"Sorriam, crianças". Fernanda Torres deveria ganhar todos os prémios pela sua interpretação em "Ainda Estou Aqui". Os portugueses vão poder vê-la já na próxima semana

10 jan 2025, 21:00

O muito premiado filme brasileiro "Ainda Estou Aqui" chega na próxima quinta-feira aos cinemas portugueses. A história verdadeira de Eunice Paiva, extraordinariamente interpretada por Fernanda Torres, que lutou pela justiça e pela memória do marido, morto pela ditadura militar. Um filme sobre resistência e sobre família. E sobre todas as mães que conseguem manter o sorriso dos filhos, mesmo quando tudo parece correr mal

Sabem quando uma mulher perde o chão e só tem vontade de chorar e nisto aparece um dos filhos e diz uma coisa qualquer sem importância, pode ser “mãe, o Marcelo quebrou a minha boneca”, e a mãe limpa as lágrimas, respira fundo e pega na boneca, “Ah foi?, deixa eu ver”? Essa mãe é Eunice Paiva, mas podia ser outra qualquer. As mães não têm tempo para ficar sofrendo. É preciso garantir o pão e o sorriso das crianças, é preciso que a vida continue como sempre foi, ainda que, de repente, o pai já não esteja presente e nada volte a ser igual.

“Ainda Estou Aqui”, o filme-sucesso do Brasil, realizado por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello, é um filme sobre a ditadura militar, o regime autoritário que vigorou no país entre 1964 e 1985, e sobre o caso verdadeiro de Rubens Paiva, engenheiro não alinhado com o regime que foi detido em 1971 e torturado até à morte, centrado na figura da sua mulher, Eunice, que não só não aceita a falta de explicações das autoridades e nunca desiste de lutar pela justiça, como ao mesmo tempo tem de continuar a ser a mãe dedicada e sorridente de cinco filhos. “É preciso dar um jeito, meu amigo”, canta Erasmo Carlos na canção que atravessa as mais de duas horas de filme. E é isso que ela faz: levanta a cabeça, vai buscar forças que nem sabia que tinha e dá um jeito.

Tudo começa com o retrato de uma família feliz. Eunice formou-se em letras, Rubens é engenheiro, tinha sido deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro e, após o golpe militar, viveu exilado em diversos países. No regresso ao Brasil, instala-se com a família numa casa em frente da praia, no Rio de Janeiro. Juntos têm cinco filhos: Vera é a mais velha, está prestes a fazer 18 anos e a viajar para ir estudar em Londres, depois ainda há Eliana, Ana Lúcia, Marcelo e Beatriz. Ao som de Tom Zé, Caetano Veloso, Mutantes, Tim Maia e Gal Costa, desfilamos pelo calçadão de Copacabana, os jovens jogam vólei na praia, as crianças descalças jogam futebol na rua, grupos de amigos entram e saem de casa a toda a hora, a empregada prepara o almoço e protesta com os pés sujos de areia. Rubens e Eunice movimentam-se entre a elite intelectual, jogam gamão, bebem whisky, leem livros proibidos, sonham com a casa nova, que vai começar a ser construída. Os carros dos militares passam na avenida, as notícias da televisão dão conta de prisões, mas na casa dos Paiva há souflé na mesa e o gira-discos não pára de tocar.

A 20 de janeiro de 1971, seis homens armados invadem a casa da família para prender Rubens Paiva, devido ao seu envolvimento com o guerrilheiro Carlos Lamarca, sem contudo apresentar um mandado de prisão. Rubens pede-lhes para guardarem as armas, veste fato e gravata e sai a conduzir o seu próprio carro.

Eunice mantém a calma, apazigua os filhos. A tensão acumulada no seu rosto. Acaba por também ser detida nesse dia, juntamente com a filha de 15 anos. Eliana é libertada no dia seguinte. Eunice fica na prisão. É aqui que o sol do Rio dá lugar à escuridão da cela. Cada dia mais cansada, mais suja, mais revoltada, Eunice perde o seu sorriso luminoso. Quando, após 12 dias, é finalmente autorizada a sair, volta a casa e toma um longo banho, esfregando o corpo com raiva e retirando dele todos os resquícios da prisão e da antiga Eunice feliz.

