No Dia Internacional da Felicidade conhecemos os 'ladrões' que nos "afastam daquilo que nos faz felizes" e vemos como se tornou mais difícil alcançar a felicidade numa era em que somos bombardeados por informação à distância de um 'swipe'
Ser feliz é muito mais do que um sorriso permanente e do que bem-estar constante. Paula Delgado, especialista internacional em Felicidade, Bem-Estar e Gestão da Mudança, diz mesmo que é “um mito” a ideia de que sermos felizes é estar sempre bem e com emoções positivas permanentemente. No Dia Internacional da Felicidade, a especialista esclarece, em conversa com a CNN Portugal, que “o que a ciência da felicidade nos diz é que ser feliz é também aprender a lidar com as emoções negativas, aquelas que nos deixam mais para baixo, como a tristeza, a frustração e a raiva”.
“Quando eu consigo lidar com essas emoções negativas de uma forma mais tranquila, de uma forma serena, os desafios acontecem, mas permitem-me lidar com eles de forma a trabalhar a minha felicidade. Quando eu consigo perceber a dimensão de que, para ser feliz, tenho de aprender a lidar com as minhas emoções negativas, aí sim, eu sou verdadeiramente feliz”, sublinha Paula Delgado, acrescentando que “abraçar essas emoções e deixá-las fluir é um processo que tem um retorno gigante”.
A busca incessante pela perfeição pode mesmo ser um travão inconsciente à felicidade. Paula Delgado alerta que nos impede de avançar, progredir e iniciar ou mudar para projetos que nos podem tornar mais completos: “Tendemos a esperar pelo momento certo, pelo momento perfeito. E o ideal é que olhemos para as ferramentas que nos fazem avançar naquele momento. E, depois, à medida que o processo vai se enrolando, e nós vamos tendo mais segurança, vamos caminhando, vamos fazendo acontecer noutra dimensão, que é aquela que pensámos inicialmente.”
“Quando esperamos pela perfeição, para ter tudo certo, estamo-nos a afastar daquilo que queremos. Temos é de fazer a mudança com aquilo que já temos”, resume.
Os 'ladrões da felicidade'
A busca pela perfeição e pelo momento certo podem assim “roubar-nos” as hipóteses de sermos felizes. Mas não é o único ladrão da felicidade identificado pela mentora da felicidade que dá palestras e atua em organizações nacionais e internacionais, “incluindo instituições públicas”.
“O conceito em inglês de thief of happiness tem cinco fatores que nos roubam a felicidade [controlo, vaidade, cobiça, consumo e conforto]. E acrescentei outros, como a passividade, a procrastinação ou a espera pela perfeição. Muitas vezes, a felicidade é-nos retirada por ações que levamos a cabo sem sequer termos consciência de que o fazemos”, explica.
É uma espécie de autossabotagem de “medo do sucesso” e “daquilo que nos pode acontecer”. São atitudes ou conceitos mentais que adotamos e que nos “afastam dos nossos sonhos”. Ou seja, no fundo, somos ladrões de nós mesmos.
A felicidade ou a falta dela adquire outra dimensão à medida que mergulhamos cada vez mais na era das redes sociais, dos ecrãs e da informação e solicitações permanentes. Paula Delgado não tem dúvidas em concluir que este mundo à distância de um clique ou de um swipe vem dificultar a vida a quem procura ser feliz.
“O maior ladrão da felicidade da era digital é a comparação. Comparam-nos com vidas perfeitas que não existem, com corpos perfeitos que não existem e com relações perfeitas que não existem. São poucas as pessoas que publicam nas redes sociais os momentos em que estão a chorar, são poucas as pessoas que publicam quando os relacionamentos têm dificuldades… e quantas vezes vimos depois a saber que ‘já não estão juntos’. Essa é uma das grandes consequências da era digital: compararmo-nos com vidas que não são reais, em vez de nos compararmos com aquelas que podem ser um role model para nós”, considera.
Mas não é o único. O mundo digital rouba-nos tempo. O tempo que poderíamos usar para traçar o caminho da nossa felicidade: “Perdemos muito tempo nas redes sociais. Vamos lá só por cinco minutos e ficamos lá meia hora, uma hora… e até o nosso sono, muitas vezes, é prejudicado. E andamos nesse registo, dia após dia.”
Paula Delgado licenciou-se em Gestão de Empresas e exerceu vários cargos de liderança. Em 2020, em plena pandemia, ficou desempregada e resolveu traçar um novo rumo na vida. Começou a trabalhar a felicidade – a própria e a dos outros -, um caminho que a levou à criação de uma marca própria, a Comprimidos Motivacionais.
Seis anos depois, dá palestras sobre a arte de ser feliz e atua em várias organizações, “cada vez mais” interessadas em contribuir para a felicidade dos próprios colaboradores. “As empresas estão cada vez mais interessadas na felicidade de quem lá trabalha porque precisam de fidelizar e atrair talentos. Sobretudo em áreas como a hotelaria, a restauração, a rotação de colaboradores é muito elevada e é preciso criar iniciativas para que as pessoas estejam lá”, justifica.
“Além disso, os dados também dizem que as empresas têm melhores resultados a nível de rentabilidade do negócio e reduzem o absentismo com pessoas mais felizes. Portanto, tudo isso as leva a preocupar cada vez mais com a felicidade de quem lá trabalha. Vejo mais as organizações preocupadas com isso. Inclusive a nível da administração pública, com quem também trabalho muito”, acrescenta.
