ENTREVISTA || Quase uma década depois de ter publicado "uma leitura crítica" do Mein Kampf de Adolf Hitler, o historiador alemão Albrecht Koschorke concorda que a "bíblia do movimento nazi" se esvaziou de poder. "A extrema-direita atual avançou", diz em entrevista à CNN Portugal. "É alimentada por uma geração mais jovem de pensadores ideológicos, com influências diferentes e ferramentas de mobilização mais contemporâneas – e mais potentes"
A conversa com Albrecht Koschorke aconteceu a dois tempos, entre Lisboa e Constância, a cidade da Alemanha onde o historiador literário dá aulas desde 2001, tendo como ponto de partida uma outra feita aquando da entrada do livro de Hitler em domínio público, em 2016 – uma obra que acaba de completar um centenário.
Desde a última conversa, assume Koschorke, "as coisas pioraram significativamente, até mesmo para lá das previsões mais pessimistas e do que muitos conseguiam imaginar". E com os media ainda a "insistir que Trump acabará por falhar", destaca que "não voltaremos à velha ordem mundial" mesmo que essa previsão se concretize, até porque "a narrativa liberal perdeu a sua coerência e força organizadora".
"Para aqueles que ainda estão a tentar compreender as palavras" de líderes como Donald Trump "agarrados ao discurso racional, o jogo já está perdido", diz o historiador. O que é preciso para combater a atual crise, defende, é "despolarizar as sociedades, olhar para as forças motrizes e não para os efeitos" dos discursos e narrativas que fogem aos factos.
"Vivemos com base em impérios nostálgicos, em que cada um tenta reconquistar territórios e reanimar um passado que não existiu, que é imaginado", quando, neste momento, "a única coisa real é a crise ecológica, que precisa de cooperação a todos os níveis – e foi, aliás, para enfrentar desafios assim que a UE foi inventada".
Há um mês assinalaram-se os 100 anos da publicação do primeiro volume de Mein Kampf, de Adolf Hitler. A nossa primeira entrevista, em 2016, teve esse livro como ponto de partida, por ter entrado em domínio público e pela análise crítica que publicou a propósito disso. Na altura havia receios quanto à reedição de Mein Kampf, mas hoje muitos defendem que já não representa um perigo, porque perdeu o seu apelo como instrumento de mobilização política. Concorda?
Sim. O Mein Kampf chegou a ser considerado a Bíblia do movimento nazi, mas mesmo durante o Terceiro Reich, o seu impacto real foi limitado – os textos ‘sagrados’ em geral tendem a captar leitores pouco observadores. Em décadas anteriores, a promoção do livro poderia ter tido um poder provocatório ou simbólico, mas a extrema-direita atual avançou. É alimentada por uma geração mais jovem de pensadores ideológicos, com influências diferentes e ferramentas de mobilização mais contemporâneas – e mais potentes.
A editora portuguesa que decidiu publicar Mein Kampf convidou um famoso historiador para prefaciar o livro e, numa entrevista recente, ele argumenta que o debate em torno dos limites da liberdade de expressão se afastou dos livros, porque as ideias polémicas e problemáticas e o discurso de ódio já não são difundidos na esfera literária. Qual é a sua opinião sobre isto?
Concordo com essa análise. Muitos ditadores do século XX sentiram-se compelidos a investir em livros – a forma de capital cultural que então dominava. Hitler tinha o Mein Kampf, Mao tinha o Pequeno Livro Vermelho, Kadhafi o Livro Verde... Estes textos destinavam-se a dar credibilidade intelectual aos seus regimes, mesmo que os verdadeiros instrumentos de propaganda fossem mais modernos, como a rádio, o cinema e os espetáculos.
Hoje, embora os políticos ainda escrevam livros, trata-se normalmente de um gesto retrospetivo – algo que marca o fim de uma carreira. O verdadeiro campo de batalha pela atenção e influência é outro. A televisão e os meios de comunicação tradicionais continuam a ser importantes, mas é cada vez mais no ecossistema fragmentado e acelerado da internet que se desenrola a verdadeira batalha pela atenção e influência – não na biblioteca.
As narrativas sempre foram poderosas, para o bem como para o mal, mas o seu poder parece ser particularmente prevalecente nos dias de hoje, de formas que têm impacto direto nas esferas política e social, alimentando esta espécie de sociedade tribalista que habitamos. Como é que se lida com narrativas infactuais, como é que se combatem?
