Numa noite de emoções fortes, o FC Porto apontou ao futuro e aplicou uma goleada silenciosa. À margem do duelo com o Vit. Guimarães, o Maisfutebol visitou a Inzone, projeto inédito em Portugal
Na noite em que o FC Porto homenageia, no Estádio do Dragão, a era do «presidente dos presidentes», o Maisfutebol visita a arquibancada nascente e uma das derradeiras iniciativas sociais promovidas pela administração de Jorge Nuno Pinto da Costa.
A propósito da receção ao Vit. Guimarães, os azuis e brancos celebram um ano sobre a inauguração da Inzone, espaço dedicado a adeptos com neurodiversidade e dificuldade no processamento de informação sensorial – autismo, hiperatividade, défice de atenção e intelectual.
Aquando da edificação do Dragão, entre 2002 e 2004, este perímetro da arquibancada nascente foi pensado para albergar jornalistas e um estúdio televisivo, sala recuperada para servir de mote à Inzone.
Estes espaços inclusivos são aconselhados pela UEFA e uma realidade já implementada no Reino Unido e em Espanha – e com toques lusos.
Todavia, no contexto português, apenas o FC Porto apresenta um projeto multidirecional, dividido entre sala sensorial, zona intermédia e bancada. Para compreender estas dinâmicas, subimos ao coração da Inzone, a sala sensorial.
«Vi a ideia no Qatar e em Inglaterra, demos um passo à frente»
Ao encostar a porta, o contexto auditivo é alterado por completo, tal a insonorização. É como entrar num submarino, o ruído está longe. A paz reina nesta sala, na qual os adeptos se entretêm com bolas de esponja, luzes, quadros e outros brinquedos reguladores. Por perto permanecem os terapeutas ocupacionais – estudantes de mestrado na Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto – presença que sossega os pais.
Além do equilíbrio de luminosidade e temperatura – aspetos prioritários – há também um trampolim e um baloiço.
«Estes objetos ajudam a regular os níveis de mobilidade e a intensidade que precisam para se acalmar, independentemente das idades. É possível oferecer uma experiência segura e calma.»
A explicação é assinada por Rui Martins da Silva, médico do Departamento de Saúde do FC Porto e fisiatra de especialidade.
«Vi esta ideia no Mundial do Qatar [2022] e em Inglaterra, mas demos um passo à frente. Não fazia sentido apresentar uma sala restrita, sem promover a integração em sociedade», completa, em conversa com o Maisfutebol.
«Pela primeira vez vim a um estádio em família»
Foi a partir desta ambição que o FC Porto aplicou um golo silencioso, marcado na memória de centenas – senão milhares – de famílias. Afinal, a Organização Mundial de Saúde estima que 16 por cento da população mundial lida com algum tipo de deficiência.
Na frente da sala há uma bancada improvisada, de poucos lugares. Por lá está André Castro, na companhia da esposa e dos filhos. O mais velho – Miguel, de 9 anos – foi diagnosticado com autismo, o que dificulta as idas aos jogos do capitão do FC Porto B. Por isso, nesta segunda-feira, o médio vive momentos inéditos, conforme relata ao Maisfutebol.
«Pela primeira vez vim a um estádio em família. Já tinha tentado, mas era impossível. A agitação é muita, o Miguel não consegue estar sentado. Aqui vê o estádio, pode correr [na zona intermédia], divertir-se ou estar sossegado na sala insonorizada. Viemos preparados para ficar 10 minutos ou o jogo inteiro, enquanto ele estiver tranquilo.»
«Recentemente, o Miguel foi assistir um jogo meu no Olival, mas queria entrar em campo, o que me preocupa. Na Turquia ele estava habituado a entrar para o relvado no fim do jogo. Lá é normal. Mas, em Portugal há outro tipo de regras.»
«O FC Porto é o clube do meu coração e quero ajudar o clube a ser melhor. Lugares inclusivos como este enchem-me de orgulho», descreve, emocionado. Nesta noite, o médio de 36 anos foi anunciado como embaixador da Inzone.
Sinais e sensações até à arquibancada
Num passo inédito em Portugal, os portistas organizaram uma sala sensorial com vista para o relvado, salvaguardando a opção de os adeptos descerem até à «zona transitória», na companhia dos referidos terapeutas e de objetos relaxantes.
Ora, para conhecer o corredor que compõe esta segunda zona – próxima da arquibancada nascente – o Maisfutebol recorre a Ângela Fernandes, terapeuta ocupacional desde 2008 e docente na Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto.
«Estes voluntários convidam os adeptos a variarem de contexto, aconselhando estratégias para se adaptarem – como os abafadores sonoros – e percebendo se ficam mais reativos, sobretudo na terceira zona, na bancada. Há vários sinais, como agitação, o mexer das mãos e o ato de se abanarem – a tentativa de o corpo se equivaler aos estímulos externos.»
«É bonito ver como os outros adeptos são sensíveis à presença destas pessoas, sentem orgulho ao ver promovida a inclusão. E para os estudantes a experiência é completamente diferente, até porque escasseiam oportunidades fora do contexto hospitalar.»
Inserida no debate que culminou na Inzone, Ângela Fernandes admite que, antes, nunca havia sonhado com tal empreitada.
