Desde a PSP, que controla a chegada às fronteiras, até a quem está preocupado com a economia, os alertas vêm de todo o lado
Sete horas à espera para entrar em Portugal. É o que tem acontecido a muitos dos milhares de passageiros extracomunitários que todos os dias chegam ao nosso país, e que têm sido afetados pela incapacidade em lidar com o novo Sistema de Entrada/Saída do espaço Schengen.
Um problema especialmente notório por estes dias de Natal e Ano Novo, e que nem mesmo o destacamento extraordinário de 80 agentes da PSP está a ajudar a resolver.
O novo sistema europeu de controlo de fronteiras para cidadãos extracomunitários entrou em funcionamento em 12 de outubro em Portugal e restantes países do espaço Schengen e desde então os tempos de espera têm-se agravado, principalmente no aeroporto de Lisboa, com os passageiros a terem de esperar, algumas vezes várias horas.
Esta situação levou o Governo a criar no fim de outubro uma task force de emergência para gerir esta situação de crise, mas a solução parece ainda não estar a ter efeitos.
O presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal entende que este é um cenário que “estraga a imagem do país”, mas que já se antecipava, até porque há 50 anos que se discute a necessidade de um novo aeroporto para a capital.
“Não se compreende que um turista demore mais tempo no aeroporto do que o tempo que demorou a fazer a viagem até ao destino que escolheu, preferiu e pagou”, afirma Luís Pedro Martins, em declarações à CNN Portugal.
O responsável diz mesmo que esta é uma “péssima imagem” que até já está a ter um “forte impacto” junto do mercado norte-americano, nomeadamente na reputação, comunicação e credibilidade de Portugal, o que vai originar perdas no futuro, ainda para mais depois de uma “imagem trabalhada durante tantos anos” para chegarmos ao estado de “um dos melhores destinos turísticos”.
Mas não chegámos a este ponto sem aviso. Luís Pedro Martins entende que todos sabiam que isto ia acontecer, até porque a procura foi sempre aumentando e não houve capacidade de lidar com esse impacto do turismo na infraestrutura aeroportuária da capital.
E se o problema por agora é Lisboa, o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal afirma que os aeroportos do Porto e de Faro vão passar pelo mesmo caso não sejam também atualizados.
“Infelizmente acontece no aeroporto de Lisboa, felizmente só está a acontecer no aeroporto de Lisboa. Temos outros dois aeroportos no continente, que têm vindo a crescer bastante”, aponta, lembrando que a escala é completamente diferente, mas avisando que “se não prepararmos os outros aeroportos poderemos daqui a uns anos ter a mesma questão”.
Luís Pedro Martins garante que a procura está mesmo a crescer. Há 30 anos, sublinha, o aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, tinha 400 mil movimentos de passageiros, hoje tem 17 milhões. “Já estamos a chegar também a uma situação limite” nesse caso, alerta, lembrando até a importância que a infraestrutura tem em termos de exportações.
Voltando ao caos em Lisboa, o responsável diz que este prejuízo “sério” resulta de anos e anos de avisos ignorados, nomeadamente através da Confederação do Turismo de Portugal, que tem procurado alertar as autoridades para o problema, que não tem resolução fácil, mas que requer “medidas urgentes” para que não continuemos a ver estas imagens.
“Isto prejudica-nos severamente e afeta toda a experiência. Ninguém será indiferente a estar sete ou oito horas no aeroporto. Pagou para usufruir, está cansado, e passar aquele período ali é terrível”, acrescenta, sendo que muitas pessoas acabam por ver a sua vida afetada ainda de outra forma, já que acabam por perder eventuais ligações a outras cidades.
Do lado da PSP, que tem tentado lidar com a situação com os meios que tem, o subintendente e representante do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia Bruno Pereira pede todas as medidas possíveis que possam chegar para ajudar a aliviar a pressão constante.
Perante o anúncio de 7,5 milhões de euros para aquisição de equipamentos para a PSP poder aumentar os postos de controlo de fronteira em Lisboa, o responsável admite à CNN Portugal que este pode ser um reforço que já chega tarde.
“Isto é uma questão inultrapassável. Há dimensões infraestruturais e carências e falências que limitam a capacidade de ser o que gostaríamos de ser”, aponta, falando de problemas que vêm de há 20 anos.
Bruno Pereira aponta que o número de passageiros extracomunitários sujeitos a controlo na fronteira aumentou de 2,5 milhões para 12 milhões em apenas cinco anos, o que resulta em grandes picos, nomeadamente em períodos da manhã e da tarde em que há mais de dois mil pessoas a chegar a cada hora.
O subintendente da PSP explica que existem apenas 16 boxes de controlo, exatamente o mesmo número de há 10 anos, ainda durante a vigência do entretanto extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Nessas boxes podem trabalhar 32 agentes de controlo manual, onde é feita a interação com o passageiro, sendo que o novo sistema imposto pela União Europeia é muito mais moroso, até porque implica a recolha de dados biométricos, nomeadamente impressões digitais e registo facial, que entrou em vigor a 10 de dezembro.
Fazendo as contas por alto, Bruno Pereira dá entre três a quatro minutos, por vezes sete, por passageiro. Com o controlo manual a demorar uma média de dois minutos, isso significa que cada pessoa pode chegar a demorar nove minutos nesse processo.
Fazendo as contas, e mesmo tomando os três minutos de tempo mínimo mais os dois do controlo manual, Bruno Pereira diz que não é possível despachar mais de 1.300 passageiros por hora, e isto num cenário ideal. Tendo em conta que há picos de duas mil pessoas por hora, a situação acaba irremediavelmente em filas.
O subintendente da PSP garante mesmo que todos estes dados são do conhecimento das autoridades competentes, mas critica o contínuo aumento do turismo, que fica alheio à capacidade estrutural de lidar com o desafio.