Documentos do prédio desapareceram da sede da FPF

12 dez 2025, 22:16

Os investigadores do Ministério Público e da Polícia Judiciária escreveram à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) a perguntar se houve outros potenciais compradores da antiga sede. E pediram para serem identificados todos aqueles que acompanharam o negócio da venda do imóvel. A resposta foi… não sabemos. Porque a Federação nem sequer terá encontrado no arquivo, ou em qualquer outro lugar das instalações, o contrato do negócio ou outros documentos

Foram apenas cinco questões que os investigadores da Operação Mais Valia remeteram por escrito, em setembro passado, à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). De forma resumida, o Ministério Público (MP) e a Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária (PJ) quiseram saber se era possível identificar todos os elementos da Federação que acompanharam de alguma maneira o processo de venda da antiga sede localizada na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, bem como os potenciais compradores que terão chegado a estar envolvidos no negócio imobiliário. Outra das perguntas foi sobre a identidade do/s funcionário/s da FPF com responsabilidades pela organização do arquivo físico daquela instituição entre 2017/25.

Antes de responder em concreto a estas e outras questões, a FPF fez um curto preâmbulo a informar as autoridades judiciais que estava a debater-se há meses com grandes dificuldades em aceder a informação que considerava fulcral para perceber de forma completa e exaustiva vários eventos e decisões de anteriores mandatos. “(…) a atual Direção, desde a sua tomada de posse, a 24 de fevereiro de 2025, tem enfrentado, em determinadas situações, dificuldades no acesso a documentação essencial ao normal exercício das suas funções, designadamente contratos, registos contabilísticos e outros elementos que suportem algumas operações realizadas, não só do ponto de vista jurídico como também ao nível da racionalidade económica das mesmas”, lê-se na resposta a que acedeu a TVI/CNN Portugal.

De seguida, o preâmbulo foi complementado com uma interrogação que é apenas mais um dado insólito em todo este caso: “Não se encontra a atual Direção em condições de aferir se a documentação em causa foi deliberadamente subtraída do arquivo ou se a sua ausência do mesmo resulta de eventuais insuficiências nos mecanismos de gestão documental, nomeadamente quanto à organização e conservação do arquivo.”

Na investigação do processo-crime, iniciado em 2021 após uma denúncia anónima, já foram constituídos vários arguidos, nomeadamente dois homens que terão atuado nos bastidores e alegadamente lucrado largas dezenas de milhares de euros. Devido a estas suspeitas, foram indiciados o advogado e ex-deputado do PS António Gameiro, que terá intermediado o negócio em nome de uma empresa titulada pela mulher, e também o antigo secretário-geral da FPF e ex-assessor do então presidente Fernando Gomes, o advogado Paulo Lourenço.

Uma primeira peritagem ao negócio imobiliário suspeito já consta nos cinco volumes principais (e nos vários apensos) do inquérito titulado pelo procurador Pedro Botas (por sinal um antigo inspetor da PJ que trabalhou nos setores do crime económico e do banditismo) e que visa suspeitas da prática de crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em negócio e fraude fiscal qualificada, entre outros delitos criminais. Uma primeira denúncia anónima referiu que António Gameiro teria recebido uma espécie de comissão de 400 mil euros (depois outra denúncia apontou que seriam 430 mil euros), mas os investigadores recolheram, entretanto, indícios de que o antigo deputado terá distribuído boa parte deste dinheiro: 246 mil euros terão sido detetados a circular através de uma empresa de contabilidade para um dos sócios da própria empresa que comprou o edifício da FPF. E 65 mil euros terão circulado para o antigo secretário-geral da FPF, Paulo Lourenço, através do escritório de advogados de que era sócio.

O caso levou a uma primeira operação de buscas ocorrida em março passado. "É possível que essa documentação sobre a venda da antiga sede tenha desaparecido da Cidade do Futebol?", perguntou um jornalista no próprio dia das buscas ao ex-presidente da FPF, Fernando Gomes, que estava na cerimónia da tomada de posse para presidir ao Comité Olímpico de Portugal. "Não desapareceu, de certeza absoluta", foi a resposta. Nesse dia, entre os alvos das autoridades estiveram a própria FPF, residências particulares, um notário e diversos contabilistas considerados decisivos para esclarecer o negócio de compra e venda do edifício em que a FPF teve a sede durante largos anos em Lisboa.

