Carlos quer fazer uma vasectomia para não correr o risco de pôr um filho num planeta com um futuro incerto. Nídio não se sente preparado para ser pai. Filipa está feliz sozinha e não quer perder a sua liberdade. Paula e Alexandre decidiram não ter filhos quando ainda eram namorados e 34 anos depois não podiam estar mais felizes com essa decisão. São cada vez mais as pessoas que não querem ter filhos. Todos lhes dizem que um dia ainda vão mudar de ideias. Mas os números dizem o contrário
“Uma vasectomia? Tem a certeza?” O médico olhou-o com estranheza. Carlos respondeu: “Sim, tenho a certeza.” Iria repeti-lo outras vezes ao longo da consulta. “Falámos sobre várias coisas, ele examinou-me e de vez em quando voltava a perguntar se eu tinha a certeza. Se não tivesse a certeza não estaria ali, não é?”, comenta, ao recordar esta história. Carlos tem 27 anos e está a estudar engenharia eletrotécnica. Não sabe o que fará profissionalmente, não sabe se alguma vez vai dividir a vida com alguém, não sabe muito sobre o seu futuro, mas se há algo de que está bastante seguro é que não terá filhos. “Esta é uma decisão definitiva. Já sei que me vai perguntar se não irei mudar de ideias um dia. E o que posso dizer é que esta decisão é definitiva ao ponto de ter consultado um médico para fazer uma vasectomia.”
Carlos não se lembra de alguma vez ter sentido vontade de ter filhos. Simplesmente, não pensava no assunto. Depois, durante a pandemia, recorda-se que estava fechado em casa a ver as imagens dos grandes incêndios na Austrália. “Já era uma pessoa interessada neste tema, mas quando vejo o que está a acontecer na Austrália extrapolo para o que pode acontecer na Europa. A maior parte das pessoas nem percebe o que são as alterações climáticas. Para nós, isso significa que o clima mediterrânico vai desaparecer, o nosso clima vai ficar parecido com o do Norte de África. As pessoas não vão poder viver em determinadas regiões, e o sul da Europa é uma dessas regiões que vai ser mais afetada. Daqui a 10, 20 anos as coisas estarão a mudar. A nossa vida será muito diferente. E não vamos ter a qualidade de vida que temos hoje.” Ao tomar consciência disto, o passo seguinte foi, logicamente, pensar como poderá ser a sua vida neste contexto, que planos fazer? “Sei que não vou ficar a morar em Portugal, quero ir morar na Europa Central ou do Norte. E sei que não quero ter filhos. Qual é a moralidade de pôr pessoas nesta situação? Para mim, é um dilema moral.”
Daqui a 10, 20 anos, a nossa vida será muito diferente. E não vamos ter a qualidade de vida que temos hoje. Qual é a moralidade de pôr pessoas nesta situação?", Carlos, 27 anos
Para Nídio, não houve um momento de decisão. “Foi um processo gradual”, diz. Nídio tem 32 anos, trabalha em comunicação e tem uma relação estável. A decisão de não ter filhos foi tomada em conjunto com o parceiro. “A verdade é que nem eu nem o meu companheiro alguma vez nos imaginámos com filhos. No meu caso, diria que não é algo que descartaria completamente, mas não sinto ter ainda a maturidade nem as condições necessárias para cuidar de uma criança. No caso do meu companheiro, é um assunto que para ele está fechado. Costuma dizer que não quer trazer uma criança a um mundo onde cresce a desigualdade, a injustiça, a insegurança. E eu concordo. Há vislumbres sobre o futuro que nos deixam um bocadinho assustados e pensar que trazemos alguém a este mundo para uma vida mais difícil não nos parece justo, antes egoísta.” Acresce a isto que, por serem um casal homossexual, ter um filho “implicaria um processo de adoção – ou de barriga de aluguer, que ainda não é possível em Portugal. Ambos são muito caros e desgastantes”, conclui.
Ter uma carreira, comprar uma casa, ter filhos: já não somos assim
Carlos e Nídio não são casos únicos. Em 2019, quando foi feito o Inquérito à fecundidade, 42,2% das mulheres dos 18 aos 49 anos e 53,9% dos homens dos 18 aos 54 anos não tinham filhos.
