Imagens de satélite mostram mais de 100 veículos militares estacionados perto da passagem de Nahal Oz para Gaza para o arranque do plano do governo Netanyahu que culminará na reocupação total do enclave palestiniano
O gabinete de segurança de Israel votou pela expansão da guerra em Gaza, marcando uma grande escalada num momento em que o país está sob intensa pressão nacional e internacional para pôr fim ao conflito.
O gabinete aprovou planos para capturar a Cidade de Gaza, no norte do território, como parte dos objetivos israelitas de destruir o Hamas e resgatar os reféns mantidos pelos militantes. Mas a medida veio elevar temores de que novos combates apenas coloquem os reféns em perigo – e agravem uma crise humanitária já de si grave.
O plano também aproxima Israel da ocupação total de Gaza, algo que não acontece há quase 20 anos.
Eis o que sabemos sobre a decisão que pode reformular a guerra em Gaza.
O que se sabe sobre o plano?
Após uma sessão-maratona, o gabinete de segurança de Israel votou pela adoção daquilo a que chamou "os cinco princípios para o fim da guerra".
Estes incluem o desarmamento do Hamas, a devolução dos reféns mantidos em Gaza, a desmilitarização do enclave, o controlo israelita de Gaza e o eventual estabelecimento de uma administração civil que não seja nem o Hamas nem a Autoridade Palestiniana, esta última reconhecida internacionalmente.
O plano a cinco meses ocorreria em várias fases, começando com a tomada da Cidade de Gaza "enquanto se distribui assistência humanitária", de acordo com o Gabinete do Primeiro-Ministro (PMO).
Gráfico: Lou Robinson, CNN
O prazo para a primeira fase, que inclui a evacuação da Cidade de Gaza e a expansão da distribuição de ajuda, é 7 de outubro, de acordo com uma fonte israelita, escolhido intencionalmente para marcar o segundo aniversário do ataque liderado pelo Hamas a Israel.
O plano significaria mobilizar milhares de soldados já fatigados por meses de combates no território.
Uma imagem de satélite capturada na manhã de sexta-feira pelo Planet Labs mostrou mais de 100 veículos militares estacionados num depósito perto da passagem israelita de Nahal Oz para Gaza – a apenas três quilómetros da Cidade de Gaza. O depósito, localizado ao longo da Linha do Armistício de 1949, está cercado por várias bermas defensivas.
O primeiro-ministro afirmou que "a grande maioria dos ministros acredita que o plano alternativo apresentado pelo gabinete não alcançaria a derrota do Hamas nem o retorno dos reféns", sem deixar claro qual era esse plano alternativo.
Embora Benjamin Netanyahu tenha dito à Fox News antes da reunião que pretendia assumir o controlo militar total de Gaza, o plano anunciado é mais específico, concentrando-se, pelo menos inicialmente, na Cidade de Gaza.
Até que ponto é que o plano é apoiado?
Ao levar adiante este plano, Netanyahu está a ir contra a vontade de grande parte do público israelita e até mesmo de vozes importantes dentro das Forças Armadas.
Protestos eclodiram em Israel antes da votação do gabinete de segurança. Familiares dos reféns alertaram o Governo contra a expansão da campanha militar, afirmando que Netanyahu está a preparar "a maior farsa de todas" ao afirmar que os reféns podem ser libertados por meios militares.
Netanyahu respondeu à reação negativa, insistindo que Israel não pretende ocupar Gaza completamente e que a expansão da campanha militar visa "libertar Gaza do Hamas".
"Gaza será desmilitarizada e uma administração civil pacífica será estabelecida, uma que não seja a Autoridade Palestiniana, nem o Hamas, nem qualquer outra organização terrorista", disse Netanyahu numa publicação nas redes sociais na sexta-feira. "Isso ajudará a libertar nossos reféns e garantirá que Gaza não represente uma ameaça a Israel no futuro."
Cinquenta reféns permanecem em Gaza, e acredita-se que pelo menos 20 deles estejam vivos.
Um grupo de mães de soldados israelitas também criticou o plano, afirmando que seria fatal para reféns e soldados israelitas.
Inquéritos de opinião em Israel têm consistentemente mostrado que uma grande maioria é favorável ao fim do conflito para garantir a libertação dos reféns.
O exército israelita recomendou a busca por uma via diplomática para acabar com a guerra, temendo que a expansão da operação possa levar à captura de tropas.
O Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, o tenente-general Eyal Zamir, alertou para o perigo de agravamento da crise humanitária em Gaza e para as implicações internacionais da escalada, de acordo com uma fonte israelita que falou à CNN, acrescentando que seus alertas foram ignorados.
Netanyahu conta com o apoio de membros da extrema-direita no seu governo, que estão a apoiar a sua coligação e a pressionar pela tomada total de Gaza.
O plano já recebeu fortes críticas internacionais – o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que expandir os combates "só traria mais derramamento de sangue".
Líderes de países como França, Irlanda e Canadá alertaram contra a medida, argumentando que ela vai piorar a situação humanitária em Gaza e também colocar em risco as vidas dos reféns restantes.
Vários países do Médio Oriente também condenaram a decisão do governo israelita. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita disse desaprovar a "inflexibilidade de Israel em cometer crimes de fome contra civis, conduta brutal e limpeza étnica contra nossos irmãos palestinianos".
O Ministério afirmou que a decisão demonstra como o governo israelita "não compreende a relação existencial, histórica e jurídica que os nossos irmãos palestinianos têm com aquela terra".
Já os EUA, importante aliado de Israel, deram a sua aprovação ao plano.
Antes da decisão israelita de expandir a guerra, Trump não expressou preocupação, afirmando que "cabe a Israel" ocupar toda a Faixa de Gaza, acrescentando que deseja que mais ajuda humanitária entre no enclave.
O que significa para os palestinianos de Gaza?
A primeira etapa do plano israelita – a captura da Cidade de Gaza – envolve a deslocção forçada de até um milhão de palestinianos para o sul de Gaza, quase metade da população do território.
Os combates já devastaram Gaza, matando dezenas de milhares de pessoas e deslocando à força quase toda a população.
Uma crise de fome tomou conta da Faixa de Gaza nas últimas semanas, com Israel a restringir severamente a entrada de ajuda humanitária e a proibir grupos humanitários internacionais de operarem no local, com as autoridades a relatar mortes diárias devido à fome.
O plano aprovado pelo gabinete de segurança prevê mais locais de distribuição de ajuda no enclave. Israel e os EUA aumentariam o número de locais de distribuição de ajuda operados pela controversa Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada pelos EUA e por Israel, dos atuais quatro para até 16, de acordo com uma autoridade israelita com conhecimento da proposta.
Mas nenhum desses novos locais seria instalado na Cidade de Gaza, numa ação aparentemente planeada para forçar centenas de milhares de pessoas que vivem lá a deixarem o local, privando-as do acesso a alimentos.
O comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertou na sexta-feira que a tomada da Cidade de Gaza "resultará em mais deslocamentos forçados em massa, mais mortes, mais sofrimento insuportável, destruição sem sentido e crimes atrozes".
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também disse estar "gravemente alarmado" com a decisão do governo israelita, que, segundo ele, marcará uma "escalada perigosa" do conflito.
O Hamas condenou o plano de Israel de tomar a Cidade de Gaza como um "crime de guerra completo" que terá um "alto custo".
Onde fica Gaza no longo prazo sob este plano?
As declarações do gabinete de Netanyahu evitaram referências à ocupação de Gaza, que, segundo o Direito Internacional, obrigaria Israel a fornecer serviços básicos para garantir o bem-estar da população.
Ainda assim, o plano prevê que Israel eventualmente assuma o "controlo da segurança" total sobre Gaza. Os militares afirmam que já controlam 75% do território, ou seja, a tomada da Cidade de Gaza deixaria Israel mais próximo da ocupação total.
Israel retirou colonos e milhares de tropas de Gaza em 2005 e o Hamas assumiu o poder logo depois.
Além de descartar qualquer papel do Hamas, Netanyahu deu poucas pistas sobre os seus planos de longo prazo para Gaza, pelo que não está claro se a expansão significa que Israel terá uma presença duradoura no território.
Israel pode tomar Gaza militarmente, mas isso terá custos para o país a longo prazo, disse um analista, alertando para as complicações de uma ocupação prolongada.
Mas Ofer Guterman, investigador sénior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, enfatizou que, de uma perspetiva puramente militar, a ocupação de todo o enclave era possível.
"Já fizemos isso antes. Estivemos em Gaza por décadas."
Ibrahim Dahman, Tim Lister, Kareem Khadder, Catherine Nicholls, Kevin Liptak, Helen Regan, Eyad Kourdi, Tamar Michaelis e Oren Liebermann, da CNN, contribuíram para este artigo