O cessar-fogo foi quebrado. Nota: Issam Da’alis, oficial do Hamas, já tinha sido dado como morto em 2024
Israel decidiu unilateralmente pôr fim, na madrugada desta terça-feira, ao cessar-fogo em vigor na Faixa de Gaza. Lançou uma série de ataques-surpresa que o ministro israelita da Defesa, Israel Katz, disse corresponder à abertura das “portas do inferno” após o Hamas se ter recusado a libertar mais reféns.
Os ataques a várias zonas do enclave terão provocado pelo menos 660 feridos e 404 mortos, incluindo pelo menos cinco membros seniores do grupo palestiniano, entre os quais Mahmoud Abu Watfa, diretor-geral do Ministério do Interior do Hamas e responsável pela força policial do grupo, que em janeiro passado tinha surgido num vídeo a prometer reconstruir Gaza e o poderio do Hamas.
Citadas pela AFP, duas fontes do Hamas, uma delas funcionário do Ministério do Interior, disseram que Watfa foi morto num ataque à Cidade de Gaza. Além de Watfa, adiantaram as mesmas fontes, terão sido mortos dois membros do gabinete político do Hamas, Issam Da’alis e Mohammad Al-Jmasi, a par do comandante de segurança interna e do diretor-geral do Ministério da Justiça.
Issam Da’alis, chefe do gabinete político do Hamas em Gaza e chefe do comité de monitorização da atividade governamental, uma posição semelhante à de primeiro-ministro do Hamas, já tinha sido dado como morto em julho de 2024, com notícias a circular na altura sobre ter sido vitimado num outro ataque aéreo das forças de Israel.
Nunca houve uma confirmação oficial da sua morte por nenhum dos lados envolvidos no conflito, embora fontes do Hamas tenham adiantado ao site Asharq al-Awsat em janeiro deste ano que Da’alis estava morto, destaca o Times of Israel.
"Inaceitável"
Os media israelitas indicam que os cinco oficiais que terão sido mortos nos bombardeamentos estavam a desempenhar papeis importantes na reconstrução do Hamas desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em meados de janeiro. Segundo fontes no terreno, a maioria das vítimas dos ataques são crianças e mulheres, num total de pelo menos 404, segundo o último balanço das autoridades de Saúde de Gaza.
Citados pelos media locais, oficiais de Israel argumentam que a campanha de ataques aéreos foi retomada ao final de dois meses de trégua, dado o aumento dos esforços do Hamas para atacar as tropas israelitas em Gaza e comunidades ao longo da fronteira. Todas as informações carecem ainda de confirmação oficial.
Um líder do Hamas revelou entretanto que o movimento está "a trabalhar com mediadores internacionais" para "conter a agressão de Israel", após a vaga de intensos ataques do exército israelita ao longo da madrugada.
O Hamas "aceitou o acordo de cessar-fogo e implementou-o integralmente, mas a ocupação israelita renegou os seus compromissos (...) ao retomar [esta noite] a agressão e a guerra", disse o responsável à agência France-Presse, sublinhando que o movimento, até agora, não respondeu aos ataques.
O coordenador humanitário da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos (UNRWA), Muhannad Hadi, já veio classificar os renovados ataques israelitas à Faixa de Gaza como "inaceitáveis", apelando à restauração imediata do cessar-fogo.
"Isto é inaceitável, o cessar-fogo deve ser restabelecido imediatamente", disse Hadi em comunicado, adiantando que centenas de pessoas foram mortas. "O povo de Gaza está a passar por um sofrimento inimaginável. O fim das hostilidades, a assistência humanitária sustentada, a libertação de reféns e a restauração dos serviços básicos e dos meios de subsistência da população são o único caminho a seguir."
"Ou tudo ou o inferno"
O Fórum das Famílias dos Reféns e Desaparecidos, que reúne os familiares da maioria dos prisioneiros na Faixa de Gaza, condenou os bombardeamentos israelitas desta noite no enclave e acusou o Governo israelita de abandonar os reféns.
Os membros da organização, que se manifesta semanalmente para exigir o fim da guerra e garantir o retorno dos reféns, disseram estar "totalmente dececionados" com o ataque que ocorreu durante a noite, exigindo ao governo de Benjamin Netanyahu que retome o cessar-fogo.
"Porque é que não lutam na sala de negociações? Porque é que abandonam o acordo que podia ter trazido toda a gente para casa?”, lamentam os familiares dos reféns. No mesmo comunicado publicado hoje de manhã no jornal Haaretz, de Jerusalém, o fórum acusa o Governo israelita de abandonar os reféns.
Neste momento, permanecem 59 cativos na Faixa de Gaza, a maioria raptada no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, em que 1.200 pessoas foram mortas e 251 feitas reféns.
"O regresso aos combates antes da libertação do último refém será feito à custa dos 59 prisioneiros que permanecem em Gaza e que podiam ser salvos", continua o comunicado. Crê-se que 24 deles estejam ainda vivos, adianta o Guardian.
Já o fórum de direita Tikva, um outro grupo que reúne as famílias de alguns dos reféns, apoiou os bombardeamentos.
"Ou tudo ou o inferno", disse em comunicado. "As últimas semanas provaram o que temos vindo a dizer: o Hamas não vai devolver os reféns. Só a pressão militar, o bloqueio total, incluindo o corte da eletricidade e da água, e a ocupação dos territórios vão levar o Hamas ao colapso."
A segunda fase do cessar-fogo em Gaza deveria ter começado a 2 de março, mas Israel e o Hamas nunca chegaram a acordo sobre os termos.
Esta fase implicava o fim duradouro das hostilidades, a retirada das tropas israelitas do enclave e o regresso dos restantes reféns.
Israel exigiu um prolongamento da primeira fase insistindo na manutenção das tropas em Gaza e na libertação dos reféns. O Hamas rejeitou a posição, exigindo o cumprimento do plano originalmente acordado.