Todos os anos a notícia repete-se: o número de nascimentos em Portugal está a diminuir. Entre 2013 e 2019, o número médio de filhos dos portugueses desceu de 1,03 para 0,86. “Há uma razão inicial para o que está a acontecer: o desenvolvimento social”, afirma a socióloga Maria João Valente Rosa, demógrafa e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa. Este desenvolvimento é visível, por exemplo, na diminuição da mortalidade infantil e nos avanços do conhecimento médico e científico. Mas também nas melhores condições de acesso à saúde, o aumento do nível de instrução, a urbanização e a terciarização da economia, a emancipação profissional da mulher. “É por estarem associados ao desenvolvimento social que, em termos mundiais, são os países mais desenvolvidos que revelam níveis de fecundidade mais baixos”, explica a investigadora. “Nestas regiões, a criança perdeu o seu valor económico, nomeadamente de segurança na velhice ou de ser mais um ‘braço para trabalhar’, e passou a ter um valor fundamentalmente emocional.”
Há vislumbres sobre o futuro que nos deixam um bocadinho assustados e pensar que trazemos alguém a este mundo para uma vida mais difícil não nos parece justo, antes egoísta", Nídio, 32 anos
Em Portugal, refere, “a esmagadora maioria da população ambiciona ter pelo menos um filho. Contudo, e destoando ainda de muitos outros países europeus, em Portugal é muito elevada a proporção de pessoas que ficam pelo primeiro filho. Segundo dados do Eurostat, Portugal está, aliás, entre os países da UE com maiores proporções de agregados familiares com apenas uma criança”, sublinha Maria João Valente Rosa. “Para se ter ou não um filho, já não funciona tanto, como no passado, a sorte ou o acaso, embora tal possa ainda acontecer, nomeadamente por razões de infertilidade. É uma decisão usualmente muito pensada. O Inquérito à Fecundidade de 2019 revelou aliás que a ‘vontade’ foi o motivo mais importante para a decisão, tanto de não ter filhos, como de não ter mais filhos”, explica a demógrafa.
“A relativa linearidade sequencial entre ter uma carreira, depois casar e em seguida ter filhos, já não se verifica”, observa a socióloga. “A sociedade está, de facto, muito diferente do que era há umas décadas.” Ter um filho é, hoje em dia, um ato muito planeado, sublinha Maria João Valente Rosa. “Ter uma criança significa investir num projeto futuro que se espera o melhor sucedido possível, o qual é frequentemente adiado até estarem reunidas as melhores condições para tal acontecer.” Circunstâncias como a estabilidade conjugal ou ter um(a) parceiro/a com perfil adequado, a segurança financeira e estabilidade no emprego, habitação, garantias de apoio ao cuidado dos filhos enquanto são pequenos, e a possibilidade de conciliar tempos e projetos de vida familiar com a vida profissional estão, segundo a socióloga, entre as mais determinantes no momento de tomar a decisão de ter ou não filhos - decisão que, diz, é tomada cada vez mais tarde.
"Olha, eu não quero ter filhos, nunca quis e dificilmente quererei"
Paula Silva e Alexandre Coutinho estão juntos há 34 anos. “Nunca quis ter filhos”, recorda Paula. “Em criança já tinha a certeza que não queria ser mãe. Não foi propriamente uma decisão, apenas sabia que não queria. E poderia ter mudado de ideias, mas a verdade é que nunca senti esse clique do relógio biológico, como se costuma dizer.” Quando eram namorados, na juventude, e a relação começou a ficar mais séria, Paula fez questão de avisar Alexandre: “Olha, eu não quero ter filhos, nunca quis e dificilmente quererei. Portanto, se isso é algo que tu queres mesmo, talvez seja melhor procurares outra mulher”, disse-lhe. “Eu acho que esta é uma decisão tão importante, tão life-changing, que tu tens mesmo de saber o que é que queres, não podes impor isso a outra pessoa. Mas ele estava de acordo e foi ótimo, nunca houve discussões sobre o tema.”
Paula e Alexandre não tinham ainda 30 anos, mas para eles essa era a decisão que fazia mais sentido. “Não fazia questão de ter filhos. Poderia ter, poderia não ter. Portanto, não tinha uma posição fechada”, recorda Alexandre. Mas à medida que foram conversando sobre o assunto, tudo ficava mais claro. “Há toda uma série de condicionamentos que acabam por limitar a vida do casal. E isso foi algo que talvez tenha pesado mais para o lado do não. Não enveredei por essa aventura de ser pai, enveredei por outras aventuras.”