Sempre que há uma revolução nos media, o equilíbrio do poder social e cultural altera-se. Foi o que aconteceu com a invenção da imprensa, que permitiu a Reforma Protestante, com o aparecimento dos jornais durante as vagas revolucionárias dos séculos XVIII e XIX, e com a introdução de meios de comunicação de massas centralizados, como a rádio, o cinema e a televisão no século XX.
O que há de bom nestas revoluções é o facto de darem voz a grupos anteriormente excluídos, aliviando o controlo dos guardiões tradicionais. É esse o efeito democratizante. O lado negativo é que o ‘demos’ também inclui a plebe – juntamente com todas as suas emoções, ressentimentos e instintos crus. Isto abre a porta a que empresários da indignação manipulem o discurso público.
O etos pós-II Guerra Mundial foi construído em torno da promessa de “nunca mais”: nunca mais a guerra, o nacionalismo, o fascismo, o racismo – nunca mais as atrocidades que provocaram. E, no entanto, aqui estamos nós, a enfrentar o seu ressurgimento. Infelizmente, a humanidade dá poucas provas de ser uma espécie que aprende verdadeiramente com a História"
Há sempre uma interação entre as instituições e as narrativas culturais. Quando as instituições são fortes, podem funcionar em piloto automático, seguindo rituais e rotinas sem grande reforço ideológico. Mas quando são postas em causa ou enfraquecidas, as narrativas surgem para preencher o vazio – muitas vezes derrubando verdades partilhadas e, em casos extremos, impondo ‘factos alternativos’. A História sugere que os períodos de caos e desregulamentação são normalmente seguidos pelo aparecimento de novas instituições, novas elites e um consenso público renovado. A questão em aberto é: quanto caos vamos ainda viver?
Pegando nessa questão, e olhando para a nossa primeira conversa, é difícil ignorar todas as previsões e exercícios de futurologia acertados sobre o que a Europa e os Estados Unidos viriam a enfrentar – política identitária a assumir o controlo; a verdade e os factos com pouca ou nenhuma importância para líderes como Donald Trump e os seus seguidores; o peso eleitoral da imigração até mesmo em locais com taxas muito reduzidas de migrantes; a erosão da confiança nas instituições, no discurso público e na representação política… Como é que diria que a situação evoluiu na última década?
A resposta instintiva é que as coisas pioraram significativamente, até mesmo para lá das previsões mais pessimistas e do que muitos conseguiam imaginar há apenas alguns anos. A reconfortante crença liberal de que estamos apenas diante de uma crise temporária já não se sustenta. Tal como entre 2016 e 2020, os principais media – jornais sérios, CNN, etc – continuam a insistir que Trump acabará por falhar. Isso pode ser verdade, mas mesmo que falhe, não voltaremos simplesmente à velha ordem mundial.
Acabei de terminar um livro sobre as raízes culturais do liberalismo. Se abordarmos o liberalismo como uma narrativa – que é o que eu faço como historiador literário – então o seu motivo central é o “progresso”. Tudo o que não se alinha com esta trajetória é descartado como “retrocesso”. Este enquadramento tem-se revelado extremamente duradouro, especialmente na Europa, outrora vista como a vanguarda do liberalismo.
Pensemos em todas as “reações adversas” que a Europa sofreu: guerras mundiais, regimes totalitários e muito mais. Mesmo assim, os liberais assumiram sempre que o futuro estava do seu lado. Mas, atualmente, o futuro já não se cumpre, não cumpre as suas promessas. E o resultado é que a narrativa liberal perdeu a sua coerência e força organizadora. É certo que as coisas podem melhorar aqui e ali – mas o enredo geral está desfeito. E isto cria não só ansiedade política e social, mas também uma desorientação mais profunda, quase metafísica.
Há uma coisa em particular que salta à vista ao reler a nossa entrevista – há quase uma década, dizia que “parece que estamos dispostos a abandonar conquistas importantes do pós-II Guerra Mundial e, nesta dinâmica coletiva, podemos acabar num lugar onde a maioria de nós nunca quis estar". Já estamos nesse lugar ou ainda estamos a caminhar para lá?
