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"Cessar-fogos sem estrutura tendem a expirar com a mínima provocação". O que está e não está a ser cumprido por Israel e o Hamas - e o que virá a seguir

17 out 2025, 08:00
Donald Trump cimeira da paz Egito (Yoan Valat, Pool photo via AP)
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A trégua aceite pelos dois lados há uma semana sob pressão de Donald Trump continua a aguentar-se, mas não há garantias de que isso perdure nos próximos dias. "As hipóteses de o cessar-fogo se manter são moderadas: possíveis, mas ainda não prováveis", diz um analista à CNN. No imediato, é preciso que os EUA dêem "apoio explícito" ao Egito e ao Catar "para responder rapidamente as violações antes que se agravem". Só isso permitirá que "um longo processo técnico" tenha início com vista a implementar um verdadeiro acordo de paz

“Ouvir o presidente Trump dizer aos israelitas e aos árabes na segunda-feira que estão no ‘amanhecer histórico de um novo Médio Oriente’ foi como ver Trump vender aos seus banqueiros um plano para construir o maior, mais bonito e mais incrível hotel do mundo num depósito de resíduos tóxicos. Por um lado, pensamos: ‘este homem deve ser louco, não conhece a história deste lugar? Não se pode construir um hotel aqui!’ Por outro lado, uma voz na nossa cabeça sussurra: ‘e se ele conseguir?’”

Assim escreve Thomas L. Friedman, colunista de assuntos internacionais do The New York Times, num artigo de opinião intitulado “Sr. Trump, no que diz respeito ao Médio Oriente, por favor aja rapidamente e mude as coisas”, que mostra o que muitos dizem ser o desfasamento entre a retórica do presidente norte-americano e a realidade no terreno em Israel, na Faixa de Gaza e nos territórios palestinianos ocupados.

Uma semana depois de Israel e o Hamas terem cedido às pressões de Trump e acordado um cessar-fogo, os riscos de a trégua colapsar são maiores do que nunca. Ao longo da semana, Israel libertou cerca de 1.700 palestinianos vivos (sem incluir figuras proeminentes da sociedade palestiniana como Marwan Barghouti, político da Fatah considerado o ‘Mandela da Palestina’, e o médico pediatra Hussam Abu Safiya, que foi raptado pelas forças israelitas de um hospital de Gaza há quase dez meses) - e, até esta quinta-feira, tinha devolvido os corpos de 90 palestinianos mortos, vários com sinais de tortura e execução, segundo imagens obtidas pela BBC.

Por seu lado, o grupo que controla a Faixa de Gaza devolveu a Israel os derradeiros 20 israelitas mantidos em cativeiro com vida e os corpos de parte dos reféns mortos, levando Israel a exigir que entregasse os corpos ainda em falta sob pena de retomar as hostilidades. Os corpos, diz o grupo de militância, são impossíveis de localizar, por se encontrarem em zonas destruídas nos ataques israelitas. Face à pressão, Donald Trump disse na quinta-feira que já deu luz verde a Telavive para retomar a ofensiva armada em Gaza “se o Hamas não cumprir” o que foi estipulado.

“A declaração de Trump corre o risco de transformar o cessar-fogo numa ameaça condicional, em vez de um compromisso comum”, ressalta à CNN Portugal Houssein al-Malla, investigador do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA). “A única forma de estabilizá-lo é através de mediação contínua e progressos humanitários verificáveis. Os cessar-fogos são mantidos quando produzem resultados que as pessoas podem sentir, não apenas promessas que os líderes podem anunciar.”

foto AP

Ausência de mecanismos políticos

Por ora, adianta o especialista em processos de paz e segurança no Médio Oriente, “o cessar-fogo está a aguentar, mas continua a ser precário” - até porque há elevados riscos de “disputas sequenciais, conflitos localizados e pressão interna sobre ambas as lideranças para que se mostrem intransigentes”, adianta - no caso de Israel, “de fações políticas que veem a contenção como fraqueza”, em Gaza “por outros grupos que não o Hamas”, que “podem tentar minar a trégua para recuperar relevância”.