Maria João Valente Rosa recorda os resultados do inquérito português à fecundidade de 2019, que revelaram que 8,4% das mulheres e 11,0% dos homens no período fértil não queriam ter filhos. “Não é um valor muito elevado, quando comparado com outros países europeus, embora tenha aumentado comparativamente ao inquérito anterior, realizado em 2013”, destaca a investigadora. A decisão voluntária de não ter filhos pode ter vários motivos, “uns de carácter mais individual/pessoal, como o não sentir qualquer empatia com o facto de se ser mãe ou pai, outros de carácter mais coletivo/social, como o são as incertezas em relação ao futuro e medos associados”. A socióloga refere como exemplo “os receios com as alterações climáticas (o medo do ’apocalipse climático’), o excesso de população mundial relacionado com a ideia de insustentabilidade do planeta, a ideia de uma sobrecarga financeira e social que as gerações futuras nascidas hoje terão de suportar, ou a instabilidade política mundial e as guerras”.
“Acho que a maioria das pessoas nem pensa nisso, é a sequência natural daquilo que a sociedade te impõe. Tu namoras, casas, tens filhos. As pessoas não pensam sequer quais são as consequências. Muitas pessoas têm filhos porque sim”, diz Paula Silva. “Nós pensámos muito nisso. E quando se pensa, racionalmente, há muitos motivos para não ter filhos, não é? É um compromisso para a vida inteira, porque é assim que o vejo e acho que só se pode ser mãe ou pai quando de facto se quer e se está empenhado nisso. Quando tomas uma decisão tão importante como ter filhos tem de ser mesmo a sério.”
Nós pensámos muito nisso. E quando se pensa, racionalmente, há muitos motivos para não ter filhos, não é? É um compromisso para a vida inteira. Quando tomas uma decisão tão importante como ter filhos tem de ser mesmo a sério”, Paula, 57 anos, e Alexandre, 61
Paula e Alexandre pertencem ao universo de casais sem filhos que, segundo os dados obtidos no Censos de 2021, representam 36% dos núcleos familiares convencionais, isto é, pessoas que vivem na mesma casa e têm uma relação de conjugalidade. Paula admite que teve uns pais maravilhosos que nunca a fizeram sentir culpada nem a pressionaram para ser mãe. Já a mãe de Alexandre teve um pouco mais de dificuldade em aceitar que não seria avó. “A mãe do Alexandre dizia-me muito: quem é que vai tomar conta de ti quando tu fores velhinha? Esse é um dos argumentos que mais me irrita e é muito egoísta. Vou ter filhos para ter quem tome conta de mim na velhice?” Da mesma forma, também não sentem que precisariam de filhos para “dar um sentido” à sua vida ou para se sentirem emocionalmente satisfeitos. Têm-se um ao outro, têm família, têm amigos, adoram acompanhar a sobrinha, convivem com crianças e jovens, têm atividades e interesses. A vida tem muitos sentidos, que não passam necessariamente pela parentalidade.
De vez em quando, aparece alguém que pergunta: ainda não se arrependeram? Hoje, Paula tem 57 anos e Alexandre 61. Continuam felizes, viajaram, mudaram de empregos, mudaram de terra, mudaram de vida. “Nunca nos arrependemos, não. E devo dizer que já passámos por fases difíceis da nossa vida, a nível pessoal, profissional, até economicamente. Isso só reforçou a nossa convicção.”
Não querer filhos ainda é um estigma, sobretudo para as mulheres
Filipa Pereira tem 37 anos e há pelo menos oito que sabe que não quer ter filhos: “Pode ser uma decisão muito egoísta, mas depois de ver como as vidas das minhas amigas e dos meus irmãos mudaram depois de terem filhos, a juntar ao facto de estar solteira há mais de cinco anos e de o meu orçamento ser limitado, acho que seria ainda mais egoísta da minha parte ter uma criança. Já para não falar que não tenho nenhuma rede de apoio na cidade onde vivo e para ter filhos teria de abdicar da qualidade de vida que tenho e passaria a ter de gerir a minha vida em torno de outra pessoa”, explica. Egoísmo? Talvez, concorda. “Não estou disposta a abdicar da minha pouca estabilidade financeira (ter filhos é muito caro) e de coisas tão simples como poder dormir e sair de casa sem ter de levar uma prole atrás.”
“Ah, tu ainda mudas de ideias!” Este é um dos comentários que Filipa ouve mais vezes. “Existe imensa pressão social, principalmente da família”, confessa, explicando que a pressão é ainda maior quando é uma mulher a dizer que não quer ter filhos: “A sociedade portuguesa ainda tem muito enraizado que o papel das mulheres é serem mães e donas de casa”, diz. “Só há dois anos é que, depois de mais uma discussão com a minha mãe e com a minha irmã, é que finalmente encaixaram que era uma decisão minha e que não adiantava andarem a espicaçar-me para que isso acontecesse porque não vai.”