O etos pós-II Guerra Mundial foi construído em torno da promessa de “nunca mais”: nunca mais a guerra, o nacionalismo, o fascismo, o racismo – nunca mais as atrocidades que provocaram. E, no entanto, aqui estamos nós, a enfrentar o seu ressurgimento. Infelizmente, a humanidade dá poucas provas de ser uma espécie que aprende verdadeiramente com a História.
Dito isto, o período do pós-guerra trouxe, de facto, conquistas notáveis – sendo a principal delas a União Europeia (UE). Os críticos consideram-na fraca, fragmentada e até “pouco masculina”, demasiado dependente do hard power americano e sem uma influência global unificada. Mas isso é apenas parcialmente verdade. E talvez seja até desejável que assim seja – especialmente se considerarmos o passado da Europa, quando era “forte” e “viril” durante o domínio colonial.
Embora a UE possa ter começado por ser uma ficção política, está agora a tornar-se parte integrante da forma como as pessoas vivem e sentem. Será este sentimento de pertença suficientemente forte para contrariar as tendências centrífugas? Isso ainda está por descobrir"
Apesar dos seus defeitos, o modo de vida europeu – com liberdade, democracia, civismo, espaço público partilhado – continua a ser a aspiração de muitas pessoas em todo o mundo. Enquanto ator global com mais soft power do que força militar, a dedicação da Europa a uma ordem internacional baseada em regras, na cooperação e na responsabilidade ambiental tornou-se mais importante do que nunca – mesmo que a prática fique frequentemente aquém dos ideais.
Gostaria de revisitar esta sua outra ideia de que as pessoas abraçam uma ideologia “não por causa do que ela diz, mas pelo que oferece” – como é que isso se relaciona com o atual ambiente sociopolítico em lugares como os EUA ou a Alemanha?
Talvez eu deva rever esta afirmação anterior. No caso de ideologias rígidas e extremistas, a distinção entre o que é dito e o que é oferecido cai frequentemente por terra. A linguagem torna-se ação. Palavras, ofertas e frases fundem-se. É por isso que as figuras carismáticas e autoritárias – os chamados tipos de Führer – são tão importantes. O que eles dizem não é apenas discurso; é uma tomada de decisão com impacto imediato no mundo real.
A questão não é se as palavras do líder são significativas no sentido tradicional – elas são poderosas porque são decisivas. Para aqueles que ainda estão a tentar compreendê-las agarrados ao discurso racional, o jogo já está perdido. Mas para os seguidores, esta autoridade verbal ‘mágica’ é estimulante. Cria uma sensação de poder. Se as palavras do líder são absolutamente importantes, então os seguidores, os seus desejos e expressões, também se sentem fortalecidos.
Este mecanismo não se limita às ditaduras, também se aplica a figuras com tendências autocráticas – veja-se o caso de Trump, por exemplo. Porque é que ele domina tão completamente a atenção pública? Ele prospera ao governar por decreto executivo, transformando até algo como anúncios de tarifas em atos performativos de vontade soberana, o que faz com que aqueles que valorizam a compreensão mútua e o diálogo racional se sintam impotentes.
Na Alemanha, um exemplo recente e notável é um vídeo sobre “remigração” produzido por jovens membros da Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema-direita), que mostra a deportação em massa de migrantes não como algo violento ou trágico, mas como uma espécie de acontecimento alegre – soalheiro, otimista, cheio de jovens alemães louros e sorridentes. A mensagem é: "Isto é divertido. Vamos recuperar o nosso país e as nossas raparigas. Juntem-se a nós e também receberão um beijo de uma rapariga loira." Não se trata de botas e tacos de basebol; trata-se de sexo, celebração e poder, apresentados como um estilo de vida.
Há um ano afirmou num artigo que, “se tudo correr bem”, uma Europa que “começou como uma ficção política e [que] está gradualmente a encontrar o seu caminho na vida quotidiana dos europeus” permanecerá unida. Mas e se não correr bem?
Enquanto historiador literário, defendo que vivemos dentro de ficções – não apenas em livros ou filmes, mas também nas nossas instituições e sistemas políticos. Elas existem porque concordamos que existem e perduram porque as defendemos coletivamente através da crença e da participação. Isto é semelhante ao que o poeta romântico Samuel Taylor Coleridge chamou a “suspensão voluntária da descrença”.
