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Betão, lã de vidro e até um telhado partido: como o FC Porto de Farioli se tornou campeão

2 mai, 22:30
Francesco Farioli (Lusa/MANUEL FERNANDO ARAUJO)

CAMPEÃO || Uma equipa construída do zero a nível mental e com muitas mexidas técnicas e táticas

26 de abril de 2025 e 26 de abril de 2026. Um ano separa as duas datas que mostram o que realmente mudou no FC Porto, permitindo perceber como de um autêntico caco se construiu um campeão, começando logo pela troca no banco.

Confiantes mas desconfiados, os adeptos do FC Porto foram percebendo a espaços que com Francesco Farioli era mesmo para ser diferente. Pelo menos ia dar para a equipa ser competitiva, algo que deixou de ser cedo com Vítor Bruno e que nunca esteve perto de ser com Martín Anselmi.

Assombrado por um desastre de fim de campeonato com o Ajax, o treinador italiano chegou para também ele provar alguma coisa, provar que era mais do que um pé frio que fraqueja nas decisões. Nas redes sociais houve mesmo adeptos, sobretudo do Sporting, que iam atirando um “tic tac” para a debacle portista, sobretudo depois do enorme trambolhão em Rio Maior, contra o Casa Pia.

Este título é também sobre isso, sobre essa reconstrução mental que foi feita dos dois lados, do de Francesco Farioli e do FC Porto.

Construir as fundações

Mas voltemos ao dia pós-revolução, ao dia que pode ser de revolução azul e branca, ou que a simboliza de forma perfeita. A 26 de abril de 2025 a defesa do FC Porto era composta por João Mário, Zé Pedro, Iván Marcano e Francisco Moura. Stephen Eustáquio jogava ali no meio como um líbero, mas o plano nunca esteve perto de resultar, tanto que essa tarde na Amadora acabou com um 2-0 para o Estrela mas podia facilmente ter resultado numa humilhação ainda maior para os dragões, que tiveram em Diogo Costa o melhor jogador.

Dessa defesa apenas o guarda-redes, também ele a fazer uma época transcendente, repetiu a titularidade. O resto é até difícil de comparar: Alberto Costa, Jan Bednarek, Thiago Silva e Jakub Kiwior.

É aqui que reside a grande diferença, na capacidade defensiva que o FC Porto passou a ter, e que lhe valeu vários jogos sem sofrer golos, sobretudo na primeira volta - à oitava jornada tinha sofrido apenas em Alvalade, num golo que até foi marcado por um defesa portista.

Habituados a ver centrais como Aloísio, Fernando Couto, Bruno Alves ou Pepe, os adeptos reencontraram em Jan Bednarek alguém que encaixou que nem uma luva, o capitão que não tem braçadeira e que é claramente o símbolo desta equipa, mesmo que não seja o melhor jogador ou sequer o melhor central, que não é.

Francesco Farioli encontrou ali o que Ruben Amorim encontrou em Sebastián Coates no primeiro título pelo Sporting. Um jogador que, sem ser deslumbrante, é tudo o que o treinador precisa nos diferentes momentos do jogo, por vezes até na frente. Neste caso, Jan Bednarek foi a cola que manteve o cimento e o betão sempre de pé, suportando tudo o resto se mais nada funcionar.

Propositadamente não referimos o nome de Jorge Costa com os restantes, já que aqui merece ter destaque especial, e que por esta altura deve celebrar como tantos outros portistas. Ele que estava, conta quem o conhecia, mais feliz que nunca por poder voltar a ajudar o clube do coração, mas que se despediu durante um treino quando a equipa preparava a estreia no campeonato. Sem dúvida que este é também o campeonato dele.

Sala das máquinas

Agora que o FC Porto é campeão não há razões para pensar algo diferente. Victor Froholdt é a figura deste campeonato e a grande dúvida é se ainda volta a jogar em Portugal ou se o levam já, até porque uma cláusula de 85 milhões de euros não é, por estes dias e para um jogador destes, algo impossível de ser batido.

É na capacidade de comer terreno que o dinamarquês demonstra total diferenciação para todos os outros. Não apenas para os colegas de equipa, mas para os adversários, que o veem a passar sempre com a mota cheia de combustível, enquanto eles às vezes já nem correr conseguem.

