Marta Temido “ou foi enganada ou enganou-se”, diz Leal da Costa. “Se calhar, convenceram-na de que seria capaz de mais do que na realidade tinha meios para ser”

CNN Portugal , DCT
3 set, 22:35

Fernando Leal da Costa critica ainda a comissão CE-UrgMET criada ainda sob ordens de Marta Temido para resolver os problemas existentes nas urgências de ginecologia e obstetrícia em Portugal.

O antigo ministro da Saúde não se poupa nas críticas à gestão de Marta Temido, mas acusa também o governo de não prestar a devida atenção ao Serviço Nacional de Saúde, cujos problemas não são de agora e, parte deles, poderiam ter sido evitados.

Quanto à demissão da agora ex-ministra da Saúde, Leal da Costa diz que Marta Temido “não deveria ter aceitado continuar no cargo”, pois, defende, “claramente que as condições que governabilidade que teria a seguir seriam totalmente impossíveis, na sequência da própria condução do combate à pandemia que não foi pouco ou mais ou menos exemplar”.

Em entrevista à CNN Portugal, o antigo ministro não hesita em dizer que Temido “ou foi enganada ou enganou-se”. “Num determinado momento, se calhar, convenceram-na de que ela seria capaz de mais do que na realidade tinha meios para ser”, continua. 

Fernando Leal da Costa reconhece que “a política é muito ingrata” e que a saída de Marta Temido pode ter sido resultado de más decisões e de problemas que não foram resolvidos. “As coisas começaram a correr menos bem e, obviamente, o senhor primeiro-ministro, o governo, o próprio Partido Socialista deixaram-na cair. É de uma injustiça brutal, mas a política é assim”.

“Não é ciência atómica desenhar um mapa de urgências” 

Fernando Leal da Costa critica a comissão CE-UrgMET criada ainda sob ordens de Marta Temido para resolver os problemas existentes nas urgências de ginecologia e obstetrícia em Portugal. A comissão tem agora cinco meses para fazer frente aos problemas verificados nos hospitais das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

“Tem havido uma tendência nos últimos anos de resolver os problemas com uma comissão”, começa por dizer em entrevista à CNN Portugal. “Parece um pouco estranho, há um conjunto de matérias que deveriam ser tratadas como rotinas da governação”, continua.

O antigo ministro da Saúde diz que era possível prevenir a situação que alguns hospitais vivem hoje em dia e que havia já material e planos feitos. “Não é ciência atómica desenhar um mapa de urgências para respostas maternas e infantis”, atira, revelando que o próprio fez mapa de urgências, “foi um dos últimos diplomas que assinei antes de sair do governo em 2012”.

“O governo vai ter de negociar com as calças nas mãos”

“Parece que o Ministério [da Saúde] deixou de pensar nos problemas da saúde durante a pandemia”, continua o ex-governante, atirando que “muito do combate à pandemia fez-se da hipotética exuberância de medidas que ficou muito aquém daquilo que seria, eventualmente, o necessário”. 

Embora reconheça que, na altura, o combate à pandemia tinha de ser o foco, Leal da Costa critica o facto de parecer que “de repente se descobriu que ia haver uma crise de falta de médicos”, uma questão que diz que não é de agora e dá “três razões” para isso.

A primeira, diz, é que “não se pensou sobre o assunto no devido momento” e a segunda é que “há dez anos” já se começava, segundo o ex-ministro, “claramente a observar” a existência de uma “diminuição dos contingentes médicos mais velhos e especializados” e que nada foi feito para contornar isso, uma vez que a formação dos médicos não foi “suficientemente rápida para colmatar” essa questão. A “terceira parte do problema”, finaliza, deve-se ao facto de não se ter negociado alguns aspetos que poderiam ajudar a minimizar os problemas já observados, como a “idade dos médicos” para fazer urgências e hora extra e as horas extra.

Quanto às negociações, Fernando Leal da Costa, diz que agora “o governo vai ter de negociar com as calças nas mãos”, seja com sindicatos, privados ou seguradoras. “É o pior momento para negociar o que quer que seja”.

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