Viagem ao triunfo do projeto Visão 611

13 mai, 23:55
João Mário, Vitinha e Fábio Vieira

Lançado por Antero Henrique em 2006, o processo de revolução da formação do FC Porto foi criticado e rotulado de fracasso. Uma década mais tarde, porém, o clube foi campeão com sete jogadores formados no projeto e há vários atletas que se afirmam internacionalmente. O que mostra que as críticas podem ter sido precipitadas. Mas o que foi afinal o Visão 611?

O leitor mais atento à realidade do FC Porto lembrar-se-á seguramente do projeto Visão 611. Lançado por Antero Henrique em 2006, pretendia colocar seis jogadores da formação na equipa principal em 2011. Num espaço temporal de cinco anos, portanto.

O nome vinha aliás daí: lançado em 2006, ia até 2011. Visão 611.

Para o conseguir, o projeto pretendia revolucionar completamente a formação do FC Porto. A todos os níveis: scouting, treino, relação com a escola, infraestruturas, recursos humanos.

A verdade, porém, é que em 2011 o FC Porto só tinha um jogador da formação no plantel principal: o médio André Castro, que realizou seis jogos. No ano a seguir utilizou apenas o guarda-redes Kadú em dois jogos. E o mundo desabou sobre o projeto Visão 611.

Apresentado com toda a pompa e circunstância, com direito até a reportagens na imprensa internacional, o plano era afinal um fracasso. A imprensa, as redes sociais e os blogs encheram-se de críticas.

Mais de uma década depois, porém, percebe-se que talvez tenham sido exageradas: o FC Porto ganhou o título com quatro titulares criados dentro do projeto (Diogo Costa, João Mário, Fábio Vieira e Vitinha) e na lista de campeões tem ainda mais três nomes que cresceram no Visão 611 (Bruno Costa, Sérgio Oliveira e Gonçalo Borges).

Mas o que foi afinal o Visão 611?

Antes de mais convém referir que foi idealizado por Antero Henrique, após uma época de grande fracasso no clube, ainda na ressaca dos anos de Mourinho. Luís Castro foi contratado para diretor técnico e Vítor Frade foi chamado para ser o metodólogo de todo o projeto.

Estes três homens eram a base do projeto.

«O Visão 611 é um projeto que me diz muito e fico contente que passados tantos anos se realce que Fábio Vieira, João Mário, Diogo Costa, Vitinha, Bruno Costa, Dalot, João Félix, Gonçalo Paciência, André Silva, Ruben Neves, Sérgio Oliveira e tantos, tantos outros passaram por esse processo. Provavelmente a formação não lhe fez mal», ironiza Vítor Frade.

«O Visão 611 visou deixar bases para o futuro do clube, apostando em pessoas com talento e processos organizados. Tinha um enfoque especial nas duas áreas de maior valor acrescentado do clube: scouting e formação. Todo o departamento de futebol estava envolvido no projeto. Fizemos uma reestruturação, houve coragem para mudar e uma vontade indomável de fazer o melhor. Ainda hoje o FC Porto tem na sua estrutura quadros valiosíssimos que ajudaram a melhorar o clube naqueles anos», acrescenta Urgel Martins, na altura diretor executivo para o futebol.

O projeto tinha aspetos que para a época eram revolucionários no futebol português. Entre eles um documento orientador dos jogadores que se queriam no clube e da definição metodológica para os fazer evoluir no treino e no jogo. Havia uma forma de treinar e de jogar transversal a todas as equipas, dos sub-8 à equipa profissional, baseada no modelo de periodização tática.

«O pressuposto central era alicerçar a capacidade técnica e física na inteligência periférica. Na formação tem de haver a aprendizagem do jogo, aprender a jogar futebol, isso é que é formação. A periodização tática é a forma de burilar os jogadores», adianta Vítor Frade.

«Os jogadores tinham de ser ofensivos, de mandar no jogo, de ter posse de bola e de ter organização. A ideia é a mesma para todas as equipas do FC Porto, por isso é preciso evidenciar o conceito de cultura tática, conhecer o jogo e a riqueza que é um jogo de futebol. As equipas ao colo de uma cultura tática de qualidade exponenciam o desenvolvimento dos jogadores.»

Basicamente o FC Porto tinha conceitos de jogo que deviam ser facilmente detetáveis quando se viam jogar todas as equipas do clube. Fossem miúdos de dez anos ou profissionais.

Era dentro desses conceitos de jogo transversais a todas as equipas que os jogadores deviam crescer e evoluir, para então se tornarem jogadores à Porto.

A importância do programa Potencial Jogador de Elite e de Pepijn Lijnders

Ora para o conseguir, o Visão 611 criou o programa Potencial Jogador de Elite e contratou o holandês Pepijn Lijnders, que atualmente é adjunto de Jurgen Klopp no Liverpool, para o liderar. O programa Potencial Jogador de Elite identificava jovens nos vários escalões com mais potencial para chegar à elite e trabalhava-os em treinos de desenvolvimento individual.