Vejamos o caso do Estado-nação: não há nada de inerentemente natural e necessário nele. A maioria surgiu de acidentes históricos – mudanças dinásticas, conquistas e guerras. E, no entanto, ao longo do tempo, reinventaram-se como “comunidades imaginadas”. A mesma lógica aplica-se a entidades supranacionais como a UE, embora possa ser mais difícil para elas ganharem aceitação popular devido à já longa pré-formação nacionalista da maioria das pessoas, às barreiras entre múltiplos vernáculos, etc.
Ainda assim, a identidade é estratificada – todos nós pertencemos a múltiplos “grupos-nós”, de diferentes escalas e naturezas. Os inquéritos mostram que a identificação com a ‘Europa’ está a aumentar em vastos segmentos da população. Assim, embora a UE possa ter começado por ser uma ficção política, está agora a tornar-se parte integrante da forma como as pessoas vivem e sentem. Será este sentimento de pertença suficientemente forte para contrariar as tendências centrífugas? Isso ainda está por descobrir.
Nesse mesmo artigo coloca uma questão que gostava de lhe devolver, no contexto da crise interna e também geopolítica que a UE atravessa: “A Europa é realmente um ‘sujeito’ se não consegue produzir uma narrativa unificada e coerente sobre si própria?”
A Europa é, pela sua própria natureza, um conceito pouco claro. As suas fronteiras, sobretudo no Leste, são ambíguas. Geograficamente, nem sequer é um verdadeiro continente, mas sim uma parte da massa terrestre eurasiática, dividida por uma linha artificial e instável. O conceito de ‘Europa’ é diferente consoante o local onde nos encontramos, tanto dentro quanto fora dela. Além disso, a pertença à Europa compete com fortes identidades nacionais e pós-imperiais – basta olhar para o Reino Unido. Uma narrativa unificada teria inevitavelmente efeitos de exclusão. Assim, paradoxalmente, a coerência da Europa pode depender da sua imprecisão, da sua capacidade de permanecer em aberto. Isto tem a ver com o facto de, historicamente, a Europa ser um caso excecional de integração política conseguida sem guerra.
As pessoas ficaram um pouco exaustas com as exigências da crise ecológica, porque essas exigências obrigam-nas a encarar as complexidades do mundo, a necessidade de ultrapassar fronteiras nacionais e outras – e essas complexidades parecem, de alguma forma, sempre aborrecidas, porque exigem cooperação burocrática e diplomática, coisas que demoram tempo, ao passo que os confrontos militares são mais imediatos e falam mais aos vários lados da alma coletiva"
Agora, com a guerra a aproximar-se do seu centro, a Europa está a mudar de rumo e a rearmar-se rapidamente. Os apelos à unidade europeia são agora frequentemente enquadrados numa linguagem militarista, envolta em termos como “prontidão de defesa” ou “realismo”. Sinto ecos de nostalgia imperial – não apenas na Europa, mas a nível global, na Rússia, na China, nos Estados Unidos e até no Reino Unido e na Turquia. Mas face a uma emergência planetária como a crise climática, não há espaço para sonhos imperialistas renovados. São mal orientados e perigosos. Se a Europa ainda tem uma missão no mundo atual, essa missão consiste em retirar as duras lições do seu passado – especialmente de duas guerras mundiais devastadoras – e empenhar-se, mais uma vez, na cooperação, na diplomacia e na resolução pacífica de conflitos.
Há pouco dizia que, mesmo que líderes como Trump falhem, não vamos regressar à velha ordem mundial. Que nova ordem consegue antever?
Neste momento temos necessidades funcionais e dinâmicas políticas e, até onde consigo vislumbrar, essas funções e essas dinâmicas estão a seguir direções completamente diferentes. A crise ecológica exige dinâmicas geopolíticas, mais cooperação, esforços transnacionais, etc. Só que, quando se olha para o domínio político, o que vemos é um regresso ao mundo do século XIX.
Ao mundo dos mais fortes a impor a sua força aos mais fracos?
Sim, com dinâmicas de ocupações territoriais, coisas assim, que não fazem sentido nenhum. Talvez a região do Ártico seja uma exceção, porque vai tornar-se habitável num futuro próximo, e aí talvez voltemos a assistir a esta ideia de disputas e expansão territorial. Mas na maioria dos casos vivemos num mundo limitado, com recursos limitados. Nesse sentido, a crise ecológica deveria unir as pessoas e ajudar a melhorar os mecanismos políticos, mas o que vemos a acontecer é o oposto.
