A eloquência é o "talento de convencer, exaltar ou comover falando", diz o Dicionário Priberam. No futebol funciona melhor quando a eloquência é o "talento de convencer, exaltar ou comover ganhando jogos". Anselmi não ganhou sequer metade dos que fez
“Vejo a equipa do FC Porto cada vez pior”, diz Augusto Inácio. As estatísticas validam o que o comentador da CNN Portugal vê: Martin Anselmi tem 10 vitórias em 21 jogos, nos últimos três são dois empates e uma derrota que fizeram do FC Porto a pior equipa europeia do Mundial de Clubes. É estatística para envergonhar.
Augusto Inácio, ele próprio treinador, não vê qualquer tipo de progresso que justifique “dar mais tempo” a Martín Anselmi. “A equipa está cada vez pior, está pouco unida e está pouco comprometida com o treinador.” Mas a responsabilidade dessa falta de união não pode ser exclusivamente atribuída ao treinador: “Alguns dos jogadores não estão de corpo e alma no FC Porto. Dá a ideia de que estão lá para se mostrarem e eventualmente saírem de lá para outros palcos”. Mas a jogar assim só para palcos piores.
Outro problema: “O plantel do FC Porto tem muita falta de qualidade. Há muito poucas escolhas de qualidade quando se olha para o campo e para o banco de suplentes”. Ainda assim: “A equipa podia jogar melhor e ter um fio de jogo visivelmente mais rotinado e mais seguro”.
Com esta combinação de fatores, Augusto Inácio aponta um destino ao treinador argentino: “Já não acredito que ele vá continuar”, não houve “nenhuma evolução desde que Anselmi chegou ao FC Porto”. “Nas conferências de imprensa há uma mensagem mas o que vemos quando o jogo começa não corresponde àquilo que o treinador disse muitas das vezes. Fala bem e vê-se que tem garra, mas só isso é curto” para um clube que “está em transformação”.

Villas-Boas disse antes do Mundial de Clubes que Anselmi era o treinador para a próxima época e Villas-Boas disse também antes do Mundial de Clubes que era para passar o grupo. Nem o FC Porto seguiu em frente e nem se sabe agora se Anselmi fica. “O futebol é o momento, como se costuma dizer. E o momento pode determinar as ideias de André Villas-Boas para o futuro, que terá pela frente caminhos sinuosos para fazer do FC Porto aquilo que já foi”.
O FC Porto “que já foi” contrasta com o FC Porto que ‘já não é’. No entender de Augusto Inácio, os “caminhos sinuosos” de André Villas-Boas passam também por um balneário “que já foi” composto por “referências”: “O FC Porto já não tem as grandes figuras do balneário. Marcano e Diogo Costa são profissionais exemplares mas não vejo neles a liderança de Jorge Costa, Rodolfo Reis ou Fernando Gomes, por exemplo. Falta liderança e gente com voz forte” num balneário que “perdeu traves-mestras”.
Mas a responsabilidade pode alastrar do relvado para a tribuna presidencial: “Quando as coisas não correm bem é tudo colocado em causa: é o presidente, é a restante administração, são os diretores, o corpo técnico e alguns jogadores também”. Para Augusto Inácio, a decisão de Villas-Boas manter ou não Anselmi pode originar um cenário que o Benfica já viveu recentemente no início da última época: “A massa adepta do Benfica já não confiava em Roger Schmidt no início da temporada que passou. Rui Costa conseguiu que o treinador ficasse e acreditou nele, mas o que é certo é que as coisas, quando começaram a correr menos bem, veio logo aquela contestação toda e é isto que pode acontecer a Anselmi se ficar”.