Cláudio Silva, filho do antigo central Ricardo Silva e atualmente a jogar no Feirense, fez parte desse programa Potencial Jogador de Elite.

«Por ano o FC Porto selecionava uns vinte jogadores entre sub-19, sub-17, sub-15 e sub-14 que entravam no programa. Geralmente dividiam o grupo em dois, de acordo com as idades, e fazíamos treinos de desenvolvimento individual uma ou duas vezes por semana», conta.

«De manhã fazíamos treino normal de equipa e à tarde os jogadores colocados no programa faziam treino individual. No meu caso, como sou central, os exercícios consistiam numa série de repetições para aprimorar o jogo aéreo ofensivo, os desarmes, os carrinhos... Por exemplo, tínhamos uma série de balizas pequenas, todas numeradas, o treinador gritava «baliza um» e íamos de carrinho em esforço tirar a bola da baliza um. Mas cada jogador trabalhava os aspetos da posição em que jogava. Os avançados podiam fazer exercícios de finalização ou de desmarcação. Depois também havia situações de jogo em que faziam tabela e desmarcação nas costas do defesa. Havia muitos exercícios. Os treinos eram todos filmados, o FC Porto documentava tudo e nos dias a seguir analisavam e chamavam a nossa atenção quando alguma coisa não estava bem.»

Cláudio Silva diz que aqueles treinos eram preciosos no desenvolvimento individual dos jogadores e aponta um exemplo que acompanhou de perto e para ele é sintomático.

«O João Mário, que está no FC Porto, ganhou muita capacidade técnica com esse projeto. Aquela facilidade de controlar a bola que ele tem agora vem muito daí.»

João Brandão, atualmente a trabalhar com Luís Castro no Corinthians, fez parte enquanto treinador deste programa Potencial Jogador de Elite, trabalhando ao lado de Pepijn Lijnders, e diz que foi um programa fundamental para potenciar ao máximo os jovens jogadores.

«É importante reforçar que havia um trabalho específico por posições, mas também havia um trabalho específico por características dos jogadores. Eu dou sempre o exemplo do Diogo Leite e do Diogo Queirós, que apesarem de ocuparem a mesma posição no campo faziam um trabalho diferenciado um do outro, porque as necessidades do Queirós, tanto a nível ofensivo como defensivo, eram diferentes das necessidades do Diogo Leite», refere.

«Outra coisa importante é que não era um trabalho só virado para o momento ofensivo. Era um trabalho que potenciava capacidades individuais a nível técnico, ofensivo, defensivo, a nível do entendimento do jogo, a nível das capacidades emocionais e psicológicas, a nível das capacidades físicas, portanto era transversal a todas as dimensões do jogo.»

O projeto Visão 611, no entanto, era muito mais do que um processo para fazer crescer jogadores: era uma metodologia de trabalho para criar uma cultura de jogador à Porto. Toda a gente dentro do clube, de resto, estava imbuída desse espírito.

«A questão da metodologia criada pelo professor Vítor Frade, com a supervisão e a orientação do Luís Castro, foi decisiva para que houvesse uma operacionalização mais efetiva e uma capacidade de entendimento  do processo por parte de todos os treinadores. Para isso existiam também reuniões semanais que se faziam para discutir determinados momentos do jogo, para definir determinado tipo de treino e até para fazer uma análise de alguns jogos», adianta João Brandão.

«Por exemplo, eu era treinador na altura dos sub-15 e poderia acontecer todos os treinadores da formação se reunirem para analisar o meu jogo e discutirmos, conceitos, princípios e subprincípios, de forma a que tivéssemos uma identidade transversal a todos os escalões.»

Vítor Frade acrescenta aliás um pormenor curioso.

«O meu terreno era a forma de treinar e de jogar. Chamavam-me o treinador dos treinadores. E essa forma de treinar e de jogar era baseada nos pressupostos da periodização tática. No clube chegaram a estar 52 treinadores que eram meus ex-alunos. Nem todos tinham sido bons alunos, mas era absolutamente fundamental que todos tivessem a mesma cultura do jogo, que todos conhecessem uma determinada forma de jogar. Por isso os indicava ao diretor e ao diretor técnico quando era necessário reforçar o departamento técnico.»

Todas as áreas da formação tinham, de resto, linhas orientadoras claras. Esta sistematização e organização do trabalho era uniforme a todos os domínios do clube.

João Luís Afonso foi o líder do departamento de scouting do Visão 611e diz que também neste campo «foi estabelecido um método e foram criados processos que uniformizaram esta função».