A Rússia é um Estado pós-imperial em ruínas – se conquistasse a Ucrânia toda, não teria como administrar esse território"
Vivemos com base nesta espécie de impérios nostálgicos, em que cada um tenta reconquistar território, revisitar e reanimar um passado que, na verdade, não existiu, que é imaginado. É interessante ver que isto está a acontecer em todo o lado, nos EUA, na Rússia, na China, com a Índia hindu, a Turquia, todas estas potências estão ligadas a um passado imaginado. E, até certo ponto, é isso que está a acontecer também com a Europa. O Brexit foi animado por esta ideia de uma Grã-Bretanha do passado, na Alemanha vemos que existe este sonho de um grande império alemão. É nacionalismo com ambições imperialistas.
Diria, então, que estamos a regressar à dita ordem do século XIX?
Parecemos seguramente estar a caminhar nessa direção, mas isso é insignificante. Veja-se o caso dos EUA e as suas ambições de colonizar o Canadá. Quer dizer, não sei se isto vai resultar nalguma coisa concreta, mas diria que, para a maioria das pessoas, é um esforço sem sentido – para os canadianos é com certeza, mas aposto que para a maioria dos americanos também, não há qualquer racionalidade por trás desta ideia, [conquistar e anexar o Canadá] não daria mais força económica aos EUA. A Groenlândia é outro caso, e diria que o caso mais urgente é o da Rússia na Ucrânia. A Rússia é um Estado pós-imperial em ruínas – se conquistasse a Ucrânia toda, não teria como administrar esse território.
A única coisa real com que estamos a lidar é a crise ecológica, que precisa de cooperação a todos os níveis, e foi aliás para enfrentar desafios assim que a UE foi inventada. A minha preocupação é que a UE agora está a encontrar uma nova identidade – esteve sempre destinada a ter uma identidade fraca, e agora está a tentar ultrapassar essa espécie de fraqueza reinventando-se enquanto potência militar, investindo num futuro que é disfuncional, realocando todos os meios para isso, o que não só vai aprofundar as linhas de divisão internas, mas também retirar dinheiro para aquilo que é realmente preciso, que é combater esta crise planetária.
O meu palpite é que as pessoas ficaram um pouco exaustas com as exigências da crise ecológica, porque essas exigências obrigam-nas a encarar as complexidades do mundo, a necessidade de ultrapassar fronteiras nacionais e outras – e essas complexidades parecem, de alguma forma, sempre aborrecidas, porque exigem cooperação burocrática e diplomática, coisas que demoram tempo, ao passo que os confrontos militares são mais imediatos e falam mais aos vários lados da alma coletiva. É claro que os países que fazem fronteira com a Rússia estão assustados, e com razão, mas a lógica atual não se enquadra no que é realmente necessário, é uma lógica imaginária.
É uma lógica que também alimenta esta sensação de desamparo e impotência, muito sentida por nós, jornalistas, e na sociedade em geral, a par destas visões “alternativas” que fogem aos factos e que guiam vários governos da atualidade, à cabeça a administração Trump nos EUA. Como é que se combate essa impotência?
Essa é uma questão crucial. Com este triunfo da nova direita, simplesmente não conseguimos dizer nem fazer nada perante esta invenção de realidades alternativas – por exemplo, esta ideia de crime generalizado em Washington DC que levou Trump a mobilizar a Guarda Nacional para a capital... Diante disto, ficamos sempre com a sensação de que é tudo inútil. É essa a jogada de poder, eles dizem ‘vocês usam o vosso discurso e nós ganhamos com o nosso’. É um jogo de soma nula – ‘quanto mais vos silenciamos, mais empoderados ficamos’.
Face a uma emergência planetária como a crise climática, não há espaço para sonhos imperialistas renovados, são mal orientados e perigosos"
Coisas como a verificação dos factos continuam a ser extremamente importantes, como por exemplo agora no caso do jornalista palestiniano assassinado pelo Estado de Israel. É muito comovente ouvir o que ele disse sobre qual era a sua missão, esta ideia de nos cingirmos à objetividade. Novamente, isto que está a acontecer é algo que era impensável há dez anos. Há algo de heroico no que ele disse, nesta ideia de falar a verdade ao poder. Só que, aparentemente, isso não muda o jogo e, nesse sentido, penso que a única forma de ultrapassar isto é sermos capazes de despolarizar as sociedades.
Como é que se faz isso?
