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A Mensagem de Rui Santos para a "Dona Vergonha", com "cc" para AVB: "Não tens nenhuma noção do que é competir limpo, pois não?"

11 fev, 11:56

Rui Santos, depois do Clássico,  dirige a sua Mensagem à figura da "Vergonha" que se instala no futebol e deixa uma nota complementar de crítica aquilo que acontece sob a jurisdição de outros clubes em Portugal: "Temos um problema crónico de liderança responsável no futebol português". E pergunta: onde estão a Liga e a FPF quando estas coisas acontecem?

Dona Vergonha (com conhecimento de André Villas-Boas),

Dona - assim te denomino - não apenas de ti própria, e isso é que é grave.

Dona daqueles que não te rejeitam, que não te vedem a entrada e que ainda por cima te incentivam a fazer coisas típicas de um país do terceiro mundo.

Não tens a mínima noção do que é educação, desportivismo e convivência social, pois não?

Não te interessa nada lançar foguetes de madrugada para perturbar o sono de atletas de alta competição, pois não?

Dá-te gozo especial colocar cortinas para limitar e abafar o efeito dos incentivos de adeptos que tratas como se não tivessem os seus direitos, não é?

Tu - Vergonha - és capaz das coisas mais inadmissíveis: tirares propositadamente as toalhas que o guarda-redes utiliza para limpar as luvas num tempo de chuva particularmente adverso?

Tirares os pinos onde repousavam as bolas, como é aliás regulamentar, para se perder mais tempo com o resultado em 1-0?

Deseducares miúdos que são apanha-bolas?

Colocar cartazes no balneário da equipa sobre a qual querias provocar desconforto e afectação psicológica, ao ponto de o fazeres nas paredes por cima dos urinóis? Não tens nenhuma noção do que é competir limpo, pois não?

Já não bastava o nevoeiro a ameaçar a realização de um jogo, ainda por cima a realizar-se num tempo de tragédia a afectar centenas de milhar de portugueses, confrontados com uma série de tempestades que nunca mais tem fim?

Não ficarias satisfeita (pois não?) se não enchesses o Estádio de fumo provocado pela deflagração de artefactos pirotécnicos sobre os quais as autoridades continuam a ser totalmente ineficazes? 

Achas que tens o direito de fazer parar o jogo por cerca de 4 minutos, incluindo os atletas que julgas estar a proteger?

… E a cena do ar condicionado colocado à temperatura máxima para fazeres suar ainda mais aqueles que acharias conseguir abater? Eu sei que foste baptizada com o nome que tens - VERGONHA - e quem tem esse nome quer fazer jus a actos vergonhosos, afastando com eles e com a sua indiferença tantos e tantos adeptos que perderam o respeito por uma modalidade na sua génese tão bonita.

Achava que não teria de te dirigir mais a palavra. Porque não mereces. Porque - tu, sim e quem te encobre - fazem mal ao futebol e já lhe provocaram demasiado dano, perante as falinhas mansas e a conivência de quem a sustenta e protege.

E é contra esses que me insurjo quando percebo que a indústria do futebol em Portugal se assemelha muitas vezes a uma caixa de pó de arroz cheia de vermes, um espaço mal frequentado, um jogo de enganos entre falsidades e ações de propaganda que servem para camuflar as evidências, onde quase todos se calam (até nas pomposas embaixadas entretanto criadas) perante situações que deveriam merecer a mais severa das críticas.

Ontem, decidiste revisitar o Dragão e que mal lhe fizeste, mais uma vez.

Aqueles milhares de adeptos azuis-e-brancos que, depois da primeira saraivada de tocha), começou a assobiar-te, não vestindo a tua camisola, sim a tua camisola que ao contrário do que pensas não é azul e branca, é negra, de uma negritude que embaraça as pessoas de bem, Vergonha, são a minha esperança e de muitos adeptos que, com uma certa dose de masoquismo, ainda acreditam no futebol.

Sabes o que me embaraça? A ausência de consequências sérias que te coloquem no lugar - e se já tinhas aparecido no intervalo do jogo com o SC Braga na cabina do árbitro Fábio Veríssimo a mostrar supostos erros de arbitragem acontecidos na primeira parte desse jogo, cujas imagens apareceram num ecrã de televisão impossível de desligar e tudo ficou em águas de bacalhau através de decisões também elas vergonhosas do nosso “regime disciplinar”, é porque estás outra vez a engordar.

E é isso que concorre para a conclusão de que estamos perante um jogo de enganos e é por isso que me dirijo, agora, a si, André Villas-Boas:

Qual é o seu papel? Prometeu um futebol diferente, prometeu não estar ao lado daqueles que puseram em causa a imagem do FC Porto, que tem nas suas fileiras muita gente honrada, mas que andou anos a fio subjugada a interesses que você próprio denunciou. Onde é que estão essas promessas?

Tenha a coragem de o confessar, se for caso disso, como teve a coragem de enfrentar o papel promíscuo das claques que ontem reapareceram em força.

Terá sido uma comemoração prematura?

Ou será que, passado o tempo em que se instalou na presidência, vai recuperar a ausência de valores que muitos protagonizaram?

Eu não acredito que queira criar a sua guarda pretoriana, à semelhança de outros tempos. Nem acredito que tudo o que se passou em redor deste clássico seja da sua inteira responsabilidade. Mas está a deixar instalar a dúvida sobre as suas responsabilidades. Porque é o presidente. E o presidente que você disse que ia ser não pode pactuar com muitas das coisas que aconteceram. Se alegar, nalguns casos, desconhecimento, tem de chamar à pedra quem fez o que fez na cabina do adversário. Quem colou os cartazes? Quem ligou o ar condicionado no máximo?

Não deixe que muitos perguntem: quem é você, afinal, André Villas-Boas? O homem das boas causas, com direito a lutar por um FC Porto ambicioso, lutador, competitivo (indispensável ao futebol português) ou - ao contrário do que penso - um agente dissimulado, que apregoa uma coisa e faz outra, alinhado com essa desavergonhada chamada Vergonha?

NOTA - Esta Mensagem não iliba, em nenhum momento, situações ocorridas no seio do Benfica e do Sporting ou de outros emblemas. Ainda há pouco tempo tivemos elementos da claque não oficial do Benfica a ser recebida no Seixal por gente com a cara tapada a pedir satisfações ao staff do futebol. E ainda não há muito tempo houve uma viatura de adeptos do FC Porto que foram cercados e visados gravemente por energúmenos que foram relacionados com o Sporting, por ocasião de uma partida de hóquei em patins. Ou do que terá acontecido agora no basquetebol. Porque o ódio e o racismo não podem caber no desporto e nas sociedades.

Temos um problema crónico de liderança responsável no futebol português e o meu apelo, em SOS, vai para todos os presidentes e responsáveis do governo e do movimento associativo, mas também particularmente para a FPF e para a Liga: onde estão elas, a FPF e a Liga, no intervalo do chá das cinco?…

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