Fernando Araújo chega ao SNS com promessas de "planeamento e organização". "É a peça-chave que tem faltado" (e serão precisos mais profissionais também)

5 nov, 21:23

Fernando Araújo diz que é preciso recuperar a confiança de profissionais e utentes no serviço público de Saúde

“Não é digno alguém que tem de ir às cinco da manhã para a porta de um centro de saúde para ter uma consulta com o médico de família”. A frase é do novo diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, que reconhece a existência de vários problemas no setor público em Portugal. Em entrevista no Jornal das 8 da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), Fernando Araújo não tem problemas em afirmar que “será, seguramente, necessário mais profissionais”, referindo que, mesmo com as equipas atuais, é possível haver mais eficiência.

“O que nos pedem é que, com os atuais profissionais, consigamos ser mais eficientes, trazer mais valor, e conseguiremos seguramente”, afirma, falando de uma capacidade de organização que espera resultar numa maior capacidade de resposta.

O antigo presidente do Conselho de Administração do Hospital de São João, no Porto, destaca a criação de uma direção-executiva do SNS como a “maior revolução do ponto de vista de gestão do SNS nos últimos 43 anos”, defendendo a necessidade dessa equipa, que dirige, para “dar respostas mais sustentadas”.

“Não é digno alguém que tem de ir às cinco da manhã para a porta de um centro de saúde para ter uma consulta com o médico de família, alguém que espere dois ou três anos por uma consulta no hospital”, sublinha.

Para mudar essa situação, diz Fernando Araújo, é necessário “recuperar a confiança dos profissionais e dos utentes”, nomeadamente através da aposta no acesso e na eficiência, o que passa por um melhor planeamento e organização.

“O SNS tem uma história de sucesso, temos de mostrar que vamos fazer de forma diferente para responder à necessidade”, refere.

É nessa base de planeamento e organização, que Fernando Araújo diz serem a "peça-chave que tem faltado", que a nova direção vai trabalhar, procurando responder aos problemas existentes, incluindo na resposta primária de cuidados aos doentes. É o caso da relação com o SNS24, mas também com o INEM, que o responsável admite ter várias falhas, pedindo uma "resposta mais consistente" por parte do instituto.

"Queremos voltar a ganhar a confiança dos portugueses, e vamos consegui-lo", acrescenta, dizendo que o objetivo passa por dar uma maior autonomia às diferentes instituições, ao mesmo tempo que se passará a uma desburocratização dos processos.

Fecho das maternidades? Esperar para ver

As urgências de Obstetrícia e Ginecologia estiveram em foco durante o verão. Foram semanas de caos em vários hospitais, como o de Braga, em que grávidas tiveram de ser transferidas porque não havia médicos suficientes para atenderem as utentes. Uma das medidas apontadas para a nova gestão do SNS é o eventual encerramento de serviços, como em Famalicão ou no Barreiro. Um cenário que Fernando Araújo não confirma estar em cima da mesa, mas que também não diz, pelo menos de forma taxativa, estar colocado de parte.

O responsável afirma que "o problema não se responde através do fecho de serviços", apresentando antes outras soluções: "Responde-se na discussão com a Ordem dos Médicos sobre equipas, na questão de trazermos as mesmas regras para público e privado ou aumentarmos lugares de formação de especialistas, criar círculos de estudos especiais para dar formação".

Só no fim de esse trabalho estar feito, e olhando para os resultados e necessidades dos serviços, é que o Governo e o SNS vão decidir sobre o eventual fecho de maternidades.

"[Encerramento de maternidades é possível] se isso corresponder a uma capacidade de mobilizar profissionais para outros locais, e tendo sempre a noção clara do impacto nos doentes, neste caso nas grávidas", afirma, lembrando a necessidade de responder a diferentes populações, sobretudo às que possam estar mais deslocadas.

Respondendo novamente à questão sobre o encerramento de maternidades, Fernando Araújo termina dizendo que "neste momento não é possível dizer que se vão fechar maternidades", prometendo uma avaliação exaustiva do problema até janeiro, altura em que deverá ser decidido o próximo passo.

Um ano melhor que o outro

Fernando Araújo pede tempo para resolver os problemas que encontrou, mesmo que resistindo a criticar a gestão da antiga ministra da Saúde, Marta Temido. O agora CEO do SNS diz que o objetivo é que cada ano seja melhor que o anterior. Por isso, vinca, os portugueses devem esperar um verão de 2023 melhor que o de 2022, marcado por caos nas urgências, nomeadamente na especialidade de Obstetrícia e Ginecologia.

O mesmo se aplica ao inverno, com o responsável a fazer um aviso: “Este inverno vai ser muito exigente, vamos ter muita pressão no sistema, com a covid-19, a gripe e o vírus sincicial respiratório”.

“Os resultados são ao longo do tempo, espero que o próximo verão e inverno sejam mais tranquilos para os utentes”, acrescenta.

Falando especificamente sobre o próximo inverno, Fernando Araújo revela que já estão a ser discutidos os planos de contingência para um inverno que se espera ser "extremamente exigente". Ainda assim, e olhando para trás, o diretor-executivo diz que o sistema ganhou experiência, nomeadamente na gestão de dois invernos com picos de pandemia de covid-19.

Uma promessa aos profissionais de saúde

Antevendo anos difíceis, Fernando Araújo elogia a capacidade dos profissionais de saúde, nomeadamente naqueles que acreditam que existe espaço e capacidade para uma mudança. Mesmo perante as palavras do ministro da Saúde, que admitiu uma escassez de médicos nos próximos dois a três anos, o diretor-executivo do SNS mostra-se confiante, prometendo uma valorização das carreiras, o que permitirá "cativar" profissionais.

Essa motivação surgirá também através da modernização tecnológica, que Fernando Araújo admite estar mais avançada nos privados, mas também pela compreensão da necessidade de os médicos e enfermeiros terem mais tempo para a família e melhores horários, algo que tem sido essencial para a saída de vários profissionais do setor público.

Questionado sobre a questão salarial e de valorização das horas extraordinárias, o responsável diz que o esforço do ministério vai passar por repensar o salário base, destacando que "estes profissionais são únicos", e que pretende evitar a saída destas pessoas para outros países.

A relação com Costa e com o ministro

Até então gestor do Hospital de São João, mas antigo secretário de Estado do primeiro governo de António Costa, Fernando Araújo afirma que não foi convidado para ser ministro da Saúde, pasta que transitou de Marta Temido para Manuel Pizarro, outro homem que chegou do Norte, e com quem diz ter uma relação de complementaridade.

Garantindo que não existe qualquer sobreposição entre os cargos diretor-executivo do SNS e ministro da Saúde, Fernando Araújo diz ter total autonomia, estando mesmo preparado para dizer "não" a qualquer governante, seja o primeiro-ministro ou os ministros da Saúde e das Finanças. Sobre este último, Fernando Araújo concorda com Fernando Medina, afirmando que a grande razão para o problema na Saúde passa pela falta de organização, mais do que a falta de investimento.

Questionado diretamente sobre a possibilidade desse convite, o agora diretor-executivo do SNS ressalva que foi à frente do hospital que se sentiu mais realizado: "Gostei muito mais de ser presidente do hospital que secretário de Estado, porque estava mais perto das pessoas".

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