Como reagir quando um filho decide mudar de curso ou de área de estudo? O que fazer quando um filho decide mesmo abandonar os estudos e ir trabalhar? O sentimento de frustração é quase inevitável, mas contrariar dificilmente será o caminho. “Proibir? Qual é a vantagem?”, questiona a psicóloga Ana Lage Ferreira
Sandra Silva é mãe de dois rapazes, de 20 e 19 anos. Ambos decidiram mudar totalmente as suas vidas e recomeçar. Um deles abandonou mesmo os estudos quando estava prestes a completar o 12.º ano e foi trabalhar. O outro mudou de área de estudo quando já tinha completado o 11.º ano, “recomeçou do zero” no 10.º ano e, quando tudo fazia crer que fosse seguir o caminho do ensino e tornar-se professor de História, decidiu dar nova volta à vida e ingressar no exército.
Comecemos pela história de João, o filho mais velho de Sandra. Estava no 11.º ano, em Ciências e Tecnologia, quando decidiu mudar de área e voltar para o 10.º ano, em Artes. “Tínhamos acabado de sair do confinamento, por causa da covid. Foi no primeiro ano, após o confinamento”, começa por recordar Sandra, em conversa com a CNN Portugal.
“O 10.º ano não correu mal. Mas o primeiro período do 11.º correu muito mal. Desmotivou, não falava sobre o que se estava a passar… quase não queria sair do quarto, não falava. Eu não conseguia chegar ao meu filho. Comecei a não achar normal não haver testes. Os outros tinham recebidos testes e já estavam na segunda volta dos exames e o meu não tenha nada para eu assinar. Um dia, cheguei do trabalho e fui dar uma volta ao quarto e encontrei os testes. Eram muito maus. Para ter uma ideia, ele no 10.º ano não tinha sido um aluno brilhante, mas era um aluno mediano. Aqueles testes tinham notas de quatros e cincos em 20…”, conta.
Sandra procurou conversar com o filho, que negava haver qualquer problema. Mantinha, porém, a mesma desmotivação, a mesma tristeza e a mesma apatia. Incapaz de conversar com o filho e fazer com que ele abrisse o coração, Sandra procurou ajuda profissional. “Fui com ele a uma psicóloga, mas não correu bem. Foi lá duas vezes e pediu-me para não ir lá mais. Era uma pessoa mais idosa e não foi capaz de se colocar ao nível dele. Procurei outra, que faz também aconselhamento vocacional e foi uma grande mais-valia”, recorda.
Bastaram três consultas para, dentro do coração de João, se fazer luz sobre o que estava errado: “Um dia, depois da terceira consulta, ligou-me e disse-me ‘mãe, já sei o que quero! Quero ir para Artes!’. Não foi uma surpresa, confesso. No 9. ano, achei que ele ia para Artes, mas ele meteu na cabeça que queria ser engenheiro ambiental e foi para Ciências e Tecnologia”.
Como a decisão não surpreendeu a mãe, Sandra diz que apenas lhe perguntou: “o que precisas de fazer?”. E ele estava decidido e sabia exatamente o rumo a tomar: “Foi à escola, falou com a direção e eu à tarde quando cheguei, já tinha os papeis para assinar”.
Nova reviravolta
João completou o 12.º ano e tudo indicava que o caminho seria o ensino superior. “Ele queria ir para Desenho 3D, mas, na escola, incentivaram-no a ir para História de Arte, porque havia falta de professores e ele teria emprego garantido”, conta Sandra.
João fez todo o percurso, candidatou-se, entrou, mas não chegou a pôr os pés na faculdade. Voltou a mudar de vida. Candidatou-se ao Exército e ingressou numa carreira militar. “Está feliz”, garante a mãe, adiantando que sabe que “se se arrepender e quiser voltar a estudar, o vai fazer com sucesso”.
