Os efeitos do «Clássico» vistos por André Pipa
O soco no estômago nos derradeiros instantes do clássico, quando a vitória parecia assegurada e o título mais que encaminhado (eram sete-que-seriam-oito pontos de vantagem sobre o bicampeão nacional). A lesão grave de Samu, o goleador da equipa – não joga mais nesta época. E de Kiwior, outro peso pesado. O eco negativo das habilidades circenses iguais às do tempo de Pinto da Costa que mostram, afinal, uma semelhança desoladora entre o rei posto e o rei deposto. Quando se pensava que o FCP ‘de Vilas Boas’ tinha renunciado às práticas manhosas, ei-las de volta: em loop, ao vivo e a cores.
Como se tivesse de ser assim. Como se não houvesse outra maneira de competir.
Como se o clube português mais titulado do séc. XXI (de longe…) não pudesse dispensar truques rasteiros e bafientos na hora de receber os rivais de sempre. Pergunto-me se a maioria dos adeptos portistas continua a achar que tem de ser mesmo assim. Espero bem que não. Caramba, estamos em 2026!
Com cinco pontos perdidos em apenas uma semana do mês de fevereiro (contra dois pontos perdidos nos primeiros seis meses do campeonato), Francesco Farioli já não parece tão confiante, embora disfarce bem. André Villas Boas, de semblante mais soturno, começa a fazer contas à vida. Os sinais já vinham de trás, apesar da impressionante performance pontual no campeonato, mas os jogos com o Casa Pia e o Sporting mostraram que o líder do campeonato atravessa uma fase desluzida.
Os jogadores perderam frescura e dinamismo. Já não parecem rolos compressores. Falta brilho e golpe de asa numa equipa desenhada à imagem do treinador: fisicamente possante, sólida e comprometida nas rotinas defensivas (prima non prenderlo…), mas talvez já demasiado previsível (ia escrever robotizada) para a capacidade de leitura e desconstrução dos treinadores portugueses.
E depois, claro, volta a pairar o fantasma das retas finais de Farioli (quebras a pique no Nice e no Ajax), o que não permite à nação portista confiar a cem por cento no treinador – apesar do que ele conseguiu fazer até ao momento. As dúvidas existem e a lesão de Samu veio na pior altura porque o segundo avançado (Luuk de Jong) também está fora de combate e as alternativas – Deniz Gul e o recém-contratado Terem Moffi – não inspiram a mesma confiança.
Até pode ser que sim, que façam esquecer Samu, mas só vendo. Não estou à espera que Farioli, treinador conservador, decida mudar o sistema de jogo numa altura tão delicada, mas acredito que dê o braço a torcer no que toca à importância de ter mais Rodrigo Mora numa equipa realmente muito carecida de fantasia. Os adeptos não lhe perdoarão se o FCP continuar a perder pontos com Mora sentado no banco. Tão simples como isso.
Independentemente do que acontecer na Madeira, com o Nacional, e nos jogos seguintes, com Rio Ave e Arouca, no Dragão, estou convencido de que o mês de março será absolutamente decisivo para as pretensões portistas na época. Será, mais que provavelmente, o mês do sim ou sopas.
Reparem. O FC Porto inicia março a jogar em Alvalade (dia 3) a 1.º mão da final antecipada da Taça de Portugal (com todo o respeito pelo Torreense e Fafe) e logo a seguir (dia 8) vai à Luz defrontar o Benfica. Duas visitas consecutivas à capital com tanto em jogo. Há ainda a receção ao Moreirense (dia 15) e a visita a Braga (dia 22) a fechar um mês de dificuldade máxima – sem esquecer, pelo meio, os dois jogos dos oitavos-de-final da Liga Europa, contra adversário a determinar. Uma competição em que o FCP até pode chegar longe, se o sorteio for amigo.
Ansioso por colocar ponto final no segundo maior «jejum» de campeonatos desde que Pinto da Costa se tornou presidente (1982) - são três anos a ver Sporting (2) e Benfica (1) ganharem, pior só mesmo o tetra benfiquista entre 2013 e 2017 – André Villas Boas estará neste momento a fazer contas ao que falta, depois de ver a equipa falhar em casa a possibilidade de praticamente arrumar a questão do título.
Com esta agravante. O Sporting continua vivo e o Benfica ainda mexe.