Mais de metade dos pais monitoriza a localização dos filhos entre os 18 e 25 anos, segundo uma sondagem realizada nos Estados Unidos. Especialistas alertam para os riscos
O rastreamento da localização através do telemóvel pode ajudar os pais a terem alguma tranquilidade quanto ao paradeiro dos filhos menores — e algumas famílias chegam mesmo a tornar essa prática obrigatória para os mais novos.
Mas e quando os pais seguem os filhos já adultos? Isso ajuda a aliviar as preocupações parentais ou acaba por gerar ainda mais ansiedade?
Mais de metade dos pais monitoriza os filhos adultos através de tecnologia digital, concluiu uma nova sondagem publicada recentemente pelo C.S. Mott Children's Hospital da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, nos Estados Unidos.
Quase 25% dos pais que seguem a localização dos filhos adultos afirmaram que essa monitorização pode, por vezes, aumentar as suas preocupações em vez de lhes dar tranquilidade, segundo o inquérito.
“Este tipo de rastreamento pode alimentar e provocar ansiedade nos pais porque, quando se tem apenas um ponto de informação, o cérebro tem de preencher o resto”, explica Kara Alaimo, colaboradora da CNN e professora de Comunicação na Fairleigh Dickinson University, em Nova Jérsia, que não participou no estudo. “É preciso fazer suposições e tirar conclusões precipitadas, que podem ou não corresponder à realidade.”
Cerca de 68% dos pais afirmaram utilizar estas ferramentas para reduzir as suas próprias preocupações, 64% disseram fazê-lo para situações de emergência e 17% referiram que o objetivo era garantir que o filho — já legalmente adulto — estava num local que consideravam apropriado.
Sarah Clark, investigadora da Universidade de Michigan e codiretora da sondagem Mott, considera que nenhuma destas razões torna necessária a monitorização de filhos adultos. Sem uma comunicação clara e limites bem definidos, diz Clark, a vigilância à distância pode não só prejudicar a relação entre pais e filhos como também dificultar o desenvolvimento da independência e do pensamento crítico nos jovens adultos.
“Não estou a sugerir que toda a monitorização de localização seja má, mas pode facilmente entrar num território problemático quando os pais começam a intrometer-se na vida dos filhos”, afirma Clark.
Monitorizar filhos adultos por uma questão de segurança
As duas razões mais frequentemente apontadas para o rastreamento — tranquilidade e preparação para emergências — mostram a importância que a segurança tem para os pais. O novo inquérito recolheu respostas de mais de 1.500 pais com pelo menos um filho entre os 18 e os 25 anos.
Ainda assim, Clark e Alaimo alertam os pais para não sobrestimarem a sua capacidade de garantir segurança à distância. Embora possa ser tentador sentir-se mais seguro ao saber onde os filhos estão, isso pode criar uma falsa sensação de proteção.
“O facto de estar a seguir alguém não significa que compreenda a situação nem que esteja em posição de intervir”, sublinha Clark.
Além disso, a chamada parentalidade “helicóptero” não ensina os filhos a serem autónomos e independentes, acrescenta Alaimo.
“Penso que ensinar os jovens adultos a tomarem decisões responsáveis por si próprios torná-los-ia muito mais seguros”, defende. “Caso contrário, depois de tomarem uma decisão terrível, saber onde estão não vai necessariamente resolver o problema.”
Em vez disso, Alaimo sugere que os pais utilizem ferramentas de localização durante o ensino básico e secundário, quando os filhos começam a ganhar alguma independência, de forma a prestar apoio e garantir a sua segurança.
Começar a conversa
Quase todos os participantes na sondagem disseram que os filhos sabiam que estavam a ser monitorizados, mas apenas metade dos pais afirmou que essa monitorização era opcional.
Clark aponta a transição entre a adolescência e a idade adulta como um momento em que as famílias deveriam discutir se a monitorização obrigatória da localização continua a ser apropriada.
“A falta de conversa incomoda-me bastante. Não era uma questão de os filhos não saberem que estavam a ser monitorizados, mas sim de não terem qualquer papel na definição de como isso iria funcionar”, observa Clark.
Segundo Clark e Alaimo, o rastreamento da localização pode ter benefícios. No entanto, os pais devem ser transparentes quanto às suas preocupações e procurar construir uma relação de confiança com os filhos.
A monitorização pode ser útil quando uma filha vai a um primeiro encontro ou quando um filho visita um local desconhecido, exemplifica Alaimo. Dar aos filhos a possibilidade de partilharem a localização com um amigo de confiança pode também ser uma boa alternativa.
O rastreamento não deve ser a única medida de segurança adotada.
“Nessa idade, já deveríamos ter ensinado os jovens adultos a reconhecer situações potencialmente perigosas e a evitá-las, em vez de dependerem constantemente dos pais para os vigiar”, argumenta Alaimo.
Quando os filhos — especialmente os já adultos — não têm autonomia para tomar as suas próprias decisões, isso pode desgastar a relação com os pais e contribuir para uma perceção de desconfiança, acrescenta Clark.
Para iniciar estas conversas, Clark incentiva os pais a refletirem sobre a forma como cresceram. Numa época em que os seus próprios pais não tinham a possibilidade de os localizar em tempo real, a comunicação fazia-se através de contactos ocasionais.
“Se o que os pais querem são contactos ocasionais dos filhos, isso pode ser negociado sem necessidade de os vigiar”, indica Clark. “Pode ser uma boa forma de os filhos adultos dizerem: ‘Está bem, eu respondo às mensagens.’”
Alaimo defende que os pais devem tratar os filhos adultos como aquilo que são: adultos.
“Enquanto adultos, deveriam ser eles a decidir se querem ou não ser monitorizados. Além disso, estamos a ensinar aos nossos filhos que isto é algo normal”, alerta. “Este tipo de rastreamento pode torná-los menos seguros e até facilitar relações abusivas.”
Dar espaço aos filhos para crescerem e aprenderem é extremamente benéfico, aponta Clark, e os pais devem compreender que isso faz parte do processo natural de entrada na vida adulta.
“Muitos pais ainda não aprenderam a largar o controlo e a deixar o filho tentar voar sozinho. Isso inclui cometer erros, faltar às aulas ou chegar atrasado ao trabalho”, observa Clark. “Penso que os pais têm de ser honestos consigo próprios sobre a razão pela qual estão a fazer isto.”