Sandra assegura que os avanços e recuos na vida de João não a deixaram apreensiva. “Quando não sabia o que estava a passar, aí sim, sentia-me frustrada. Depois… ver os testes escondidos, senti-me revoltada. Claro que temos expectativas para eles. Mas temos de perceber que não são as nossas. Quando o vi resolvido, a tratar de tudo como um adulto… Ele tinha certezas do que estava a escolher. Essas certezas deram-me algum conforto”, reconhece.
Quando a história se repete
No caso de Sandra Silva, não há duas sem três. Depois das duas reviravoltas que João deu na vida académica, o irmão Rodrigo seguiu-lhe o exemplo. “O Rodrigo tem agora 19 anos e um percurso um pouco diferente. Escolheu a formação profissional. Foi para um curso de Informática. Ao fim de um ano e meio resolveu que não era aquilo que queria e que não queria estar sentado numa cadeira a vida toda. Agora está a trabalhar. Eu queria que ele continuasse. Só lhe falta fazer a PAP [Prova de Aptidão Profissional]. Mas ele não quis e preferiu ir trabalhar. Está na AutoEuropa e está feliz com o dinheiro que ganha”, relata.
Sandra fala do percurso do filho Rodrigo com maior apreensão do que aquela que demonstra em relação ao filho João: “O Rodrigo não andou para trás, porque eu não deixei. Sei que é um menino que se vai agarrar a qualquer trabalho. Mas eu gostava que ele tivesse mais formação. Muita formação já é pouca hoje em dia. É uma pena, porque ele podia ser o que ele quisesse”.
Mas, no fim de contas, só quer que os filhos sejam felizes. “Espero que encontrem os trabalhos que querem. Se não forem estes, que escolham outros”, diz, com alguma resignação.
A falta de apoio
No meio destes avanços e recuos, Sandra só lamenta que os jovens não sejam mais apoiados nas escolhas que fazem pelo próprio sistema de ensino: “Podia haver umas palestras, sei lá… trazerem pessoas que já estavam a frequentar os cursos, para lhes falar desses cursos. Trazerem profissionais das áreas, para eles ouvirem”.
De alguma forma, a psicóloga Ana Isabel Lage Ferreira, concorda com Sandra Silva. A especialista considera que o “primeiro questionamento” e a primeira reflexão sobre o futuro surge “tardiamente” na vida dos jovens. “Todo o percurso educativo está organizado como isso mesmo, como um percurso, em que é esperado aquilo que vem a seguir. Os jovens vão seguindo aquilo que é esperado. A escolaridade é obrigatória, tem de se estar na escola até aos 18 anos. Não se questiona. O primeiro questionamento só surge entre o 9º e o 10 ano e é muito tardio. Esta ideia de que aquilo que eu estou a aprender tem a ver também com os meus interesses surge numa fase muito tardia. Não quer dizer que seja tardio na idade, mas é muito em cima da reflexão. Essa ligação entre o que eu aprendo e aquilo que eu quero ser é ainda mais tardio”, sublinha a psicóloga.
Ana Isabel Lage Ferreira constata que, muitas vezes, os jovens seguem a via mais óbvia: “Aqueles jovens que não têm uma tendência para nenhuma área específica chegam ao 10º ano e escolhem muitas vezes o mais óbvio e, muitas vezes, influenciados por outras pessoas. Normalmente, vão para Ciências e Tecnologia, porque ‘tem muitas saídas’”.
As águas agitadas dos atletas de alta competição
“Maria”, nome fictício, também se queixa da falta de apoio, mas por motivos diferentes. Atleta de alta competição, por diversas vezes elevou bem alto o nome de Portugal. Na família, apesar das exigências financeiras que o desporto que escolheu impunha, sempre teve apoio da família. Já do sistema educativo, a atleta olímpica de Vela, nem sempre teve a devida compreensão. “Teve alguma dificuldade em conseguir conciliar os estudos com a Vela. Teve professores que lhe diziam mesmo que ou fazia o curso ou fazia vela”, recorda a mãe, Susana Neto.
“No primeiro ano que esteve no Ensino Superior, só não conseguiu fazer mais disciplinas por causa das dificuldades que lhe eram impostas por ser atleta de alta competição. Conseguia fazer as disciplinas teóricas todas, mas não conseguia fazer as práticas”, lamenta.