Temos de olhar para as forças motrizes e não para os efeitos, perceber porque é que as pessoas se comportam desta forma. É tudo muito complicado. O que é que é mentira? E no que é que um mentiroso realmente acredita? Ele ou ela acreditam mesmo nas mentiras como sendo verdade ou sabem que são mentiras e, mesmo assim, apoiam-nas? Temos de lidar com esta dupla consciência que marca a nossa realidade atual. Quer dizer, a crise ecológica está na mente de todos, até as pessoas da extrema-direita sabem que existe, portanto não é uma questão de conhecimento. O que falta não é dizer às pessoas o que elas devem saber, é impedir que a sua consciência se divida em dois pólos opostos. E isso não se faz por via dos argumentos.
A verificação de factos e o jornalismo são importantes, não sei em que mundo estaríamos se a administração Trump existisse num vácuo de factos e de opiniões divergentes, portanto isso continua a ser muito importante, mas não é suficiente e não muda o jogo. Na Academia estamos muito confrontados com esta questão também, e isso é ainda mais difícil para os meus colegas das ciências. Nas humanidades e nas artes sempre nos confrontámos com estas questões, mas as pessoas das ciências só querem chegar aos factos e aos números e, em circunstâncias normais, não seriam muito afetadas por estas guerras culturais. Mas é esse o caso hoje, e portanto temos de dar resposta às causas subjacentes.
Que são quais?
Começam com esta questão da globalização e da liberalização, com os seus vencedores e perdedores, com esta ideia de uma hegemonia cultural de pessoas como nós que criou um profundo ressentimento noutras, com esta ideia de que a identidade masculina e o papel dos homens está sob ameaça…
Num artigo recente refere que, embora não possamos esperar coisas boas destas novas realidades políticas na América, “no mínimo serviram para deixar claras as linhas de conflito” com que estamos a lidar. Era a isso que se referia?
Esse artigo estava mais focado no que alguns sociólogos dizem ser o choque cultural entre os que se sentem ameaçados pela industrialização e a globalização e os cosmopolitas que falam muitas línguas, que vivem nas capitais do Ocidente e que bebem cappuccinos [risos]. Neste contexto, dizem que a fação direita do liberalismo, o liberalismo corporativo, e a fação esquerda do liberalismo estão muito próximas uma da outra, o que alimenta a ideia de que, por exemplo, as ONGs também estão do lado das pessoas que se sentem ameaçadas pela globalização.
Para mim esta ideia é perigosa, cria uma espécie de auto-acusação e auto-culpabilização, cria a ideia de que, se somos a favor da igualdade das mulheres, por exemplo, então fazemos parte da camada elitista corporativa, quando sabemos que o capitalismo corporativo não está ao lado dos movimentos de esquerda. Isto pode não ser a imagem global da nossa realidade, mas é um ponto importante, é um argumento secundário que considero importante e foi nisso que me foquei nesse artigo.
Temos que estejamos a andar à volta de um problema sem qualquer solução à vista"
Mas sim, voltando a essa ideia das linhas de conflito, pelo menos agora sabemos o que está em risco e de onde vêm os riscos e podemos ter uma imagem clara das ameaças que enfrentamos. Estou em contacto com muitos funcionários da UE e vejo que a UE está a trabalhar com base em duas ideias contraditórias, está numa luta também interna. Por um lado, as dificuldades aumentam, e todos os governos nacionalistas da Europa dificultam o trabalho da UE. Por outro, veem a necessidade de uma Europa mais forte e sentem-se encorajados por essa necessidade. Ou seja, sentem-se encorajados e desencorajados a partir de lados ligeiramente diferentes. E isto também parece ser verdade no caso liberal nos EUA, se lhe quisermos chamar assim, ou melhor, no caso progressista, em muitas dimensões e em muitos aspetos. Mas temo que estejamos a andar à volta de um problema sem qualquer solução à vista.
Voltando ao livro que referia há pouco, sobre as raízes históricas do liberalismo: no início, o liberalismo era um movimento cheio de entusiasmo e desta sensação de ambição moral elevada, de aspirar a um escalão moral mais elevado, sendo que esse escalão correspondia ao progresso, à verdade, à educação, coisas assim. Claro que isto agora parece antiquado, mas se olharmos com atenção, volta a ser algo de que não podemos fugir. E se isto corresponde a ser elitista, então que assim seja – é essa a obrigação elitista de qualquer pessoa informada.