Proença: «Que orgulho por terem a maturidade de escolher um antigo árbitro»

24 fev 2025, 13:18

Novo presidente da FPF agradeceu o trabalho feito, mas deixou vários recados no discurso de tomada de posse, virados para os três grandes, a arbitragem e a disciplina, sem esquecer os responsáveis políticos

Pedro Proença foi empossado como presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e reforçou que este é um «virar de página» no futebol português.

O sucessor de Fernando Gomes começou o discurso na FPF Arena Portugal, em Oeiras, com um longo agradecimento à equipa que o acompanhou na Liga. Depois, garantiu que quer aproximar os dois organismos, deixou uma palavra de apreço pelo candidato derrotado Nuno Lobo e apelou à «união».

«As coisas menos boas que possam ter sido ditas em campanha ficam em campanha, o tempo que prometemos hoje é de união. Deixar no campo o que acontece no campo é uma das maiores lições de quem viveu parte da sua vida entre o balneário e a zona técnica. Quando o jogo termina, é outro tempo. Não é raro que quem muito protestou durante o jogo, reconheça que a arbitragem foi difícil, mas foi justa. A arbitragem… Que orgulho tenho de reconhecer que o futebol do meu país teve a maturidade de escolher um antigo árbitro para liderar os destinos da Federação. Esse não é um sinal qualquer. O mérito dessa maturidade esteve muito mais na caneta de quem escolheu do que na pessoa escolhida», disse Proença, antes de elogiar o trabalho feito por Fernando Gomes ao longo de mais de uma década na FPF.

«Os vossos mandatos recentes coincidiram com o tempo de Madjer, de Ricardinho e de Cristiano Ronaldo. Cada um deles considerado o melhor do mundo vários anos seguidos. Um facto único na história. Uma era dourada, que no caso do capitão da Seleção A continua e que permite a esta casa ter o melhor atleta de todos os tempo à escala mundial, mas também um exemplo da paixão pelo país e pela Seleção Nacional. Foi um tempo coincidente com Cláudia Neto, Ana Borges, Jéssica Silva, Kika Nazareth, Dolores Silva e tantas outras que ainda cantam e vão cantar bem alto o hino de Portugal», vincou.

A intervenção, virou-se, mais tarde, para os clube, com vários recados para os presidentes de Benfica, FC Porto e Sporting, que estavam na plateia.

«A primeira palavra é para todos os agentes do futebol. Que a união que buscamos seja regada todos os dias. Que a vossa disputa seja exclusivamente em campo e que esta nova geração de dirigentes não falhe às pessoas nem ao país. Mudar pessoas e deixar tudo na mesma é como fazer tudo igual e esperar resultados diferentes. Não sou eu quem tem a responsabilidade única de virar a página. Vários dirigentes que me dão a honra de estar aqui têm na mão a capacidade de escrever um capítulo novo. Cada um de vós é motor nesta indispensável mudança para um tempo de maturidade. De nós, podem esperar exigência neste compromisso. Foi esse o compromisso que assumiram comigo e que me ajudou a estar aqui hoje. O futebol é um jogo de equipa, sozinhos não ganhamos jogo nenhum», apontou.

«É um facto que Benfica, FC Porto e Sporting são os nossos maiores clubes, mas o Sp. Braga já desafia a lógica tripartida e outros lhe seguem, porque o topo da pirâmide exige capacitação, competência e espírito coletivo. Portugal é, à data e na presente época desportiva, o sexto melhor país em pontos nas competições europeias de clubes. São factos, não são análises subjetivas. Faltam três anos para a concretização dos direitos audiovisuais nas nossas principais ligas, um salto pelo qual tanto lutámos e que segue na Liga Portugal com total autonomia, com qualquer um que venha a dirigir. Agradeço a presença de tantos presidentes de clubes que trabalharam connosco para que isso aconteceram. Todos sabemos da importância desse momento para a nossa competitividade. O que vos peço neste processo que tanto custou é simples: nem um passo a trás. A centralização dos direitos audiovisuais é uma espécie de maioridade sempre adiada. Sem ela, somos uma liga adolescente, sem projeto, sem ambição, sem futuro», prosseguiu.

«Se um de vós dominar sozinho todos os anos, sabem bem, serão reis de terra pequena e Portugal precisa de ser maior. Em campo, a cada ano, só ganha um. Cresci toda a vida a conviver com uma dose de negativismo sobre todos os vencedores, em que o discurso se centra mais nos deméritos do que na honra. Tenhamos todos a capacidade de fazer do virar de página algo que não acontece apenas na Cidade do Futebol, mas também no futebol inteiro. Chegou essa hora», acrescentou.

Outro foco do discurso de Proença foram os responsáveis políticos. O novo presidente da FPF recusou ser «politicamente correto e fazer preces ao topo da pirâmide».

«É hora de dizer a quem governa o país quem somos e ao que vimos. Não me perdoaria se falasse mais para dentro do que para fora», disse, antes de elencar três medidas que considera chave para o desenvolvimento do futebol.

«Não seremos escudo para governos nem bala para governantes. Algumas das propostas aguardam há anos demais. Podem esperar que não iremos largar para que exista uma solução. Ir ver um espetáculo de uma influenciadora de YouTube a um festival de verão ou um concerto da nossa banda favorita paga apenas 13 por cento de IVA. Desde o início do ano, por decisão dos nossos políticos, ir a uma tourada paga ainda menos, fica a seis por cento. Assistir a um jogo do Lourosa, do Belenenses dos Leões de Porto Salvo ou de qualquer outro clube ou Seleção, paga 23 por cento. Basta disto. Chegou a hora de acabar com esta discriminação. O IVA dos espetáculos desportivos tem de ser equiparado ao de qualquer outro espetáculo. Não queremos que seja menos do que os outros, mas que termine este abuso e injustiça», salientou.

«É vital que o futebol português mantenha uma competitividade externa forte e, para o fazer, precisa de um choque fiscal forte. Precisamos de construir, em conjunto com o Estado e com foco em algo nuclear: como reter tanto talento que formamos em Portugal. É preciso manter Portugal atrativo. Vale para tudo, menos para o futebol. Não acreditamos que assim seja. O IRS sobre atletas de alto potencial abaixo dos 23 anos vai precisar de uma resposta inadiável. Tem de ser. Eles não podem existir para promover Portugal e receber homenagem públicas. Esta Federação prefere ações», afirmou.

«Precisamos de um PRR para as infraestruturas desportivas. Temos nas infraestruturas – ou na falta delas – o maior fator crítico de crescimento», observou ainda.

A terminar, Proença não contornou o tema da arbitragem, depois de um fim de semana marcado por polémicas.

«Viemos para respeitar o que de bom se fez e faz, mas não viemos para deixar tudo na mesma. Não vou fugir de nenhum tema. Arbitragem e disciplina precisam de nós. Não nos conformemos que a a ideia de que a primeira é incompetente, porque não é. E que a segunda é tendenciosa, porque não pode ser. Dar condições, profissionalizar tudo e todos e exigir a máxima responsabilidade. Explicar sem medo, humanizar os árbitros e traduzir decisões disciplinares. Fazer da redução dos prazos de decisão um objetivo coletivo. Tudo perante uma inegociável autonomia», garantiu.

«A página virou. Virou, sim. Mas o livro não é outro. Conto com todos, não tenham a mais pequena reserva», rematou.

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