O Caso Figo: trocar o Barcelona pelo Real Madrid teve um preço (e Futre diz-nos qual foi)

29 ago, 18:00
Luís Figo

Spoiler alert: se ainda não viu o documentário da Netflix, é provável que não esteja preparado para ler este texto. Ou então está, porque há muito que desconfiava que esta transferência foi mais sobre dinheiro do que sobre futebol

Luís Figo, o cameraman, mostra-nos a filha, com 1 ano, nas praias da Sardenha. Luís Figo, o homem de família, parece descansar, e até consegue falar com voz de bebé de forma ternurenta, mas está a viver o momento mais turbulento da sua carreira e ninguém sabe o que aquela voz de bebé esconde. Estamos no verão de 2000 e em “O Caso Figo: a Transferência que Mudou o Futebol”, já disponível na Netflix. E sim, esta é uma história sobre Luís Figo e aquela troca (em catalão, julgo que se diz traição) do Barcelona para o Real Madrid.

O documentário reúne os principais protagonistas do enredo: Figo, claro, Florentino Pérez, que 22 anos depois ainda é presidente do Real Madrid (e tudo começou neste negócio), Joan Gaspart, ex-presidente do Barcelona (“o pior”, segundo o próprio confessa, entre risos) e, provavelmente, a pessoa mais arrependida do mundo por não acreditar numa palavra de José Veiga, este último também, e ainda Paulo Futre, que tem o dom de nos contar qualquer história como se nós também tivéssemos lá estado – e, em princípio, a rir.

Mas também tem outros artistas: Pep Guardiola, com aquele ar de melhor amigo deixado para trás, sempre com as palavras – e, sobretudo, as emoções – certas; Fernando Hierro, discreto e correto nas intervenções, como tantas vezes em campo; e Roberto Carlos, com uma frase extraordinária que, para quem não o viu jogar, resume tão bem Luís Figo: “Eu sabia exatamente o que tinha de fazer [para o marcar]. Só que era impossível”.

Luís Figo, no Barcelona, e Roberto Carlos, no Real Madrid, em fevereiro de 2000. AP Photo/Denis Doyle

E tem as imagens. Que, para quem o viu jogar, valem mais do que tudo o resto. Há Figo naquela final da Copa do Rei contra o Betis, pobre Betis que esteve a vencer por duas vezes, pobre Betis que ficou a ver Figo mudar o jogo, fosse com um belo remate bem colocado fora da área, ou com aquele golpe de sorte final, às três tabelas. Há Figo em vários clássicos a passar por Roberto Carlos sem respeito nenhum (e confirma-se: o lateral brasileiro, um dos melhores de sempre, parecia saber exatamente o que tinha de fazer. Só que foi impossível). Há o golo de Figo à Inglaterra naquele Euro 2000, que só por si valia todos os documentários do mundo. E há Figo a cantar para a multidão extasiada nas varandas de Barcelona: “Blancos, llorones, feliciten los campeones” (quem nunca se arrependeu de algo cantado a altas horas numa festa que atire a primeira pedra. E mais concretamente sobre pedras atiradas, já lá vamos).

Há muito Figo neste documentário, e nem sempre ao mais alto nível. Também há recordações dos melhores (ou piores, para ser mais exata) penteados da altura, e momentos na seleção que podem envergonhar qualquer estilo que tenha sobrevivido aos anos 90. E há muitas hesitações: ir ou não ir para Madrid? Eis a questão, respondida em demasiadas entrevistas contraditórias à Marca e ao Sport, os jornais desportivos espanhóis que são assumidamente feitos de e para adeptos do Real Madrid ou do Barcelona, respetivamente.

E há Luís Figo, o cameraman, a filmar a filha enquanto Florentino Pérez o usa como bandeira eleitoral e Paulo Futre telefona a Veiga para lhe anunciar o interesse daquele candidato à presidência do Real Madrid. O empresário, incomodado durante a noite pelas palavras que soavam a ilusão de Futre, desliga o telefone, mas Futre, num ato de magia, continua a falar para o vazio: “Sim… Sim… Sim…” O telefonema acaba – ou melhor, até já tinha acabado – e Futre percebe, em segundos, como pode vir a ganhar dinheiro: diz a Florentino que Veiga está interessado, mas que terá de pagar uma comissão de 10 milhões. Florentino, o negociador que virá a ter muitos momentos destes no futuro galático que começa a desenhar, fecha o negócio com 6.

6 milhões de euros. O preço por convencer Luís Figo a deixar Barcelona, o clube que estava a dominar a liga espanhola, e a cidade que o tratava como um capitão (julgo que se diz catalão), pelo Real Madrid, já aí especialista em vencer Liga dos Campeões, mas com um ideal de grandeza que Florentino Pérez queria concretizar (e agora, no futuro, quando este mesmo Real Madrid tem o dobro destas taças – 14 - do que o segundo classificado da lista – o Milan, com 7 -, tudo parece fazer mais sentido).