Não estou disposta a abdicar da minha pouca estabilidade financeira (ter filhos é muito caro) e de coisas tão simples como poder dormir e sair de casa sem ter de levar uma prole atrás”, Filipa, 37 anos
Maria João Valente Rosa está otimista: “Apesar de o estigma sobre quem não quer ter filhos ainda existir, a sociedade está a caminhar, ainda que lentamente, em direção a uma maior aceitação e respeito pelas escolhas individuais, assim como a um maior entendimento de que a realização pessoal, presente ou futura, pode vir de muitas formas, para além da parentalidade”, afirma.
No entanto, admite que “ainda não é entendido de forma natural se alguém que assume não querer ter filhos for fértil e tiver uma relação conjugal estável, especialmente quando se é mulher”. “Continua a persistir, para muitos, a ideia de que as mulheres têm um instinto natural para cuidar e nutrir, e, por isso, escolher não ter filhos é visto como ‘antinatural’. Como se uma mulher fértil só tivesse a sua vida ‘completa’ se for mãe.”
“Quem tem essa vontade de não ter filhos continua, sobretudo as mulheres, a ter de se sujeitar a redobradas justificações de tal opção para evitar julgamentos recriminatórios, de egoísmo ou de insensibilidade, por parte dos outros", observa a socióloga. "Apesar de menos intensa que no passado, persiste uma forte pressão familiar e social para a parentalidade, a qual está profundamente ligada a normas culturais, expectativas sociais e estereótipos de género, que adquirem uma intensidade variável de acordo com o contexto cultural, religioso e familiar.”
Carlos tem a noção de que pertence a uma minoria. E que por haver uma expectativa assumida por parte da sociedade de que as pessoas tenham filhos, aquelas que não querem devem dizê-lo quando iniciam uma relação. “Não é honesto, se não o disser”, explica. Como é muito reservado, não fala muito desta sua decisão. Mas quando, por algum motivo, numa conversa com amigos sobre o futuro ou sobre alterações climáticas, tenta expor o seu ponto de vista, já reparou que “as pessoas reagem mal e querem explicações”. “Se eu disser que ter filhos não é o mais correto, pensam que é um ataque pessoal. Principalmente as pessoas mais velhas.” E é claro que há sempre alguém a garantir-lhe que ainda vai mudar de opinião. Por isso, Carlos geralmente evita o tema. “Não estou a tentar convencer ninguém. Até porque as pessoas não querem ser convencidas.”
Quem tem essa vontade de não ter filhos continua, sobretudo as mulheres, a ter de se sujeitar a redobradas justificações de tal opção para evitar julgamentos recriminatórios, de egoísmo ou de insensibilidade, por parte dos outros", Maria João Valente Rosa, socióloga
Apesar de a decisão estar tomada, Nídio e o companheiro também sentem que existe alguma pressão da sociedade. “Vejo que, para muitas pessoas, é uma espécie de concretização de uma etapa que os outros esperam que cumpramos. A maior pressão é para o casamento, mas o passo seguinte é sempre a pergunta pelos filhos", conta. “Para os pais é esse o principal trauma: a ideia de que o legado não vai continuar, de que não haverá uma nova geração. Tem havido vários desabafos neste sentido. ‘A família não vai crescer’, ‘gostava de ter netos’. Mas são expectativas que foram criadas não por nós, mas pela sociedade em geral”, considera. “Tendemos a demonstrar o nosso desconforto em ambos os temas. Não há, por isso, uma troca de argumentos. Devíamos deixar de perguntar às pessoas se querem ou não ter filhos. É a decisão delas. E não temos nada a ver com isso. Ou muitas vezes desconhecemos os motivos por detrás dessa realidade.”
Se tivesse de deixar uma mensagem a quem está agora a ponderar se deve ou não ter filhos, Nídio diria: “Está tudo bem em não ter filhos. Como também está tudo bem em decidir tê-los. Não se deixem afetar nas vossas decisões.”
Esse é também o conselho de Filipa: “Metam tudo na balança: o desejo de ter uma família, o custo de ter filhos, a felicidade ou infelicidade que isso vos traz. É uma decisão que deve ser nossa, não de terceiros. Não adianta ter um filho para fazer alguém feliz quando essa decisão só nos vai deixar miseráveis. É um filho, não um bibelot que se compra e que quando não dá jeito se arruma no canto do armário.”