«Temos consciência de todas as dificuldades de inclusão, a começar pela logística. Colocar rampas nos edifícios não é suficiente. Os espaços não são acessíveis, este ambiente de festa é ótimo, mas não para todos. É muito difícil chegar aos clubes, sobretudo aos “grandes”.»
«Alguns clubes portugueses tentaram um projeto semelhante, mas sem continuidade. É uma questão de cultura, porque esta realidade também deve chegar a centros comerciais, salas de teatro e de cinema. Esta condição é transversal na vida destas pessoas, que são privadas de atividades de lazer», reitera.
À espera da nossa equipa 💙 Para assinalar um ano de existência da INZONE, as famílias que vão assistir ao jogo na sala sensorial vão receber os nossos jogadores🙌#FCPVSC pic.twitter.com/a6NSb1uaPO
— FC Porto (@FCPorto) February 24, 2025
«Queremos chegar ao Olival, museu, Dragão Arena e setor visitante»
Para a noite desta segunda-feira, com mais de 44 mil adeptos nas bancadas, a Inzone conta com cinco voluntários, ou seja, um terapeuta para cada adepto. São pacientes – muito pacientes – atentos, sorridentes e afáveis.
«A área da saúde, até há uns anos, era sobretudo de mulheres, pela ideia de que nascemos para cuidar. O dom de cuidar não depende do género, depende da formação. O feedback de terapeutas homens é muito bom, não há problemas. E há cada vez mais homens.»
«A proporção continua a ser de maioria feminina – hoje são quatro para um – mas estamos a trilhar caminho», remata Ângela Fernandes, de sorriso rasgado.
E como se procede ao estudo dos diferentes casos, a fim de encontrar o ponto ideal de temperatura, luminosidade e disposição de espaço? Bom, essa é a “praia” de Daniela Pinto, terapeuta ocupacional do FC Porto há dois anos e âncora da Inzone.
«Solicitamos um comprovativo que ateste estas alterações do processamento sensorial, avalio as necessidades de cada adepto e preparo uma espécie de futurologia. A cada semana reorganizamos os equipamentos, depende das famílias que recebemos e do jogo em causa.»
«Estamos preparados para receber cinco famílias, hoje excecionalmente são seis, por recebermos o André Castro. O adepto compra o bilhete como se fosse para a arquibancada», explica ao Maisfutebol.
E o futuro está à espreita, garante Daniela Pinto, a mais requisitada pelas crianças.
«Temos várias iniciativas, desde audiodescrição para adeptos invisuais à linguagem gestual em momentos como o hino. Queremos chegar ao Olival, museu, Dragão Arena e aos setores visitantes», exemplifica.
Quanto às idades, a Inzone permanece aberta a todos: «Na dinâmica de dia de jogo, já recebemos um adulto de 31 anos. Um adepto que vem frequentemente ao estádio, mas que permanecia angustiado pela possibilidade de ser tocado por outras pessoas. Na sala sensorial sente-se confortável».
No elo de Pedro e Rafaela, um olhar basta
Para libertar Daniela Pinto – quase omnipresente nas três zonas da Inzone – prosseguimos a conversa a par de Rui Marques, portuense de 46 anos e pai de Pedro, atleta de futebol adaptado no FC Porto. Aos 14 anos, este jovem foi diagnosticado com uma doença rara – que «comporta componentes de autismo» – o que o obriga a comunicar por gestos, símbolos e pelo olhar.
«O Pedro pratica desporto há cinco anos, sempre pelo FC Porto. Aquando do nascimento, fomos avisados de que o Pedro não caminharia. Mas conseguiu, a partir dos 3 anos. Começou a prática desportiva na natação adaptada, de momento está no futebol. Além de melhorar a mobilidade, adquiriu o gosto pelo contexto colaborativo. Eles vivem poucos momentos em sociedade.»
«Hoje vivemos a terceira experiência na Inzone e a evolução é notável, já não precisa de mim, está sempre com o terapeuta Rafael, que é espetacular – já lhe perguntei se está vago noutros dias», relata, entusiasmado.
De volta de Rui Marques está uma menina, atenta ao irmão e entusiasmada por aquela experiência.
«A Rafaela tem 4 anos. Coabita com o irmão e já compreende as limitações dele. Ela percebe-o bem e lê-o cada vez melhor. Comunicam muito bem, até de formas que para nós – adultos – é complicado. É um elo que se sente. Canta-lhe, mas também evita que faça asneiras. Aos 4 anos. É incrível», partilha, no silêncio da sala.
Em suma, Rui Marques sente-se grato ao FC Porto, emblema com o qual renova laços.
«Os meus filhos adoram o clube, agora estou mais ligado. O FC Porto representa uma consciência cívica. Num mundo carregado de negócios, o FC Porto assume uma missão nobre», termina, com um abraço.
O derradeiro olhar panorâmico sobre o Estádio do Dragão a partir da arquibancada nascente foi brindado com o golo de Fábio Vieira, que deixou o FC Porto em vantagem sobre o Vit. Guimarães. Nesse momento, a maioria daqueles adeptos abraçaram a família e até os mais distraídos espreitaram para o relvado.
Em todo o caso, naquele minuto 68, a vitória era já uma garantia para estes jovens adeptos. Afinal, estavam no Dragão, num porto seguro, rodeados por amigos e família. O golo foi um bónus.
Na noite desta segunda-feira, o FC Porto promoveu o jogo mais inclusivo do futebol português, num triunfo até ver inigualável. O princípio de algo bonito.