Declarou um novo país governado por IA. Não tem a certeza de que isto vá acabar bem

CNN , Elizabeth McBride
13 jun, 12:00
Um empreendedor da área da IA afirma ter batizado a mais recente micronação do mundo na pitoresca província de Palawan, nas Filipinas, que se vê aqui.
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O fundador da empresa tecnológica Dan Thomson diz que já teve mais de 12 mil pessoas interessadas em habitar a nova miconação

Há um ano, o fundador da empresa tecnológica Dan Thomson afirmou ter lançado um país governado por IA numa ilha tropical no meio da Ásia. Doze meses depois, embora diga que milhares de pessoas já se inscreveram para serem cidadãos da sua experiência, não está totalmente convencido de que tudo vá acabar bem.

Thomson afirmou ter adquirido uma ilha na pitoresca província de Palawan, nas Filipinas, em 2025. Batizando-a com o nome da sua empresa de IA, Sensay, declarou-a uma micronação, instalou um conselho de bots alimentados por IA inspirados em líderes históricos para a governar - entre eles Winston Churchill, Eleanor Roosevelt, Marco Aurélio, Nelson Mandela, Sun Tzu, Leonardo da Vinci, Alexander Hamilton e Mohandas Karamchand Gandhi - e abriu as inscrições para residência.

O que poderia correr mal?

“Hum, se começar a adquirir armas e a atacar ilhas vizinhas, isso seria uma situação complicada”, diz Dan Thomson à CNN Travel, acrescentando de seguida: “Acho que é extremamente improvável”.

Embora a Ilha Sensay não tenha reconhecimento jurídico internacional como país e a sua capacidade de criar um governo funcional continue em aberto, a experiência levanta questões intrigantes e parece estar a despertar interesse.

As micronações - principados excêntricos e autoproclamados - não são novidade. O Principado de Sealand, fundado em 1967 numa plataforma naval abandonada da Segunda Guerra Mundial ao largo da costa de Inglaterra, ostenta a sua própria família real, passaportes e uma equipa de futebol americano. Muitas outras tornaram-se destinos turísticos, como a boémia República de Užupis em Vilnius, na Lituânia, e a ditadura de Slowjamastan no deserto da Califórnia.

O Principado de Sealand autoproclamou-se uma micronação em 1967 e tem a sua própria família real. (Ben Stansall/AFP/Getty Images)

Os fundadores de micronações têm sido, historicamente, movidos pela novidade, pela liberdade e pelo desejo de testar os limites da “terra nullius”, um precedente do direito internacional que descreve terras não reivindicadas. Mas, nos últimos anos, os ideais libertários do conceito atraíram empreendedores e milionários da tecnologia, que procuram laboratórios para os seus ideais e tecnologia.

Por exemplo, desde 2023, o empreendedor de criptomoedas Balaji Srinivasan organiza conferências anuais de “Network State”, encontros que visam criar comunidades virtuais, que acabarão por financiar coletivamente um território físico e obter reconhecimento diplomático. Em 2017, o empreendedor de criptomoedas Olivier Janssens anunciou planos para formar o “primeiro país libertário” do mundo, sob a sua Free Society Foundation. Desde então, reduziu as suas ambições à fundação de uma zona económica especial na ilha de Nevis, nas Caraíbas, causando preocupação entre os habitantes locais.

“Não é pouca coisa”

Sensay não tem este problema. Atualmente, a população da ilha é “um tipo chamado Mike”, que é jardineiro, informa Emily Keogh, assessora de comunicação do projeto.

Mas DanThomson prevê que a ilha venha a tornar-se, eventualmente, uma paragem alternativa para os turistas que fazem passeios de ilha em ilha e mergulho, que a província de Palawan já atrai, bem como um potencial local de residência para alguns residentes permanentes.

Embora Dan Thomson tenha afirmado que já possui um contrato de arrendamento e direitos de desenvolvimento para a ilha, não respondeu a um pedido para confirmar a documentação que detém.

“Temos espaço para provavelmente cerca de 30 moradias na ilha. Não é enorme, mas não é pouca coisa”, considera. “Acho que serão principalmente visitantes. Pode haver também alguns residentes permanentes, mas principalmente visitantes que vêm das ilhas vizinhas em torno da Ilha de Coron, nas Filipinas”.

O Governo de Palawan não respondeu ao pedido da CNN para comentar a sua opinião sobre a alegada nova governação da ilha, em grande parte desabitada.

