou produtos semelhantes”.
3. Apostar na área farmacêutica. A indústria farmacêutica “poder ser uma das grandes beneficiárias da inteligência artificial e da computação quântica”. Por isso, “investir uma parte em ETF de nova geração de farmacêuticas pode ser um bom investimento de longo prazo”.
4. Apostar na inteligência artificial. É uma revolução em curso e vai obrigar a grandes quantidades de energia e matérias-primas. “Investimentos na área da energia nuclear SMR (Small Modular Reactors) podem ser a nova coqueluche e representar uma promissora área a investir, assim como empresas especializadas no desenvolvimento, construção e operação de ‘data centers’”, aponta Bernardo Mota Veiga. Até porque “antes dos algoritmos serão necessárias as infraestruturas físicas”.
5. Apostar em Bitcoin. “Investir uma pequena parte em Bitcoin ou em produtos ligados à Bitcoin pode ser uma boa forma de colaterizar contra a instabilidade geopolítica, guerras de tarifas e consequentes impactos cambiais”, aconselha o especialista. E dá um valor de referência: “5% investidos em Bitcoin pode ser um risco que merece a pena”.
Filipe Garcia, Economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros
1. Preparar a reforma. “É provável que as pessoas vivam mais anos do que aquilo com que estão a contar ou prever”, diz Filipe Garcia. E daí que, para evitar apertos nessa fase da vida, seja importante “planear” e “atuar de imediato”.
2. Contrariar a inflação. É um “inimigo poderoso, muitas vezes silencioso e quase invisível”. Daí que, na hora de aplicar as suas poupanças, tenha de ter este indicador em conta, para evitar perder poder de compra.
3. Evitar erros financeiros. Se lhe parece rápido e barato, provavelmente é um erro. Evite “compras ou investimentos por impulso, ‘empréstimos’ a amigos ou familiares”, bem como endividar-se a um nível em que deixa de ser possível honrar os compromissos.
4. Antecipar e diversificar. “Os investimentos são como os juros: capitalizam. Comece a investir cedo, porque o tempo poderá fazer milagres pelo seu património. E diversifique”, aconselha.
5. Procurar a ajuda de um profissional. Se é um peixe fora de água neste mundo das poupanças e do investimento, procure quem sabe do assunto. “Se possível com mais do que um profissional”, reforça Filipe Garcia.