Parte disto parece já estar a acontecer. No seu discurso no Knesset na segunda-feira, quando anunciou que “a guerra em Gaza acabou”, Trump disse aos deputados israelitas que autorizou o Hamas a rearmar-se para policiar o enclave enquanto uma força internacional não é criada e destacada - o que tem resultado no que o especialista José Filipe Pinto classificava há poucos dias como “o dia das facas longas” em Gaza, já comprovado por imagens transmitidas pela CNN Internacional

Até ao fecho deste artigo, Israel ainda não tinha reaberto a passagem de Rafah, na fronteira de Gaza com o Egito, e só tinha autorizado a entrada de uma média diária de 300 camiões com ajuda humanitária urgente, cerca de metade do que foi acordado na semana passada - mantendo o bloqueio à retirada de civis feridos que precisam de assistência médica de emergência, bem como à entrada da maquinaria necessária para a remoção de escombros, para permitir o início das operações para recuperar os corpos dos mais de 10 mil palestinianos desaparecidos nos últimos dois anos, segundo cálculos da defesa civil de Gaza.

O risco de as violações ditarem o fim do processo de paz ainda antes de começar é mais elevado do que nunca. “O cessar-fogo só será mantido se ambos os lados acreditarem que a moderação atende melhor aos seus interesses do que a escalada do conflito– “o que requer coordenação diária no terreno, não mensagens políticas das capitais”, ressalta Houssein al-Malla. “O Egito e o Catar são agora os principais garantes, mas precisam do apoio explícito dos EUA para responder rapidamente às violações antes que elas se agravem.”

Isto decorre do que o analista considera ser a “ausência de um mecanismo político claro para dar continuidade à pausa militar”, uma “vulnerabilidade” sem solução à vista para já. “Cessar-fogos sem estrutura tendem a expirar com a mínima provocação. As hipóteses de este se manter são moderadas: possíveis, mas ainda não prováveis.”

Palco sem peça

A outra vulnerabilidade, já invocada por vários especialistas, é a linguagem vaga do acordo de paz de 20 pontos apresentado por Trump, farol da cimeira de paz do Egito no arranque da semana. Nela estiveram presentes os líderes e representantes de 27 países, entre nações ocidentais e árabes, bem como o secretário-geral da ONU, António Guterres, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit - com as notadas ausências de representantes israelitas e palestinianos, as duas grandes partes interessadas.

“A cimeira de Sharm el-Sheikh foi em grande parte simbólica, mas ajudou a esclarecer quem irá liderar o processo”, considera Al-Malla. Por outras palavras, o encontro ajudou a definir que Egito e Qatar ficam responsáveis por coordenar a implementação imediata dos próximos passos, os EUA responsáveis por supervisionar o planeamento da reconstrução e a ONU e a UE com papeis de apoio na “verificação humanitária” - embora, como destaca o analista, “nenhum mecanismo formal tenha sido anunciado”.

“O que emergiu foi um entendimento de que os atores regionais vão liderar politicamente, enquanto os doadores ocidentais vão garantir o financiamento. O verdadeiro teste começa quando os acordos de monitorização e acesso às fronteiras passarem dos discursos para a logística. A cimeira definiu o palco, mas ainda não a peça.” 

foto AP

O guião, esse, continua largamente por definir. Está a cargo de equipas técnicas de negociadores que têm a seu cargo deliberar quem será responsável por verificar que o acordo é implementado, quem governará Gaza durante a transição e como é que o desarmamento e a segurança serão implementados, nomeadamente por via de uma força internacional com tropas de países árabes e possivelmente ocidentais.

Espanha já disse que não descarta o envio de tropas como parte dessa força internacional, no que Houssein al-Malla vê como uma “oferta significativa que demonstra a disponibilidade europeia de passar da retórica à responsabilidade”, para colmatar uma lacuna que “nem Israel nem o Hamas” podem preencher “de forma credível sozinhos”. A questão é que também essa missão precisa de um “mandato claro da ONU, regras de combate rigorosas e mecanismos de responsabilização legal”.

Enquanto os palestinianos de Gaza e o resto do mundo esperam para ver se a trégua se aguenta, o especialista sediado em Hamburgo antecipa que “o que virá a seguir não será um grande avanço diplomático, mas um longo processo técnico” com base em “detalhes procedimentais” que podem parecer menores mas que “vão determinar se o plano sobrevive”. E o maior dos desafios continua a ser político.

“A proposta [de paz de Trump] permanece deliberadamente vaga, deixando muito espaço para interpretações divergentes”, considera Al-Malla. “Sem acordo sobre a sequência e a aplicação [das medidas], o plano corre o risco de se tornar um documento de intenções em vez de um roteiro. A próxima fase será avaliada em procedimentos, não em promessas.”

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