“Maria” foi a chamada ‘condicional’. Entrou para a escola aos cinco anos e teve um percurso académico sem percalços até chegar ao Ensino Superior. “Quando surgiu a altura de ir para a universidade, como é atleta de alta competição e completamente apaixonada por Vela, esteve um bocado indecisa se ingressava na Marinha ou se ia para o Ensino Superior. Viu que não era compatível o desporto de competição e a Marinha e desistiu da ideia. Esteve a fazer um ano sabático para se dedicar mais ao desporto. Mas foi o ano da pandemia e não fez nada. Nem desporto, nem estudo”, recorda Susana.
Depois de um ano parada, nova indecisão. “Foi para o Ensino Superior, mas estava indecisa entre dois cursos. Decidiu ir para Pilotagem, para ter alguma coisa ligada ao mar, que era o que ela gostava. Gostava muito de Engenharia Naval, mas por causa do valor do alojamento (somos do Algarve e ir para Lisboa e alugar um quarto pelos valores que pedem estava um pouco fora de questão e, na altura, não sabíamos que os atletas de alta competição podiam ficar alojados no Jamor). Tentámos convencê-la a ir para Pilotagem, porque tinha hipótese de ficar na residência universitária”, conta a mãe.
“Fez o primeiro semestre, dedicava-se e tinha muito boas notas, mas não a fazia feliz. Andou ali, porque tinha de tirar o curso. Não estava feliz. Ia tirar aquele curso para nos agradar”, lamenta Susana.
Mudança "inevitável"
Susana Neto, assistente social de profissão, reconhece que “a mudança de curso era inevitável”. “Maria” ainda tentou que essa mudança acontecesse dentro da própria universidade e naquele mesmo ano, mas o pedido não foi acolhido. “No ano seguinte, concorreu outra vez e entrou em Transportes e Logística. Está na equipa olímpica, não vive em Portugal e praticamente não vai à universidade. Estuda sozinha. Tem até melhores notas do que os colegas que vão às aulas. Faltam-lhe quatro disciplinas para acabar o curso e vai inscrever-se no mestrado”, contabiliza Susana.
“Deste curso, está a gostar. É mais amplo, tem mais saída e pode um dia trabalhar em algo ligado à Vela”, sublinha.
À semelhança de Sandra, Susana garante que encarou bem a mudança decidida pela filha. Afinal de contas, “a gente só quer que eles sejam felizes”.
Mas as mudanças nem sempre têm este acolhimento nas famílias e são, muitas vezes, motivo de angústia para pais e filhos. “Os pais criam expectativas em relação aos filhos. Quando é anunciada uma mudança no percurso académico, há a sensação dessa expectativa ficar gorada. Há uma sensação de fracasso para toda a gente. Não só para o jovem, mas para toda a gente. Devia ser um momento saudável, em que o jovem pela primeira vez está a escolher e a tomar decisões para a sua vida, mas é encarada como um momento de ‘oh meu deus, é um miúdo perdido’”, reconhece a psicóloga Ana Isabel Lage Ferreira.
“Os pais acabam por ter uma atitude quase de resignação”, resume a especialista.
"A gente deixa-o, mas…"
A psicóloga adianta que essa ideia de “fracasso” acaba por arrastar outras “emoções negativas”. O medo é uma delas. “Há, muitas vezes, o pensamento ‘e se vai mudar e não gosta e vai mudar outra vez?’. Ouço muitas vezes dos pais ‘nós deixamos, mas e se ele não gosta ou não se dá bem e muda outra vez?’”, relata.
Mas os pais têm de ‘deixar’? Está do lado deles esse poder de decisão? “Essa fronteira é muito difícil de impor. Principalmente quando estamos a falar de menores, os pais não podem demitir-se. E é importante que participem dessa reflexão. Esta decisão tem de ser partilhada, tem de haver esse suporte. Essa ideia do ‘faz o que quiseres, porque é a tua vida’ não é necessariamente positiva. A participação na reflexão dá uma ideia de suporte, de apoio, que é importante no desenvolvimento dos jovens”, sublinha Ana Isabel Lage Ferreira.
