No final de uma catequese, aquele menino quis falar comigo. Estava calado, sério, com um olhar que não era próprio da idade. Aproximou-se e disse, em voz baixa, quase a medo:
— Os meus pais estão sempre a discutir. Acho que se vão separar.
Fez uma pausa. Depois acrescentou, com uma naturalidade desarmante:
— Acho que a culpa é minha.
Naquele instante, quem ficou verdadeiramente assustado fui eu. Há poucas dores mais silenciosas do que esta: a de uma criança que acredita ser responsável pela fragilidade dos pais. Quando um casamento se parte, não se separam apenas duas pessoas. Partem-se também seguranças e memórias sobretudo no coração dos filhos.
Tentei explicar-lhe que os problemas dos pais não nascem dos filhos. Que os adultos falham, não por causa das crianças. Ele ouviu com atenção, mas percebi que as palavras não chegavam onde a ferida estava. Disse-lhe apenas:
— Reza. Reza pelos teus pais. Assentiu com a cabeça e foi-se embora.
Ao longo dos anos, tenho acompanhado alguns casais. As histórias variam nos detalhes, mas repetem-se no essencial: desgaste, silêncios acumulados, expectativas frustradas, afetos descuidados. E, quase sempre, no meio da turbulência, surge a mesma pergunta: “Não tenho eu direito a ser feliz?”
Há algum tempo, um pai pediu-me para conversar. Casado há mais de vinte anos. Os filhos já estão crescidos. Estava cansado. Não do cansaço de um dia mau, mas do cansaço de uma vida que perdeu o rumo.
— Padre, perdi o amor. O convívio tornou-se difícil. No trabalho conheci alguém que me faz sentir valorizado. Pergunto-me se este casamento ainda faz sentido. Não terei eu direito a ser feliz?
A pergunta é compreensível. Perguntei-lhe o que é que ele entende por felicidade. E se a mulher e os filhos não têm o mesmo direito a serem felizes. Ficámos longamente à conversa. Aprendi muito com as feridas daquele casal.
Construir dá trabalho. Permanecer cansa. Fugir parece sempre mais fácil. Às vezes confundimos felicidade com a ausência de dor. Mas amar nunca foi isso. Amar é atravessar fases, aceitar limites, aprender a cuidar quando o entusiasmo desaparece. Amar não é tanto perseguir a minha felicidade, mas pensar como posso fazer os outros felizes.
“Há mais felicidade em dar do que em receber”, como ensina Jesus (Atos 20,35). Quando se celebra um Matrimónio, não se pergunta aos noivos o que sentem um pelo outro. Mas pede-se uma declaração de compromisso: amar e respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença todos os dias da vida.
Nada disto é fácil. A fidelidade custa. Ficar custa. Recomeçar custa. Talvez este seja um dos grandes desafios do nosso tempo: aceitar que a felicidade não é um direito passivo, algo que alguém nos deve garantir, mas fruto de uma escolha.
O tema está longe de ser simples e não admite receitas rápidas para problemas complexos. Existem, naturalmente, motivos legítimos para que os casais se separem, como a proteção da integridade física ou mental, o direito dos filhos ou a impossibilidade de viver juntos (cfr. Catecismo da Igreja Católica n. 1649).
Quero, porém, deixar um olhar de esperança: o de que as crises podem ser etapas da vida a dois, oportunidades de crescimento pessoal, e não necessariamente um ponto final na relação. Neste sentido, deixo 5 atitudes que podem ajudar os casais a recomeçar:
1. Cuidar. O amor cresce nos gestos pequenos do dia a dia. Conversas sinceras, atenção aos detalhes: um café partilhado, um abraço inesperado, uma mensagem WhatsApp a meio do dia de trabalho.
2. Respeitar. Elogie as qualidades do outro diante dos filhos. As dificuldades mais desagradáveis falam-se a sós.
3. Perdoar. Antes de acabar o dia, peça perdão por aquela palavra dura, pela falta de generosidade ou de paciência. Como diz o Papa Francisco: nunca terminem o dia, sem fazer a paz. A «guerra fria» no dia seguinte é muito perigosa. Não são precisos discursos; basta um gesto e… tudo acaba, a paz está feita. Quando há amor, um gesto ajusta tudo.
4. Acompanhar. O amor não é apenas um sentimento; é decisão. Implica sacrificar gostos pessoais e entrar no mundo do outro: a sua série, a sua bebida, um ginásio em comum, um jantar no restaurante preferido. E, sobretudo, tempo de qualidade, sem telemóveis.
5. Rezar. O matrimónio é um projeto a três: marido, mulher e Deus. A fé fortalece o caminho comum. Ir à Missa juntos, rezar juntos antes das refeições ou antes de dormir, partilhar a leitura espiritual ou do Evangelho, ou procurar acompanhamento espiritual de um Padre pode fazer a diferença nos momentos mais exigentes.
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Há pouco tempo, reencontrei aquela criança e os seus pais. Contaram-me a história da sua reconciliação. Não foi rápida. Não foi fácil.
Sim, temos direito à felicidade. Mas esse direito conjuga-se sempre no plural. O direito à nossa felicidade. Sou verdadeiramente feliz quando procuro a felicidade dos outros numa vida que vale a pena ser partilhada.