opinião
Colunista e comentador

A grande bagunça

15 dez 2021, 16:02

FC Porto e Benfica estão de novo de acordo em que o problema reside no Conselho de Disciplina, poupando a Comissão de Instrutores. Quem instrumentaliza quem, afinal, e quem se deixa instrumentalizar?

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Os castigos aplicados pelo Conselho de Disciplina da FPF aos treinadores do FC Porto e Benfica, Sérgio Conceição e Jorge Jesus, vêm relançar o debate sobre a “grande bagunça” que é o futebol português. É assim há muitos anos, sempre que os decisores rompem a cadeia de interesses subjacentes ao “core” dos principais clubes em Portugal, habituados a fazer valer as suas influências, poder económico (até junto dos tribunais) e a tentar anular qualquer centelha de independência que possa emergir, nomeadamente através da atividade de órgãos eleitos (como é o caso do CD da FPF) e não de nomeações (como é o caso da Comissão de Instrutores da Liga).

Estamos a falar de dois treinadores que foram castigados por motivos similares, isto é, lesão da honra e reputação, neste caso das equipas de arbitragem: Sérgio Conceição “carregou” sobre Fábio Veríssimo e o Conselho de Arbitragem após o jogo com a B SAD, no Jamor, que acabou empatado a zero (jornada 17 da época passada); Jorge Jesus fez o mesmo em relação a Artur Soares Dias depois do jogo com o FC Porto (a contar para jornada 31 de 20-21).

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Os treinadores sabem que, por força dos regulamentos que os clubes aprovam, não devem dirigir-se às equipas de arbitragem em termos que constituam lesão da honra e reputação. Basta perceber o que seria se, no meio da bagunçada, os árbitros começassem a dizer que os treinadores compõem as suas táticas de modo a fazerem com que os adversários ganhem vantagem sobre as equipas que dirigem, fazendo-os passar por desonestos e estarem ao serviço de terceiros.

Ou se estende o direito à liberdade de expressão a tudo o que os regulamentos restringem no futebol para além daquilo que é um direito consignado na Constituição, ou se aceitam os regulamentos à margem daquilo que é observado tantas vezes como um direito constitucional e, então, há que ser coerente e não utilizar os “ai, ais” só quando lhes convém.

O edifício do futebol tem um lado anticonstitucional (a privação da liberdade de opinião dos jogadores é uma ofensa inaceitável mas consentida por todos), mas são os próprios atletas que não se sentem desconfortáveis com isso, escondidos atrás de outros int€r€ss€s.

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O que é mais intrigante é que as reações agora protagonizadas pelo FC Porto e Benfica, curiosamente unidos no ataque cerrado à presidente do Conselho de Disciplina, Cláudia Santos, parecem ter uma motivação mais política e estratégica do que propriamente uma resposta à ineficácia daquilo que a montante gerou uma situação absolutamente absurda: o congelamento dos processos na Comissão de Instrutores da Liga dura eternidades (nos casos, mais de meio ano), mesmo quando são situações que não merecem  grandes (nem pequenas) dúvidas relativamente aos factos.

É absurdo que expressões a lesar a honra e a reputação de agentes desportivos correspondam a instruções do arco-da-velha, a passar, inclusive, de época para época.

O que faz com que a Comissão de Instrutores da Liga congele os processos durante meses a fio, muito para além daquilo que é razoável em processos tão simples?

O que faz com que o edifício da justiça desportiva consinta e até promova todas as manobras dilatórias utilizadas, até à exaustão, pelos departamentos jurídicos dos clubes, de modo a colocar em causa a integridade do principal órgão decisório da FPF, eleito (e não nomeado) no âmbito de eleições que até permitem a apresentação de candidatos diferentes daqueles que se apresentam a concorrer para a Direcção da dita cuja?…

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Qual a razão que leva Pinto da Costa a atacar a presidente do Conselho Disciplina, Cláudia Santos, e poupe a Comissão de Instrutores (Fernando Torrão, Filipa Elias, Rogério Oliveira, Bruno Sampaio e Sérgio Rola), que é nomeada e não eleita e pode ser “dissolvida”, esta sim, em qualquer momento? O problema está apenas na natureza da decisão ou está principalmente no tempo que leva a instrução de um processo tão simples?

Há temas que, tratados por certos “especialistas”, como por exemplo a “promiscuidade” entre política e futebol, passam a ser tão absurdos que não são para serem levados a sério.

Pinto da Costa pode ter razão ab initio sobre uma manifesta incompatibilidade entre as competências de uma deputada e o exercício da liderança de um órgão federativo, para o qual devem reunir-se todas as condições de independência, até de natureza política (não basta ser; é preciso ser e parecer), mas para que as pessoas se tornem respeitadas e credíveis nas batalhas que travam é preciso que lhes sejam reconhecidas iniciativas indiscutíveis de combate à promiscuidade, o que, convenhamos, não é bem o caso.

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Mais intrigante é a posição do Benfica, agora comandado (?) por Rui Costa, a pedir a “dissolução” do Conselho de Disciplina.

Quer dizer: FC Porto e Benfica estão de novo de acordo em que o problema reside no Conselho de Disciplina, poupando a Comissão de Instrutores, que é a casa onde, debaixo do seu telhado, não há espaço para caberem todas as dúvidas e interrogações.

Quem instrumentaliza quem, afinal, e quem se deixa instrumentalizar?…

A bagunça é total e isto só lá vai quando, por via de lei, os clubes deixarem de ser os (não) “reguladores” de si próprios.

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