E é por esta altura que percebemos que “O Caso Figo” foi escrito e realizado, em grande parte, por estes 6 milhões de euros. Os bastidores daquele verão de 2000 mostram de forma clara como é que os 60 milhões de euros (à data, 10 milhões de pesetas) da cláusula de rescisão do jogador foram a parte mais fácil do negócio: o difícil era convencer Figo a fazê-lo, para todos os envolvidos ganharem mais. E é por isso que vemos a dupla Veiga-Futre em ação: primeiro na Holanda, enquanto a seleção brilhava no Euro, depois na Sardenha, a seguir até à praia a família que só queria descansar (Veiga descreve-se, a rir, de fato e gravata no areal e quase dá vontade de pagar 6 milhões de euros só para ver isso), e por último, em Lisboa, quando o negócio se fecha de vez.

Florentino convence-o com promessas de um Real Madrid repleto de estrelas, mas nesta altura já o espectador percebeu que o que faltava em Barcelona não eram estrelas, era mais dinheiro. Joan Gaspart, que também por essa altura vencia as eleições no clube, nem tinha querido ouvir José Veiga e Luís Figo: segundo ele conta, naquele catalão que não podia ser mais catalão, todos os anos a dupla pedia para renovar contrato para ficar a ganhar mais. E, com três anos de contrato com o Barça pela frente e aquilo que o então presidente do Barcelona considerava um grande bluff, Gaspart não fez nada para ficar com o craque português, enquanto Florentino Pérez viajava até Lisboa com um discurso (e um cheque) promissor.

É pelas palavras de Futre – e não de Figo, curiosamente – que ficamos a saber que foi aí que o jogador se decidiu. “Sim, vou para Madrid”. E o sorriso dos intervenientes abre-se nesta altura do documentário – não o de Figo, curiosamente -, até ao momento em que ele telefona à mulher, Helen Svedin - que pela trama vamos percebendo que seria uma acérrima defensora da continuidade em Barcelona. É aqui que, pelas palavras de Futre, voltamos àquele “Sim… Sim… Sim…” ao telefone, mas desta vez é Figo quem alegadamente o repete, e também é Figo que imaginamos a enterrar-se na cadeira como Futre nos vai demonstrando. E é nesta altura que também sorrimos, porque tem piada, tem graça imaginar que o negócio que mudou o futebol não seria feito se aquele homem tivesse dado ouvidos à mulher. E tem graça só por isso, porque não ouvimos Helen para saber a verdade.

Mas Florentino, Veiga e Futre não arredam pé e já o sol está a nascer quando a transferência fica fechada. E nunca mais a família Figo poderá voltar a Barcelona: saem das férias na Sardenha diretamente para Madrid, ficamos a imaginar como é que se fizeram as mudanças, já não é fácil quando lá vamos, quanto mais quando estamos em fuga, mas infelizmente ninguém nos conta. E também ficamos a imaginar o que pensa Luís Figo durante aquela apresentação em Madrid, quando Florentino Pérez já ganhou as eleições e tem o prémio para mostrar aos adeptos, livrando-se de ter de lhes pagar as quotas (quem nunca fez uma promessa eleitoral meio maluca que atire a primeira pedra. E mais concretamente sobre pedras atiradas, estamos mesmo quase a chegar lá).

Luís Figo com Di Stéfano, na apresentação em Madrid. AP Photo/Paul White

O documentário mostra poucos adeptos do Real Madrid em festa, mas, como não podia deixar de ser, mostra muitos adeptos do Barcelona em fúria. “Eu não vou atirar-lhe nada, porque é proibido. Se não fosse, atirava-lhe uma pedra”, diz, para a câmara, um senhor já com uma certa idade, não sei bem quantos anos teria, mas certamente os suficientes para ter algum juízo, e às tantas foi esse juízo que o impediu, alegadamente, de atirar alguma coisa.

Não há palavras que façam jus àquela receção de Camp Nou a Luís Figo quando tinham passados poucos meses sobre a transferência. Velhos e novos, homens e mulheres, todos catalães (quando os estádios destes grandes clubes ainda tinham só adeptos locais e não turistas que pagam centenas ou milhares de euros pela “experiência”), todos fora de si, todos a sentirem-se traídos dizem que por aquela entrevista ao Sport em que Figo garantia que ficava, mas julgo que a entrevista até podia não ter existido e tudo seria igual.

Barcelona-Real Madrid, em outubro de 2000. (Foto: Tony Marshall/EMPICS via Getty Images)

O preço dos 60 ou 6 ou lá os milhões todos que estiveram envolvidos foi este: aquelas bancadas foram muito além do futebol e Roberto Carlos conta-nos, meio a sorrir meio ainda com medo, que se o árbitro tivesse dito que ia cancelar o jogo, ele aceitava na hora. O Barcelona ganhou – o jogo, entenda-se – e Figo também – a Bola de Ouro, uns meses depois. O português era o melhor do mundo, Veiga ganhou 3 milhões, Futre 1,5, o Barcelona e o Real Madrid continuaram a ser dois dos maiores clubes do mundo e entretanto o futebol está cheio de transferências milionárias, trocas de camisolas e dinheiro, muito dinheiro. Mas os títulos e as contas bancárias nunca traduzirão tudo o que aquele pai, ao filmar a filha durante as férias, estava a pensar.

 

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