António Manuel Fonseca dirige a FADEUP há quase dez anos e é o principal visado da denúncia
O Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Porto abriu um inquérito ao diretor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP). Em causa estão suspeitas de favorecimento familiar e uso indevido de verbas da instituição. O diretor nega todas as acusações.
António Manuel Fonseca dirige a FADEUP há quase dez anos e é o principal visado da denúncia anónima que deu origem ao processo.
Grande parte do documento refere trabalhos prestados à faculdade por dois irmãos do diretor: um é responsável pelo design e paginação da Revista Portuguesa de Ciências do Desporto desde 2010 — o mesmo ano em que António Manuel Fonseca assumiu funções de editor‑chefe. O outro irmão assinou três obras de arte instaladas no exterior da faculdade.
Antigos e atuais funcionários ouvidos pelo Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) descrevem dúvidas dentro da instituição. “Marco” afirma que “circulam há bastante tempo comentários persistentes relativos a alegadas situações de favorecimento envolvendo o atual diretor e membros da sua família”. “Teresa” confirma que este tema “é comentado recorrentemente e até alvo de piadas várias”.
Rui Mendonça, um dos irmãos, já recebeu 190.900 euros em trabalhos relacionados com a revista, segundo contratos publicados no Portal Base, a plataforma pública onde são registados os contratos do Estado. Os contratos foram assinados por vários responsáveis da faculdade – nunca pelo diretor. Em resposta ao Exclusivo, António Manuel Fonseca sublinha que delegou a gestão da revista num subdiretor, afirmando que foram “sempre integralmente cumpridas todas as determinações legais exigidas” e que nenhuma dessas decisões foi da sua competência.
Para o advogado especialista em Direito Administrativo, Paulo Veiga e Moura, se o diretor não teve intervenção direta, não existe ilegalidade. Ainda assim, alerta que “ficará sempre uma suspeita sobre a real razão daquela adjudicação”.
O outro irmão, Luís Mendonça — conhecido como Gémeo Luís — é autor de três peças expostas na FADEUP, incluindo a escultura “Ethos”, adquirida por ajuste direto por 22.500 euros. A Reitoria da Universidade do Porto esclarece que processo foi analisado internamente na vigência da anterior equipa reitoral e que “não foram identificadas quaisquer irregularidades”.
Luís Mendonça assinou ainda as obras “Rebanho” e “A Pegada”. Esta última estava prevista para ser inaugurada em fevereiro durante uma homenagem a Rosa Mota, mas a cerimónia foi adiada por decisão da campeã olímpica por causa do comboio de tempestades que assolou Portugal. Nenhum destes contratos está no Portal Base, pelo menos através da empresa do irmão do diretor.
O diretor garante que o irmão não recebeu qualquer verba, embora admita que a faculdade suportou os custos necessários à execução e instalação das peças. Para Veiga e Moura, mesmo sem pagamentos diretos, deveria ter sido aberto um procedimento que permitisse a outros artistas concorrer.
Entre as acusações estão também compras alegadamente feitas pelo diretor e reembolsadas pela faculdade.
O Exclusivo teve acesso às faturas que confirmam os testemunhos. “João" relata que “as pessoas sabem das despesas que são feitas e que nada têm a ver com a faculdade, principalmente despesas pessoais do diretor”.
Aponta ainda para compras de garrafas de vinho, peças Vista Alegre e equipamento fotográfico e compras feitas na véspera de Natal e do Ano Novo: “Como é que justifica comprar nos últimos dias do ano uma máquina fotográfica de 4.000 euros mais um flash de 750 euros, mais óticas, etc. Na faculdade só havia uma máquina que custou 200 euros. Onde está esse equipamento?”.
O diretor refuta todas as acusações e garante que a instituição “não alimenta especulações”, afirmando que as despesas estavam previstas como representação institucional para oferecer a convidados e que não ultrapassaram os limites definidos.
Questionada pelo Exclusivo, a Reitoria diz não ter conhecimento de grande parte das alegações e enviou toda a informação para a Unidade de Auditoria Interna, que vai avaliar se deve ser aberto um processo de inquérito.
A investigação do DIAP continua sob segredo de justiça externo, sem arguidos e sem determinação de buscas. À medida que o processo avança, a FADEUP prepara‑se para eleger um novo diretor, já que António Manuel Fonseca termina o mandato esta quinta-feira.
