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Capucho de regresso à casa de partida

31 out 2018, 11:00
Capucho

O treinador volta ao Porto esta quarta-feira, na pele de adversário e com a camisola do Varzim. Ora por isso o Maisfutebol viajou ao início da carreira à boleia das memórias de Ivo Rodrigues e Ricardinho, dois jogadores orientados por um jovem técnico.

Estávamos no verão de 2007 quando Nuno Capucho é anunciado como treinador da estrutura do futebol jovem do FC Porto. O antigo extremo tinha pendurado as chuteiras dois anos antes, no Celta de Vigo, e desde então desaparecera do espaço mediático: não dava entrevistas, não aparecia.

Luís Castro era o coordenador da formação do FC Porto e, provavelmente por indicações vindas de cima, integrou Capucho na equipa de iniciados, como adjunto de João Brandão.

A estreia acontece num plantel rico, ao lado de promessas como Gonçalo Paciência, André Gomes, Tozé, Fábio Martins, João Novais ou Lupeta. A equipa vence a zona norte. Não consegue melhor que o terceiro lugar na fase final, é certo, mas a partir daí a carreira de Capucho é sempre a subir.

Na temporada seguinte é adjunto da formação de juvenis que é campeã nacional, numa equipa técnica liderada por Rui Gomes e que também tinha Folha, e no ano a seguir é adjunto dos juniores, numa equipa técnica liderada pelo holandês Patrick Greveraars.

Três anos bastaram, portanto, para Nuno Capucho ser lançado como treinador principal. Fê-lo numa equipa de juvenis que acabou por ser imediatamente campeã nacional.

Ivo Rodrigues, que atualmente representa o Antuérpia, estava nesse plantel e guarda gratas recordações do treinador, que então fazia a estreia numa nova carreira.

«O Capucho é um treinador com carácter e com personalidade. Já foi jogador e sabe ver o lado dos atletas. Lembro-me dele como um técnico que trabalhava muito bem o lado emocional dos jogadores, que tinha ideias táticas muito vincadas e gostava de jogar sempre olhos nos olhos», conta o internacional sub-21 em conversa com o Maisfutebol.

«Conseguia criar amizade com os jogadores e mostrava que estava lá para ajudá-los. É uma pessoa com enorme experiência e por isso considero que já naquela altura era impossível não ter sucesso.»

Ricardinho, atual jogador do Maia Lidador, também estava nesse plantel e também, como Ivo Rodrigues, voltou a ser orientado por Capucho na equipa de juniores.

O médio assina por baixo, de resto, a avaliação que faz o extremo do Antuérpia.

«Era um treinador muito amigo dos jogadores, que construía uma boa relação com os atletas, que se preocupava com eles. Por ter sido jogador percebia que era importante entender os atletas e gostava de conversar com eles», conta.

«Utilizava muito a experiência dele enquanto jogador para nos transmitir coisas, não só em situações de treino mas também em outras circunstâncias, por exemplo nas viagens de autocarro. Gostava de nos contar histórias que nos servissem como lição.»

Ricardinho recorda também um líder que gostava muito de brincar com os jovens e que estava sempre pronto para arrancar umas gargalhadas. Embora na altura de trabalhar fosse muito sério.

«Lembro-me de um episódio curioso. Um dia estava a chover muito e também fazia um vento muito forte, como é normal no Olival porque aquilo fica numa zona alta. Nós íamos treinar no sintético, que estava cheio de poças de água. Então ele chegou ao campo e diz: ‘o quê, treinar neste campo? Com este temporal? Nem pensar’», sorri Ricardinho.

«Então fomos para o interior do edifício e fizemos umas partidas de futvólei e umas brincadeiras nos corredores, descalços ou de chinelos. Foi o nosso treino desse dia.»

Ora Capucho é hoje em dia treinador do Varzim e esta quarta-feira regressa ao Porto, para entrar no Dragão na pele de adversário. Ivo Rodrigues não se surpreende que assim seja.

«Sempre achei que seria um treinador do FC Porto por muitos anos, porque fez um bom trabalho connosco, foi campeão sub-17 e trabalhava bem a equipa. Tinha qualidade», começa por dizer.

«Mas uma pessoa quando está tantos anos no FC Porto, como o Capucho, o Folha, o Sérgio Conceição, a jogar anos a fio ao mais alto nível, tem de se tornar ambicioso. É normal que ele quisesse chegar ao futebol sénior e desenvolver uma carreira que não ficasse pela formação.»

Esta quarta-feira, portanto, Capucho vai ter mais uma oportunidade de trabalhar sob os holofotes do mediatismo. Fá-lo curiosamente num estádio que lhe diz tanto: o Dragão.

É verdade que já teve catorze jogos na Liga ao serviço do Rio Ave, e até venceu o Sporting nessa altura, mas uma sequência de sete jogos sem vencer, somada à eliminação prematura da Liga Europa – ainda nas pré-eliminatórias –, ditou a saída do treinador.

O jogo no Porto, de resto, traz outra curiosidade: Capucho vai ser adversário de um antigo colega de quem foi rival durante uma época. Em 97/98, num plantel orientado por António Oliveira, Capucho e Sérgio Conceição lutavam por um lugar na direita do ataque.

«Eles eram os dois extremos-direitos, faziam concorrência um ao outro, mas fizeram vários jogos juntos na mesma equipa. Penso que na altura o Capucho ficava na direita e o Sérgio Conceição jogava mais pela esquerda, outras vezes o Capucho jogava mais no meio-campo», conta Gaspar.

«Sérgio Conceição é como treinador o que era enquanto jogador. Se lhe apertam um calo, ele tem de fazer a faiscazinha dele de volta. Nunca lhe vi ponta de maldade, ele é assim, é genuíno e faz as coisas por instinto. É um homem que morde a língua. O Capucho tem sangue nortenho, vive há muitos anos cá em cima, não deixa de ter também a escola do FC Porto e tem o coração junto à boca. É um homem de carácter.»

O antigo central, que fez carreira em clubes como o FC Porto e o Rio Ave, lembra-se que naquele plantel que foi campeão nacional era normal haver umas quezílias nos treinos. Mas não recorda que a luta entre Sérgio Conceição e Capucho alguma vez tenha dado faísca.

«Faísca a sério era entre o Sérgio Conceição e o Paulinho Santos. Nós até nos ríamos. São duas pessoas que não aceitam ficar para trás, querem levar sempre a melhor e num simples treino dava faísca. Muitas vezes estávamos a jogar uma bola junto a uma área e os dois apareciam a disputar a mesma bola já na outra área. Corriam o campo todo para não perder aquela bola», diz.

«Mas sempre que havia um despique, fazia-se um almoço de todo o grupo para normalizar as coisas. Havia muitos almoços para construir um espírito de grupo forte. E aquele grupo era muito forte. Às vezes as faíscas até aconteciam de propósito, só para podermos ir almoçar fora.»

Esta quarta-feira, no Dragão, é improvável que o reencontro de Sérgio Conceição com Capucho dê a faísca que nunca deu. Mas é certo que os dois vão voltar a lutar um contra a outro, sabendo que provavelmente só um vai ter sucesso.

Seja como for, porém, será um jogo de emoções fortes para Capucho.

Um regresso à casa de partida.

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