O método passava, entre outras coisas, pela criação de equipas sombra em todos os escalões, ou seja, um jogador por posição que podia entrar no clube para substituir uma baixa na equipa correspondente, mas havia também um método de classificação para todos os jogadores observados: podia ser um jogador A (para entrar no onze), um jogador AB (para o plantel), um jogador BB (com parecer positivo e para manter sob observação), um jogador BC (com parecer negativo, mas também para manter sob observação) e um jogador C (sem interesse).

«O recrutamento está muito associado a uma função que é muito redutora e aquilo que se pretendeu foi transformar esse tal departamento de recrutamento num departamento de scouting, que tinha como missão final elaborar pareceres que fundamentassem ou não a contratação de jogadores. Havia vários níveis de validação e sempre que havia o tempo necessário permitíamos elaborar um parecer porque afastasse a margem de erro. Depois fomos aumentando a nossa rede de scouts e de informadores, conseguimos definir com mais precisão quais seriam os nossos principais alvos e conseguimos ajudar o clube a encontrar jogadores que tiveram um papel preponderante num período feliz do FC Porto. Houve vitórias, conquistas e vendas magníficas que ajudaram o clube.»

«Fábio Vieira, Vitinha e João Mário são talvez a última geração do trabalho que ficou»

Entretanto as pessoas foram saído e o projeto morreu. Sofreu a primeira baixa em 2014, quando Pepijn Lijnders se transferiu para o Liverpool. Em 2016 Antero Henrique, que era o diretor do Visão 611, saiu do clube. Aos poucos as pessoas foram saindo e as substituições foram deixando de fazer sentido.

O projeto perdeu importância e o clube decidiu claramente seguir outro caminho quando contratou o espanhol Pablo Sanz Iniesta, por indicação de Julen Lopetegui, para coordenador da formação.

No entanto a verdade é que os anos foram também trazendo cada vez mais frutos, que se tornaram evidentes pela capacidade de Sérgio Conceição de aproveitar e desenvolver os bons valores da formação. 

Feitas as contas, portanto, e onze anos depois de ter sido rotulado como um fracasso, ninguém que integrou o projeto tem dúvidas que o Visão 611 foi um sucesso. Urgel Martins diz, por exemplo, que o FC Porto ainda está a colher frutos.

«Tínhamos métodos de treino transversais e uma identidade Porto, apostámos em treinadores da escola holandesa, ex-jogadores do clube e nos melhores alunos da Fadeup, apostámos no treino de capacidades individuais, implementamos o Projeto Potencial Jogador de Elite, criámos a Dragon Force, fomos o motor para a implementação das equipas B na II Liga, recriámos uma rede de recrutamento com mais de 200 pessoas. Ficou valor no clube.»

Vítor Matos, também a trabalhar atualmente como adjunto de Klopp e que passou pelo projeto, assina tudo por baixo.

«Eu ainda não estava no FC Porto quando o projeto Visão 611 foi implementado, mas vivi o projeto numa fase posterior, já com uma maior consolidação e consistência no clube, e posso dizer que sem dúvida alguma foi a base para o desenvolvimento de muitos jogadores, seja numa perspetiva de primeira equipa ou de mercado. Uma cultura de clube muito forte como é a do FC Porto, uma Ideia de jogo que respeitava essa cultura vencedora, uma metodologia de treino coerente e uma lógica de desenvolvimento individual e coletivo. Isto tudo suportado por um departamento de scouting e por uma estrutura interna que acreditava em desenvolvimento e valorização.»

João Luis Afonso refere que «o Visão 611 veio trazer uma linguagem única, um conceito único, um método único e uma filosofia de trabalho única, que enriqueceram a cultura do clube, porque trouxe vitórias associadas».

«Eu recordo que a equipa B foi campeã nacional da II Liga, com os jogadores da formação, jogadores que beberam toda aquela cultura Porto. E julgo que a montra final deste projeto Visão 611 é agora esta geração, do Fábio Vieira, do Vitinha, do João Mário, etc, que ganhou a Youth League e que é talvez a última geração do trabalho que ficou», acrescenta.

E o que pensam os rivais que ficou do Visão 611?

Luís Dias foi coordenador da formação do Sporting durante muitos anos, foi adversário do FC Porto na altura do projeto, e à distância de alguns anos diz que Luís Castro «deixou ali algum trabalho bem feito».

«O grande mérito do Visão 611 foi criar uma imagem, um chavão, uma identidade que passou para dentro e para fora do clube, e que foi muito importante no sucesso da formação. O Luís Castro passou bem a ideia e essa identidade deu frutos. Foi um projeto que teve os seus méritos, mas o FC Porto nesta altura não está nas mesmas condições que estão os rivais na formação. Sem tirar mérito ao que foi feito, o FC Porto cometeu erros e o facto de não ter avançado para uma academia como tem o Benfica, o Sporting e o Sp. Braga deixou-o algo vulnerável.»

 

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