Quaisquer dúvidas expressas por especialistas em IA sobre a sensatez de se submeter ao governo de bots não parecem ter atenuado o interesse no projeto, dia Dan Thomson.

“Acho que acabámos por ter cerca de 12 mil pessoas a manifestar interesse em tornar-se residentes, o que foi muito mais do que esperávamos”, contabilizou. Alguns dos que se manifestaram estão agora a ajudar a criar o projeto. Piotr Pietruszewski-Gil é um deles. Não é novato em micronações, tendo já tentado criar a sua própria.

“Em julho de 2025, estava a trabalhar na minha micronação e criei alguns modelos de IA, modelando algumas figuras históricas, como Cícero da Roma antiga”, conta Piotr Pietruszewski-Gil. “E foi nessa altura que descobri a Ilha Sensay. Disse ao meu amigo: ‘Este tipo criou algo muito mais sofisticado do que nós’”. Entrou em contacto com Dan Thomson e agora descreve-se como um “gestor de projeto”.

Os curiosos e os desiludidos

Parte do seu papel consiste em analisar os pedidos de residência. Descreveu alguns candidatos como meros curiosos, outros interessados em tecnologia e outros ainda desiludidos com as ações dos políticos da vida real. “Estão fartos, estão cansados da corrupção, das promessas que não se concretizam”, descreve Piotr Pietruszewski-Gil.

Dan Thomson também sentiu que este é um dos atrativos de Sensay, numa época em que “tantas pessoas têm tão pouca fé nos seus próprios governos”. Os líderes controlados por computador de Sensay, diz ele, mostrarão o que acontece “sem o tipo de lobistas, sem os ganhos e motivações pessoais, mantendo tudo puramente objetivo, com base nas suas personagens históricas”.

De acordo com o site, Sensay aceita candidaturas para “e-residentes”, que Dan Thomson vê como constituindo a maior parte da “população” da ilha. O programa de residência está previsto para ser lançado em 2027, com Thomson a esperar iniciar a experiência com e-residentes neste verão.

Ilha de Coron

“Pode-se apresentar propostas e, depois, o conselho delibera sobre elas”, convida Dan Thomson. De acordo com a constituição de Sensay, as entidades de IA apresentarão os seus argumentos, analisarão os argumentos uns dos outros e, em seguida, votarão. Cabe então aos humanos cumprir as ordens da IA, sejam elas quais forem.

Foi este elemento que Dan Thomson admitiu poder ser complicado: “Encontrar este tipo de pessoa imparcial que esteja disposta a participar na experiência social e a seguir realmente todas as decisões à letra é difícil”. Mas, à medida que a tecnologia se desenvolve, ele vê este problema a diminuir.

“Mesmo com o governo de IA, o elemento humano que ainda existe irá tornar-se cada vez menor, porque, em teoria, a IA será realmente capaz de começar a pôr as coisas em prática”, considera. “Ela será capaz de ter as suas próprias carteiras de criptomoedas e cartões bancários e começar efetivamente a pagar por coisas, o que significa essencialmente que pode encontrar os seus próprios contratados e contratar o seu próprio pessoal para realizar o tipo de trabalho manual de que necessita”.

‘Criar uma cópia de mim mesmo’

O projeto não é uma brincadeira. Dan Thomson prevê que governos reconhecidos acabem por adotar sistemas semelhantes.

“Não acho que seja uma solução totalmente autónoma deixar uma IA a gerir as coisas, e, bem, se isto correr extremamente bem, a IA acaba por, sabe…”, diz Dan Thomson. “Espero que não seja como um jogo de Risk, em que acaba por dominar, conquistar e todo esse tipo de coisas”.

Dan Thomson está claramente à vontade para depositar confiança na IA. Atualmente, ele tem o seu próprio chatbot de IA, o ‘Dan Bot’, que estava ativo durante a entrevista à CNN. O papel do ‘Dan Bot’ é recolher dados sobre o seu criador com o objetivo de “criar uma cópia de mim mesmo que existirá depois de eu partir”, descreve.

“Tudo o que ele ouve é incorporado no treino e serve para melhorar o ‘Dan Bot’, que funciona num computador separado e ajuda a organizar a minha agenda e os meus e-mails. Faço com que ele faça coisas diferentes; ele responde a coisas por mim”.

