Desde cedo aprendem a frase: “estou aborrecido”, seguida logo de outras frases muito populares: “posso ir para o tablet?”, “posso ver televisão?”, “dás-me o teu telemóvel?”.
Têm um dom, adquirido desde cedo, o da persistência, e como tal, não perguntam só uma vez, e não se contentam com a primeira resposta. Insistem e persistem, mesmo ouvindo o celebre “Não”, até conseguirem uma resposta afirmativa.
No meio disto, pode gerar-se uma birra, uma discussão, uma consequência para um comportamento inadequado (por exemplo, uso da força pela criança para conseguir ficar com o gadget na mão), com impacto negativo para todos. Pais enervados, criança irritada por não ter o que mais deseja! De uma forma mais positiva, pode também gerar-se uma oportunidade de negociação entre as partes interessadas em resolver este dilema, que causa tantas emoções à flor da pele.
Este cenário pode acontecer nas férias? Sim, e de forma mais recorrente, porque há um convívio permanente 24h/24h. Entre a família nuclear e a família alargada, por vezes estão reunidas várias gerações – bisavós, avós, tios, pais, filhos, sobrinhos, primos – e podem emergir diferentes posições sobre o uso da tecnologia e sobre o aborrecimento, até pelas diferentes idades e fases do desenvolvimento quanto à autonomia (por exemplo, crianças vs adolescentes). A incoerência de estilos pode também partir da família nuclear, ou seja, quando pai e mãe estão em desacordo quanto ao uso de gadgets, em período de férias.
A parentalidade nas férias tem, pelo menos, dois desafios:
- A gestão do uso da tecnologia;
- A gestão do aborrecimento.
Para que qualquer estratégia funcione em família, nuclear ou alargada, há que partir com uma base poderosa: a negociação de regras e limites. Digo isto, muitas vezes: um jogo de futebol não tem graça sem balizas, sem a marca do golo – é um bom princípio negocial. Vejam em família quais são os vossos limites e regras para o uso da tecnologia, de forma equilibrada, com um usufruto do mundo online e offline.
Sim, podemos usufruir dos dois mundos, que atualmente têm fronteiras mais ténues. Numa caminhada, podemos contar os passos com a tecnologia. Num jogo de tabuleiro podemos cronometrar uma jogada com o telemóvel, e também registar as fotos daquele dia fantástico de praia ou piscina. A tecnologia pode estar aliada às vivências do mundo offline – e as crianças mimetizam os adultos nesses usos e abusos – a não esquecer!
A partir da negociação e do equilíbrio entre o que se vive online e offline estão todas as famílias prontas para ir de férias. As tais regras e limites podem e devem ser ajustadas, nesse período, pois cada um tem mais tempo livre sem obrigações e para estar em família. Se já têm experiência na negociação nesta área – nas férias é só mesmo mais uma conversa. É sempre bom debater temas importantes, para não se criarem “elefantes na sala” – que são aqueles assuntos que todos sabem que têm de falar e ninguém dá o primeiro passo.
A gestão do que fazer com as 24h de um dia de férias com crianças é um apelo à criatividade, mas de todos. O aborrecimento é um excelente momento para surgirem ideias criativas de como ocupar o tempo. É importante escutar os interesses da criança e envolvê-la nas escolhas. São várias birras e dores de cabeça poupadas. As crianças são sempre muito criativas nas suas brincadeiras, assim tenham um adulto, como diria Donald Winnicott, suficientemente bom, para as acompanhar e cuidar. Um adulto modelo, que conviva com e sem a tecnologia, que ofereça esse exemplo de equilíbrio à criança. Que partilhe com ela tanto interesses do mundo offline, como online, adequados à sua fase do desenvolvimento. Por isso, jogar em família é muito saudável, até online, claro, mas jogos adequados à idade da criança.
Estas são boas notícias para os pais: negociar regras e limites para o uso da tecnologia nas férias, reunir os interesses de todos para a ocupação do tempo, aproveitar os contributos criativos de todos, delegar tarefas na operacionalização dos momentos de descontração em família, com uma boa dose de disponibilidade, é ser suficientemente bom. Isto sem nunca esquecer que na negociação há a cláusula das exceções, para os adultos e para as crianças. Porque a mãe e/ou pai podem precisar de atender um telefonema de trabalho e responder a um email. Ou, porque há uma reunião de primos e querem todos jogar um jogo online, para mostrarem as suas habilidades digitais, mesmo com o sol a espreitar lá fora. As exceções são momentos delimitados no tempo, não se repetem todos os dias, previamente acordados quanto à sua necessidade e função.
Ser um modelo educativo (pelo exemplo), a negociação, a criatividade e a disponibilidade para a relação são, assim, armas fortes para uma boa gestão do uso da tecnologia e no combate ao aborrecimento. Todas estas estratégias têm na base o bom que é cuidar do outro e ajudá-lo a crescer de forma saudável – e por isso, pode levá-las na sua bagagem, de viagem. Boas férias!