O imóvel foi formalmente vendido à empresa Excelent Dimension, a 11 de abril de 2018, por 11,25 milhões de euros e na assinatura do contrato constam os nomes dos antigos presidente e vice-presidente da FPF, respetivamente, Fernando Gomes e Rui Manhoso. A escritura pública foi feita no notário Rui Januário, na Av. 5 de Outubro, em Lisboa, também alvo de busca, o mesmo local onde terá depois sido registada a revenda do imóvel, que no seu interior teria até diversos objetos como taças, diplomas de prémios, equipamentos desportivos e outros materiais históricos.

O nome de Rui Manhoso consta também numa das perguntas enviadas à FPF, com o MP e a PJ a quererem saber aquilo que já é público há vários meses: questionaram se Manhoso ainda era ou já deixara de ser funcionário da Federação. A resposta obtida foi que o antigo dirigente cessou o mandato com a entrada em funções da nova direção encabeçada por Pedro Proença. Outro nome questionado pelas autoridades foi o de Rita Galvão, a diretora de Recursos Humanos e Administração da FPF, que fez um acordo laboral e deixou de ser funcionária da Federação a 24 de abril de 2025, já depois das primeiras buscas do processo. Neste período outros três altos responsáveis também deixaram a FPF: Nuno Moura (Marketing), Paulo Ferreira (Financeiro) e Rute Soares (Integridade e Compliance).

Fernando Gomes entregou caixa de email

Nas perguntas e respostas que agora constam do inquérito crime nunca é referido diretamente o nome do anterior presidente da FPF, Fernando Gomes, que depois de várias notícias sobre este caso – nomeadamente de que as autoridades constataram que a sua caixa de email na FPF tinha sido apagada (e que nem a Microsoft a conseguia recuperar) – mandatou uma advogada para contactar o MP, colocando à disposição dos investigadores a cópia que levou da caixa de email e também os códigos de acesso ao computador e telemóvel usados quando era presidente da FPF.

Segundo a TVI/CNN Portugal apurou, os investigadores estarão a realizar novas peritagens ao negócio, tendo já realizado outras buscas no processo, nomeadamente a mais duas empresas. O objetivo é perceber todo o negócio imobiliário (incluindo a revenda do edifício) e os seus intervenientes. Por isso, também quiseram saber se a FPF tinha alguma informação sobre todos os potenciais compradores. “Lamentavelmente, da documentação e/ou ficheiros existentes atualmente nas instalações da FPF, e tanto quanto é do conhecimento dos seus atuais responsáveis, não é possível identificar potenciais compradores da antiga sede da FPF em face da escassa (e, em alguns casos, ausente) informação que encontramos disponível sobre esta matéria, apesar da relevância da mesma, nos arquivos da FPF, que quanto ao mais aparentam razoável estruturação”, respondeu a FPF em setembro passado.

Uma resposta em tudo semelhante quando as autoridades também quiseram saber quem, além do antigo secretário-geral da FPF Paulo Lourenço, teria agendado ou participado em reuniões sobre o negócio imobiliário suspeito. “Lamentavelmente, da documentação e/ou ficheiros existentes atualmente nas instalações da FPF, e tanto quanto é do conhecimento dos seus atuais responsáveis, não é possível identificar outros funcionários que tenham acompanhado o processo de venda do referido imóvel.”

Finalmente, e depois de identificar a única funcionária administrativa responsável pelo arquivo de uma instituição que movimenta muitos milhões de euros, a FPF informou o MP e a PJ que não iria de forma alguma opor-se aquilo que as autoridades também solicitaram: a autorização para analisar e utilizar no inquérito todos os dados relativos a uma conta de correio eletrónico já apreendida nas buscas de 25 de março passado, mas cujo processo de extração informática do servidor só ficou concluído alguns dias depois, a 2 de abril. Trata-se do email licenciamento.uefa@fpf.pt.

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