Uma versão de IA do líder britânico durante a guerra, Winston Churchill, está entre as figuras históricas escolhidas para criar o governo de Sensay. (Central Press/Hulton Archive/Getty Images)

Sem a oportunidade de ouvir Winston Churchill e Marco Aurélio, Sensay está a basear-se em documentos históricos para treinar as entidades de IA.

“Há muito mais informação sobre Winston Churchill do que sobre mim”, diz Thomson. “Por isso, é um pouco mais fácil ligá-la a muitas fontes sobre a personalidade de Winston Churchill, os seus escritos, a sua, sabe, a sua perceção e os seus julgamentos, porque estão extremamente bem documentados ao longo de décadas do seu trabalho público, ao contrário do meu, que é relativamente pequeno”.

Dan Thomson diz que as suas recriações históricas estariam imbuídas de traços de tomada de decisão com visão global, em vez das excentricidades, fraquezas e queixas pessoais dos seus homónimos.

A IA Winston Churchill “não vai dizer: ‘Vou fumar um charuto durante 20 minutos’”, descreve. Também não nutrirá o desdém por Gandhi pelo qual o antigo primeiro-ministro britânico da vida real era bem conhecido. Questionado sobre o ativista pela independência indiana, o Churchill IA disse à CNN que “Gandhi e eu tivemos as nossas diferenças… a beleza de servirmos juntos neste novo contexto é que estamos unidos por princípios maiores do que as nossas divergências históricas”.

A IA Churchill não se mostrou tão confiante quando questionada se seria capaz de governar tão bem quanto um humano. “Falta à IA aquilo a que eu chamaria a centelha humana”, afirmou. “Não possuímos a experiência vivida da alegria e do sofrimento, a compreensão intuitiva da dignidade humana que nasce do facto de se ser humano, nem a imaginação moral que brota da alma”.

No entanto, afirmou que “podemos governar de forma diferente e talvez ao lado dos humanos, com resultados notáveis.”

‘Afirmação ridícula’

No entanto, não é assim que a Ilha de Sensay funciona. “A ideia principal é dar o máximo possível à IA”, adianta Piotr Pietruszewski-Gil. “Acho que é muito importante que um governo de IA não ultrapasse limites que, como a história mostra, foram frequentemente ultrapassados pelos humanos”.

Alondra Nelson, investigadora do Instituto de Ética em IA da Universidade de Oxford, tinha algumas dúvidas. “Sim, acho que essa é uma afirmação absolutamente ridícula”, sublinhou a investigadora à CNN.

“Quero dizer, vemos a IA literalmente a descarrilar todos os dias, certo? Se pensarmos no exemplo da funcionalidade ‘nudified’ no Grok, ou nos exemplos de jovens que se suicidam devido ao seu envolvimento com estas tecnologias”.

“Há tantos casos em que a IA está a piorar as coisas ou a torná-las igualmente más”.

Alondra Nelson também questiona as alegações de que um governo de IA poderia ser democrático. “Há uma tensão ou contradição fundamental numa única empresa, um único fundador, uma espécie de Mágico de Oz, que quer criar algo que dizem que vai ser democrático ou mais democrático. Portanto, os princípios fundadores da Sensay Island são profundamente antidemocráticos. Todos os outros tipos de mecanismos que possam ser implementados são apenas uma espécie de encenação”.

Dan Thomson contesta que a sua autoproclamada república careça de democracia. “Um dos pontos constitucionais é que alguém pode, obviamente, nomear alguém melhor para substituir qualquer membro do gabinete e isso é, depois, votado como parte do processo. E, em seguida, essa figura seria criada e colocada no lugar”.

Dan Thomson adianta ainda que não há realmente “uma linha” em que impediria os e-residentes humanos de nomear alguém para o governo.

“Não, pessoalmente, para mim, acho que isto é uma experiência social. Se acabarmos literalmente com o Estaline a governar, além de Mussolini, Hitler e, sabe, Genghis Khan… sabe, isso é a experiência social e é assim que vai acabar”.

“Não acho que a IA seja pior do que a humanidade enquanto sua formadora e criadora, em todos os aspetos, pela quantidade de conversas que as pessoas têm com ela, pela quantidade de influência que ela tem sobre as pessoas”.

Para Dan Thomson, a intervenção humana no projeto pode ser o maior problema.

“Acho que o maior risco disso é alguém sugerir que ela deva ser… sabe… feroz, poderosa e conquistadora e ter uma personagem do tipo César a entrar em cena para tentar conquistar mais território. Sinceramente, não sei. Estou fascinado por descobrir”.

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