Ezra Klein propõe transformar a paralisação numa crise impossível de ignorar: resistir à intimidação de Donald Trump e mobilizar a base Democrata. Porque se a esta hora do campeonato os Democratas ainda não tiverem um plano, o Partido precisa de novos líderes
Washington parou. Mas não foi por acidente. A paralisação do Governo federal revela uma conceção do poder que Donald Trump nunca escondeu: o recurso ao medo como instrumento, o caos como política, a administração de um país reduzida ao seu capricho – como se tem visto nos últimos meses, com milhares de funcionários públicos afastados, programas essenciais ameaçados, relatórios económicos adiados e cortes permanentes. O espetáculo do poder substitui o funcionamento natural do Estado. O marasmo da máquina pública transforma-se no palco de uma narrativa reconhecidamente iliberal.
Os “shutdowns” não são inéditos, mas com Trump adquirem uma dimensão qualitativamente diferente. Desde meados da década de 1970 registaram-se cerca de vinte paralisações, geralmente motivadas por disputas orçamentais pontuais. Ronald Reagan enfrentou oito, Bill Clinton duas mais prolongadas, e Barack Obama uma de dezasseis dias, liderada pelo Tea Party e apontada ao Obamacare. Nenhuma, porém, se compara aos trinta e cinco dias de Trump no seu anterior mandato, convertendo a paralisação numa arma política, num prolongamento das guerras culturais, dos conflitos migratórios e das batalhas em torno dos seguros de saúde.
A paralisação anunciada centra-se na discussão do Obamacare, Medicaid ou autoridade orçamental do presidente, mas o seu impacto irá muito mais além: interrupção de publicações oficiais, atrasos em programas de apoio social, limitação de atividades de fiscalização financeira. A confiança dos mercados enfraquece e a volatilidade do dólar e da dívida pública acelera. Mas os efeitos transcendem a economia: serviços vitais como controlos fronteiriços, controlo aéreo e cibersegurança funcionam com limitações, expondo os Estados Unidos a ameaças externas e internas. Nada disto parece preocupar o Presidente. O que lhe tira o sono é transformar o Estado numa extensão da sua vontade – as represálias contra os Estados Democratas já começaram.
Os custos políticos também não são displicentes. Pior do que impasses anteriores, esta paralisação reflete dolorosamente uma incapacidade de construir consensos mínimos num contexto de polarização absoluta, após o assassinato de Charlie Kirk e a homenagem multitudinária do universo MAGA que se lhe seguiu. Juntamente com a partidarização do Supremo Tribunal e o redesenho de distritos eleitorais, antecipando uma derrota dos Republicanos nas eleições intercalares de 2026, trata-se de um ataque direto aos pesos e contrapesos idealizados pelos Pais Fundadores. Estamos perante um objetivo que vai muito além de um curto-circuito orçamental: redesenhar o Estado, redefinir os limites da autoridade presidencial e tornar-se num líder sem qualquer tipo de limite, seja ele legislativo ou judicial.
Convém recordar que Trump venceu com 49,8% do voto popular contra 48,3% de Kamala Harris. Não se pode, portanto, falar de uma vitória esmagadora ou histórica. Nenhum mandato concede carta branca para subverter a Constituição e reduzir o Congresso a mero espectador. Pior ainda, a sua baixa taxa de aprovação expõe a volubilidade da sua base, reforçando a necessidade de alimentar continuamente ciclos noticiosos e transformar a governação numa guerra de palavras constante. Promessas de despedimentos em massa, eliminação de programas sociais e o desmantelamento do sistema de vacinação tornam-se instrumentos de propaganda e conspiração facilmente acionáveis e altamente inflamáveis.
Face a tudo isto, os Democratas continuam à deriva. Procuraram, durante algum tempo, responder com prudência, centrando a disputa em questões como a saúde e tentando proteger programas sociais, em vez de confrontar diretamente o autoritarismo presidencial. Mas a prudência tem limites, até para Chuck Schumer, líder Democrata no Senado, que acabou apenas por adiar o inevitável. Enfrentar um autocrata em potência exige princípios, visão estratégica, mobilização da opinião pública e coragem. Negociar sem perder valores, proteger os cidadãos sem sacrificar a governabilidade – este deveria ser o objetivo, talvez demasiado exigente para os atuais líderes Democratas, de Gavin Newsom a Gretchen Whitmer.
Ainda assim, tanto deste como do outro lado do Atlântico, haverá quem culpe apenas os Democratas pela paralisação. Serão os mesmos que há meses não sabiam em quem votar e que hoje idolatram o Presidente à luz do dia, sem vergonha alguma. Que invocarão o “Trump Derangement Syndrome”, sugerindo que a irracionalidade é Democrata, não do movimento MAGA ou do seu líder, o mesmo que já propôs converter cidades dos Estados Unidos em campos de treino militares. Infelizmente para todos eles, a realidade é a que é: a oposição a Trump fundamenta-se no sentido comum – perseguições de migrantes que ultrapassam o mínimo da decência, uma política energética que ignora as alterações climáticas, um protecionismo do século XIX, perseguições judiciais e a incapacidade de manter o Governo a funcionar, apesar de pretender governar outras regiões do globo. Ignorar isto é que será o verdadeiro “síndrome” que precisará de ser diagnosticado e medicado. Resistir pelos mecanismos legislativos, judiciais e sociais legítimos é um dever cívico e um princípio democrático – ou pelo menos, costumava ser.
Ezra Klein propõe transformar a paralisação numa crise impossível de ignorar: resistir à intimidação de Trump, mobilizar a base Democrata e impedir que o Estado se torne cúmplice do poder autoritário. Há riscos, obviamente, mas o objetivo não é apenas travar o Presidente: é expor a perigosidade do seu mandato. Aceite-se ou não, estamos perante mais uma tentativa de subverter o papel do Congresso e submeter quem recusa que a República sirva apenas um homem e a sua agenda. Se os Democratas cederem, não estará em risco somente o bem-estar imediato de alguns americanos, mas o futuro de todos eles. Tal como afirma Klein, se a esta hora do campeonato os Democratas ainda não tiverem um plano, o Partido precisa de novos líderes.