Os cinco 'ladrões da felicidade' e como podemos travá-los
A felicidade não chega pronta, nem depende apenas das circunstâncias. Paula Delgado sublinha que a felicidade se constrói todos os dias, “através de escolhas conscientes, hábitos mentais saudáveis e responsabilidade emocional”. “Reconhecer os seus ladrões da felicidade não é motivo de culpa, é um ato de lucidez e, acima de tudo, de poder pessoal”, assegura, acrescentando que “a pergunta mais importante não é ‘O que me falta para ser feliz?’, mas sim ‘O que estou disposto a mudar para viver melhor, agora?’”.
Paula Delgado deixa-nos, assim, os cinco principais sugadores de felicidade que nos atormentam os dias e deixa-nos as chaves que nos ajudam a abrir a porta do bem-estar, da alegria e da satisfação pessoal.
1 - Procrastinação: o conforto que cobra juros emocionais
Adiar não é descansar. É empurrar para amanhã uma tarefa que sabemos que tem de ser feita, o projeto que nunca avança, a conversa difícil que evitamos, a decisão que fica em suspenso. A procrastinação não elimina o desconforto. Apenas o acumula. Com o tempo, surge a culpa, o stress de última hora e a sensação de estarmos sempre “em falta” connosco próprios”. E a “dor real” traduz-se em frases, pensamentos, conclusões e justificações como “se eu fosse mais disciplinado…”, “trabalho melhor sob pressão” ou “agora já é tarde demais”.
Dicas práticas para combater a procrastinação:
- Pergunte-se: se eu não fizer isto, como estará a minha vida daqui a seis meses?
- Divida a tarefa no passo mais pequeno possível e comece por aí. A ação gera motivação.
- Troque “tenho de” por “escolho fazer”, devolvendo-lhe autonomia.
2 - Dependência de bens materiais: a felicidade no modo "quando"
“Quando tiver aquela casa, serei feliz” ou “quando trocar de carro, tudo fará sentido” são muitas vezes frases mascaradas de esperança, mas que, na realidade, nos prejudicam. É um dos ladrões mais comuns e socialmente reforçados. A felicidade fica sempre condicionada a um “quando”, empurrada para o futuro. O resultado é uma satisfação curta, seguida de um novo desejo e um ciclo de insatisfação permanente. Hoje, este padrão vê-se claramente no consumo excessivo, sobretudo na roupa. Compramos mais do que precisamos, usamos pouco e descartamos rápido. O armário enche, a carteira esvazia e o impacto ambiental cresce. A felicidade não aumenta. Conquista-se muito, mas usufrui-se pouco. Vive-se rodeado de coisas, mas com pouco sentido.
Dicas práticas:
- Antes de comprar, pergunte: preciso mesmo disto ou estou a tentar preencher um vazio emocional?
- Vá mais fundo: quantas horas da minha vida vou ter de trabalhar para pagar o que estou a comprar?
- Olhe para o armário e questione-se: quantas peças já tenho que quase não uso?
- Lembre-se de que, consumo impulsivo, não é autocuidado nem é sustentável.
- Invista em experiências, relações e bem-estar. Duram mais do que objetos.
3 - Esperar pela perfeição: o bloqueio disfarçado de exigência
Muitas pessoas não avançam porque “ainda não está perfeito”. O projeto, o corpo, a carreira, a vida. A perfeição transforma-se num álibi elegante para adiar decisões e evitar riscos. Mas, a verdade é simples: a perfeição aprende-se no caminho, não antes de começar. Avançar não significa mudar tudo de uma vez, nem agir por impulso. Significa mudar com consciência. Não espere ter todos os recursos para avançar. Comece com o que tem hoje. O caminho faz-se a andar e, à medida que avança, surgem novas competências, mais clareza e mais recursos.
A mudança cresce consigo. É aqui que um plano de mudança faz a diferença. Mudar sem plano gera ansiedade e desistência. Mudar com um plano permite estrutura, ajustes e continuidade, tornando a mudança mais sustentável e realista. E depois ideias brilhantes ficam na gaveta e sonhos envelhecem antes de nascer.
Dicas práticas:
- Substitua “perfeito” por “o possível agora”.
- Avance com um plano de mudança simples, com objetivos claros e passos graduais.
- Lembre-se de que, mudança sustentável não é radical, é consciente.
- Pergunte-se: o que posso começar a fazer hoje que não me faça cair amanhã?
4 - Passividade e conforto excessivo: a felicidade em pausa
Ficar onde é confortável pode parecer seguro, mas a longo prazo torna-se estagnado. A passividade rouba propósito, entusiasmo e crescimento. A felicidade precisa de movimento. Os dias tornam-se repetitivos, cresce a sensação de vazio e torna-se inevitável a pergunta silenciosa: “É só isto?”
Dicas práticas:
- Introduza pequenos desafios semanais que o tirem da rotina.
- Assuma o papel de líder da sua própria felicidade, ninguém fará isso por si.
- Lembre-se: desconforto consciente gera crescimento; conforto prolongado gera frustração.
5 - Crenças limitadoras: a prisão invisível
“Não sou capaz”, “nunca consigo manter hábitos”, “isso não é para mim”. Estas frases parecem inofensivas, mas moldam decisões, comportamentos e resultados. Acreditar que algo é verdade, consciente ou inconscientemente, faz com que nós atuemos como se fosse.
Dicas práticas:
- Identifique a crença e questione: isto é um facto ou apenas uma história que repito?
- Troque “não consigo” por “ainda estou a aprender”.
- Peça ajuda. Autonomia não significa isolamento.
Para rematar, Paula Delgado deixa um pensamento em jeito de lema de vida: “A felicidade não é um prémio. É uma prática”.