O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Já lhe aconteceu regressar a casa depois de umas férias memoráveis ou de um evento verdadeiramente especial e, em vez de se sentir animado ou cheio de energia, ser invadido por uma sensação de vazio, de apatia ou até mesmo de tristeza?
Esperámos meses por aquele momento. Planeámos os detalhes, contámos os dias e, finalmente, vivemo-lo. Quer tenha sido uma viagem de sonho, um casamento ou um reencontro há muito adiado, a expectativa era de que a felicidade nos acompanhasse durante muito tempo. No entanto, mal as malas são desfeitas ou as luzes da festa se apagam, surge um vazio inesperado. Uma tristeza que nos apanha desprevenidos e que, muitas vezes, nos faz sentir culpados: "Como é que posso estar assim depois de algo tão bom?"
Esta sensação não é ingratidão, nem um sinal de que algo está errado connosco. É um fenómeno psicológico comum, muitas vezes descrito como a "ressaca emocional" ou o post-holiday blues.
A psicologia diz-nos que, muitas vezes, a antecipação de um evento traz tanta ou mais felicidade do que o evento em si. Quando o evento acaba, perdemos esse "motor" que nos motivava e nos dava um propósito nas semanas anteriores. Ficamos sem o próximo marco no calendário, o que pode gerar uma sensação de desorientação.
Paralelamente, durante um grande evento ou umas férias, o nosso sistema de recompensa está em pleno funcionamento. Há uma libertação constante de dopamina e serotonina — os neurotransmissores do prazer. Quando o evento termina, os níveis destas substâncias sofrem uma quebra abrupta. O cérebro, que se habituou a um ritmo de estimulação elevado, sente a falta desse "combustível", resultando num sentimento de apatia e melancolia.
Além disso, há a questão do contraste. Saímos de uma realidade onde as obrigações eram escassas para sermos confrontados, de um momento para o outro, com a lista de e-mails pendentes, as contas para pagar e a rotina doméstica. Este choque de realidades é, por si só, um desafio para a nossa regulação emocional.
Como lidar com esta transição?
Sentir tristeza não significa que não aproveitou as férias ou que é uma pessoa que não valoriza os momentos prazerosos. Pode ser apenas o seu organismo a reajustar-se novamente à rotina.
Para facilitar este processo, podemos adotar algumas estratégias:
1. Valide o que sente: Não evite sentir tristeza. Reconheça que é natural sentir este vazio após um pico de felicidade. Dar nome às emoções pode ajudar a diminuir a sua intensidade.
2. Crie um "período de descompressão": Se possível, não regresse ao trabalho no dia seguinte ao fim das férias. Reserve um ou dois dias para estar em casa, organizar as rotinas e regressar suavemente à realidade.
3. Mantenha pequenos rituais: O que é que o fez feliz nas férias? Foi ler ao acordar? Foi caminhar ao fim do dia? Tente integrar pequenos elementos desse bem-estar no seu quotidiano atual.
4. Planeie algo pequeno a curto prazo: Não precisa de ser outra viagem grande. Pode ser um jantar com amigos, uma ida ao cinema ou um passeio no próximo fim de semana. Ter algo pelo qual ansiar ajuda o cérebro a manter-se motivado.
5. Dê nome ao que sente: Não tente mascarar a tristeza com uma falsa positividade. Dizer para si mesmo "estou a sentir o peso do regresso" ajuda a acalmar o sistema nervoso.
6. Mantenha hábitos saudáveis: Retome o sono, a alimentação e o exercício físico com calma.
7. Valorize as memórias: Reveja fotos e recorde os bons momentos em vez de focar apenas no fim deles.
A tristeza pós-festa ou pós-férias lembra-nos de que as experiências que vivemos foram significativas. É o reflexo de que o que passou foi bom – e isso é algo a celebrar, mesmo que agora precise de um tempo para voltar a encontrar o equilíbrio no seu dia a dia.