“Em família, que é onde a matriz emocional se constrói, é muito importante a ideia de ‘estou contigo, vou apoiar-te’. Não necessariamente ‘vou influenciar-te’, mas ‘vou ajudar-te a refletir, a ultrapassar as burocracias’”, resume.
O dever de alerta
A psicóloga defende também que é importante o papel da família de alertar os jovens para as consequências que a decisão pode trazer. Ana Isabel Lage Ferreira lembra que o jovem vai sofrer perdas importantes na sua rede social: vai perder amigos, eventualmente mudar mesmo de escola e mudar de rotinas e alterar a estrutura quotidiana.
“É um momento muito ameaçador. Qualquer mudança que implica alterações no nosso quotidiano é muito assustador”, sublinha.
Então, o que deve um pai fazer quando é confrontado por um filho com a decisão de mudar ou recomeçar um percurso académico? A psicóloga resume a questão em três aspetos:
- Abrir a comunicação.
“É importante colocar ao jovem questões como ‘o que estás a sentir?’, ‘de onde vem essa decisão?’, para perceber e o ajudar a refletir sobre a decisão que está a tomar”.
- Perceber o nível de maturidade da decisão.
“É fundamental perceber o nível de maturidade da decisão. Não necessariamente do jovem, mas da decisão em si. ‘Estou mesmo decidido?’, ‘estou com dívidas?’, ‘já tenho um plano?’”.
“Quando já existe um nível de maturidade elevado, há muito pouca reflexão a fazer, mas é importante ajudar, garantir que pensou em questões como ‘como vai ser quando mudares de escola?’, ‘quando os teus amigos não estiverem lá?’… Garantir que já pensou nas questões potencialmente ameaçadoras. Isto solidifica sempre o processo de tomada de decisão. Este miúdo precisa de sentir ‘claro que tinha de tomar esta decisão’. Se vai com alguma dúvida, qualquer obstáculo que encontrar mais à frente vai ser muito difícil de gerir”.
- Perceber se tem recursos.
“É fundamental perceber se basta falar com o diretor de turma ou a psicóloga da escola ou se precisa de mais algum acompanhamento mais sistemático. Perceber se a tomada de decisão está a ter impacto no funcionamento do jovem e procurar alguém que o acompanhe. Às vezes precisam de procurar um profissional, especialista em orientação vocacional e de perspetivas de carreira.
“Pode não ser uma única conversa. Pode desenrolar-se ao longo de alguns dias, semanas… é um pouco aquela máxima do ‘Não insiste, mas também não desiste’. Mas é importante transmitir ao jovem que as decisões para serem tomadas têm de ser pensadas”, diz a profissional de saúde mental.
“Fazer o luto”
Emocionalmente, para os pais, muitas vezes, há a necessidade de “fazer o luto”. “Porque há um luto a fazer das expectativas que se criaram. Mas há que aceitar que é o percurso deles, a vida deles, que vão ter de lidar com os desafios e com a vida”, sublinha Ana Isabel Lage Ferreira.
“É uma decisão muito importante, porque é para a vida toda. Apanho, como clínica, muitos adultos que têm uma profissão que dizem que não tem nada a ver com eles. E é importante que os pais façam esse exercício de se projetarem no futuro dos filhos e pensarem como seria se fossem influenciados ou conduzidos a terem uma profissão que não os fazia felizes”, diz a psicóloga.
“Proibir? Qual é a vantagem?”, questiona.
A psicóloga faz questão de deixar uma “nota relevante de esperança e de tranquilidade” para os pais e para os jovens que se encontram nesta situação: “Se não todos, praticamente todos os casos em que esta mudança aconteceu foram bem-sucedidas. Os jovens ficam muito mais felizes, têm um rendimento académico melhor e, na família, também há uma melhoria. Há uma melhoria do bem-estar não só dos miúdos, mas também da família”.