Desconhecido para muitos, estranhou-se os 20 milhões de euros pagos ao Copenhaga, mas já ninguém deve duvidar de que foi até barato, tamanha é a preponderância. Apesar de uma ligeira quebra entre janeiro e fevereiro, o dinamarquês reapareceu a todo o gás nesta ponta final de época, contribuindo até para a cooperativa de jogadores que fizeram esquecer que o FC Porto não tinha os seus dois melhores pontas de lança, Samu e Luuk de Jong.

É o timoneiro de todas as operações do FC Porto, seja na pressão incessante sobre o adversário, seja na construção de jogo e até na finalização. Numa lógica de rotação imprimida por Francesco Farioli, o meio-campo azul e branco foi sempre mudando e nunca teve três titular claríssimos, mas Victor Froholdt foi sempre nome certo.

Se tivéssemos de escolher um momento para exemplificar tudo isto, basta ir aos 0-4 em Arouca, com o jogo mais do que resolvido e com o FC Porto até reduzido a 10.

A ele junta-se um Alan Varela revigorado. Mesmo com alguns erros, o argentino voltou ao seu melhor, sendo decisivo numa fase inicial da época, sobretudo quando o FC Porto surpreendeu na fase de construção - é ele que dá o primeiro passo decisivo para o 0-1 em Alvalade, na quarta jornada, por exemplo.

E se Alan Varela não é indiscutível muito o deve a Pablo Rosario. Não é um craque, mas foi uma clara surpresa o nível em que apareceu esta época, sendo quase como que um 12.º jogador que apareceu sempre. Jogou a central, a lateral pela direita, a lateral pela esquerda, a trinco, a oito e até mais à frente quando foi preciso. O melhor que se pode dizer é que nunca o fez mal, sendo até decisivo em momentos em que se pedia algo mais, até na construção, como aconteceu no jogo em casa com o Tondela, em que entrou para ajudar a fabricar os dois golos da vitória.

De mais a menos, Gabri Veiga acaba por também ser figura deste FC Porto, percebendo-se porque é que Rodrigo Mora não joga mais tempo. É que o espanhol junta agressividade com uma qualidade de definição difícil de igualar, incluindo na marcação de bolas paradas. Nem sempre constante, apareceu na sua melhor versão no final da época, também ele compensando a falta de golos de um avançado de referência.

Um meio-campo que, no fim do dia, foi uma autêntica lã de vidro, impedindo muitas vezes a passagem de problemas lá para trás, mas também permitindo o começo de coisas diferentes na frente. A partir do banco, certamente que Lucho González estará contente com o que viu.

Um caça por um porta-aviões

Quem vê os resultados quase se esquece que o FC Porto andou grande parte da época sem um ponta de lança digno da sua história. Samu já não era esse jogador e nem deu tempo para perceber se Luuk de Jong podia sê-lo, mas perder os dois foi um golpe demasiado duro na equipa, que a partir de fevereiro teve de andar entre Deniz Gül e Terem Moffi, sem que nenhum dos dois tenha mostrado inequivocamente que tem nível para tanta andança.

Essas duas lesões podiam ter sido dois handicaps brutais para Francesco Farioli, mas o treinador arranjou maneira de as superar, por vezes até permitindo que a equipa encontrasse soluções diferentes das que conhecia ou tinha preparado.

Se quisermos ir a uma analogia militar, o FC Porto levou dois tiros no porta-aviões, mas acabou a descobrir um caça que é raro e que se pode tornar caso sério. Oskar Pietuszewski é nome incontornável da segunda metade da época, aparecendo aos 17 anos e vindo da Polónia com um caráter de decisão difícil de ter, ainda para mais na sua idade.

O polaco ajudou a resolver vários jogos difíceis e foi o único raio de luz capaz de perturbar a quase obcecada organização de Francesco Farioli, que certamente não se importa de ser perturbado desta forma.

Oskar Pietuszewski acaba a época como o jogador mais na frente, mas é justo que se reconheça que Pepê voltou ao seu nível e que William Gomes faz uma época globalmente boa, sendo até o segundo melhor marcador da equipa, apenas atrás de Samu.

Como se de um engenheiro se tratasse, Francesco Farioli fez uma casa à antiga mas com tecnologia moderna. Começou pelo betão essencial nas bases, mas foi capaz de lhe encontrar a melhor impermeabilização possível, o que permitiu que um ataque por vezes destapado e com o telhado fora do sítio - às vezes até com telhas partidas - não tivesse provocado nenhuma intempérie.

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