As autoridades começam por negar a prisão de Rubens. Essa é a primeira batalha legal de Eunice Paiva, ao mesmo tempo que procura arranjar meios para sobreviver e continua a levar os filhos a comer sorvetes "Sorriam, crianças", insiste. “É preciso dar um jeito, meu amigo. Descansar não adianta. Quando a gente se levanta, quanta coisa aconteceu.” Depois de saber, por meios não oficiais, da morte do marido, Eunice decide mudar-se para São Paulo, para junto da família, para poder estudar Direito e iniciar uma vida completamente nova aos 42 anos. A despedida da casa representa, para as crianças, a morte nunca assumida do pai. O funeral que não puderam fazer.

Nos anos seguintes, Eunice tentou diversas vezes que o governo investigasse o desaparecimento do marido, mas os seus esforços foram sempre barrados pelas autoridades. "Mas não vou ficar calado. No conforto, acomodado, como tantos por aí." Tornou-se uma respeitada advogada, dedicando-se à causa indígena e atuando contra a expropriação de terras, ao mesmo tempo que liderou campanhas pela abertura de inquéritos sobre as vítimas da ditadura. As organizações brasileiras de direitos humanos estimam que centenas de pessoas desapareceram e cerca de 20 mil foram torturadas durante a ditadura militar. Em 1996, após a aprovação da chamada Lei dos Desaparecidos pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, foi emitido o atestado de óbito de Rubens Paiva, ficando assim reconhecida oficialmente a sua morte. O corpo nunca foi encontrado. 

Eunice Paiva morreu em 2018, depois de ter sofrido durante vários anos com a doença de Alzheimer, e, portanto, sem conhecer a verdade sobre o marido. O filme mostra-a, já interpretada por Fernanda Montenegro, em 2014, quando, após enorme investigação, a Comissão Nacional da Verdade confirmou o assassínio de vários dos desaparecidos. Ficou então a saber-se que, na prisão, Rubens Paiva foi espancado, interrogado e torturado. O médico Amílcar Lobo foi chamado ao quartel e encontrou o prisioneiro nu, deitado numa cela no fundo do corredor com os olhos fechados, o corpo marcado de pancadas e sinais de hemorragia interna. Os polícias recusaram-se a levá-lo para o hospital. Segundo testemunho do médico, Paiva morreu entre 20 e 22 de janeiro por causa dos ferimentos sofridos nas sessões de tortura. O seu corpo foi enterrado e desenterrado diversas vezes até que os seus restos foram atirados ao mar, na costa da cidade do Rio, em 1973, dois anos após sua morte. 

O argumentista e realizador Walter Salles conheceu a família e frequentou a sua casa no Rio de Janeiro, quando era também ele um jovem a sonhar com cinema e a ser parado pelas operações da polícia que revistava todo o mundo e semeava o medo. O filme "Ainda Estou Aqui" é baseado no livro escrito pelo filho de Rubens e Eunice, o escritor Marcelo Rubens Paiva. Foi publicado em 2015, ganhou um Prémio Jabuti e será esta semana editado em Portugal pela Dom Quixote.

Desde a estreia internacional em Veneza, onde foi aplaudido durante 10 minutos, o filme de Walter Salles já foi visto por mais de três milhões de pessoas e ganhou inúmeros prémios, consagrando a extraordinária Fernanda Torres, que foi a primeira atriz brasileira a receber um Globo de Ouro e, tudo indica, poderá ser nomeada para o Óscar de Melhor Atriz. "Ainda Estou Aqui" também está na shortlist de candidatos ao Óscar de Filme Internacional - as nomeações foram adiadas para dia 19 devido aos incêndios em Los Angeles e a cerimónia realiza-se na noite de 2 de março.

No discurso de agradecimento, Fernanda Torres dedicou o Globo de Ouro à sua mãe, a atriz Fernanda Montenegro que em 1999 esteve nomeada para os Globos e para os Óscares pela sua interpretação em "Central do Brasil", também realizado por Walter Salles. É também por isto que "Ainda Estou Aqui" é uma celebração da família. E é-o até ao fim. Quando as luzes da sala se acenderem, experimentem ficar sentados a ver os créditos e as fotos reais dos Paiva e a ouvir o Erasmo. "As crianças são levadas, pela mão de gente grande. Quem me trouxe até agora, me deixou e foi embora, como tantos por aí."

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