Os candidatos excluídos do concurso especial de acesso ao mestrado integrado em medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto gravaram em exclusivo para a TVI e a CNN Portugal
Depois de terem assistido à polémica pela televisão, só foram formalmente informados que foram excluídos do concurso a 25 de julho, um mês e cinco dias depois de terem recebido no e-mail a lista definitiva que os dava como colocados no concurso.
Após terem recebido a lista definitiva, começaram a tomar decisões de vida: mudaram de casa, de cidade, optaram por desistir de vagas noutras universidades. O concurso especial de acesso deste ano virou um pesadelo para os 30 candidatos. Admitem ser os grandes lesados deste processo e sentem-se esquecidos e enganados pelas instituições.
O Exclusivo da TVI / CNN Portugal gravou com quatro dos 30 candidatos do concurso especial de acesso. Escondem o rosto por vergonha, criaram nomes fictícios mas todos os pormenores são verídicos.
"Júlia", nome fictício, licenciou-se em Farmácia mas o sonho de Medicina nunca ficou esquecido. Este ano candidatou-se ao concurso destinado a licenciados, com o objetivo de almejar o sonho antigo. Mas um mês e cinco dias depois, o sonho virou pesadelo. Estava a assistir a toda a polémica na televisão quando toma a iniciativa de ligar para a Universidade e é confrontada com o pior: "Olhe, lamento informar mas a sua candidatura foi excluída".
"Júlia" não queria acreditar. Assim que soube que ficou colocada na lista definitiva vendeu a casa em Vila Real e entregou a carta de despedimento na farmácia onde trabalhava. "Eu fiquei em choque, já tinha vendido a casa, na farmácia os meus patrões sabiam que eu ia sair. De repente fiquei em chão."
"Francisca" é licenciada em Medicina Veterinária. Este ano concorreu a duas universidades através do concurso especial de acesso. Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e em Lisboa. Como é natural da zona norte do país, abdicou da vaga na capital. Mas a 25 de julho percebeu que acabara de perder as duas oportunidades para seguir Medicina. "Eu não perdi a confiança nas instituições. Como é que uma universidade me coloca na lista definitiva e depois diz-me que afinal estou excluída?"
"Sofia", nome fictício, faz parte da lista de licenciados da área da saúde que integraram este concurso. Ficou com a vida em suspenso após ter perdido a oportunidade de ingressar em Medicina numa outra universidade. Admite que este processo trouxe a todos os candidatos danos emocionais irreparáveis e sentiu-se no meio de uma guerra política. "Ficar a ver na televisão o senhor reitor dizer que somos pessoas influentes foi um ultraje. Nós, pessoas influentes? Somos pessoas normais, de famílias normais. Foi vergonhoso o que fizeram connosco."
Candidatos excluídos querem responsabilizar o reitor da Universidade do Porto
O advogado especialista em direito público Paulo Veiga Moura aceitou representar 27 dos candidatos excluídos do concurso.
O fiscalista tem dúvidas em relação à clareza do regulamento do concurso e não entende o motivo pelo qual o reitor da Universidade do Porto tomou uma decisão diferente da de 2019.
" O reitor era o mesmo, o regulamento era o mesmo. Por que motivo agora decidiu pela não homologação final da lista?", questiona Paulo Veiga Moura.
À TVI e CNN Portugal, o reitor da Universidade do Porto explicou, em comunicado, que tomou a decisão por dois motivos: em 2019, a Faculdade de Medicina do Porto solicitou autorização ao reitor para redução da nota de 14 para 10 na prova de conhecimentos; essas vagas de 2019, caso não fossem usadas neste concurso, eram perdidas.
Segundo o reitor da Universidade do Porto, a lista definitiva chegou à reitoria assinada e com a decisão da aplicação do cut off, sem que os serviços jurídicos da reitoria fossem previamente informados.
O diretor da Faculdade de Medicina do Porto afirma que o reitor tomou esta medida para o atingir pessoalmente, já que é candidato à reitoria, e ao próprio ministro da Educação.
A reação do ministro da Educação
Contactado pela TVI e CNN Portugal, o ministro da Educação não comenta a decisão dos candidatos excluídos de avançarem para tribunal. "Este processo é da responsabilidade da Universidade do Porto", responde Fernando Alexandre.
O ministro da Educação acusou o atual reitor de mentir mas, em resposta à TVI e CNN Portugal, refere que as relações institucionais mantêm-se como anteriormente.
O ministro da Educação recorda que solicitou à IGEC a abertura de 30 vagas suplementares para reintegrar estes candidatos, mas o parecer veio negativo por inadmissibilidade jurídica.