Porque é que a extrema-direita europeia é liderada por mulheres?

1 out, 22:00
Giorgia Meloni (AP)

O Velho Continente vive uma situação sem precedentes no capítulo político. Os especialistas consideram que as explicações vão para lá da própria extrema-direita

Giorgia Meloni. Marine Le Pen. Alice Weidel. Nos três maiores países da União Europeia, Itália, França e Alemanha, respetivamente, a extrema-direita, ao contrário da tradição de décadas, é liderada por mulheres.

Esta situação sem precedentes pode causar estranheza, mas os eleitores destes países parecem ter assimilado a nova realidade sem problemas.

Giorgia Meloni será a próxima primeira-ministra de Itália, enquanto Marine Le Pen atingiu a segunda volta nas duas últimas presidenciais francesas, tendo este ano chegado aos 41%. Por sua vez, o partido de Alice Weidel, a AfD (Alternativa para a Alemanha), obteve no início desta semana o melhor resultado numa sondagem desde 2020, num inquérito publicado pelo Bild.

Mas porque é que a extrema-direita europeia está a ser tomada pelas mulheres? À CNN Portugal, Diana Soller afirma que a razão vai para além da extrema-direita e da política em si.

“O principal motivo desta ascensão está relacionado com a emancipação do género feminino, chegando a posições sociais, políticas e empresariais de topo que não ocupavam há uma ou duas gerações atrás, o que é obra não dos partidos extremistas, mas sim dos mais tradicionais e liberais”, diz a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

“Esta conquista é aproveitada pelos partidos extremistas, nomeadamente de direita, onde isso é mais surpreendente, até porque têm de captar o eleitorado feminino, que tendencialmente vota menos nestes partidos. O eleitor típico do partido de extrema-direita é um homem, de meia-idade, com uma escolaridade baixa, uma posição social e emprego de classe média baixa. As mulheres sentem-se menos atraídas por este tipo de partidos, algo que as lideranças femininas ajudam a atenuar”, explica a investigadora.

Separando o caso de Le Pen, que se enquadra numa “tradição de família”, Diana Soller atenta que Meloni e Weidel fazem parte de partidos muito recentes onde não crê que a questão da masculinidade tenha uma importância tão grande como no passado.

“O que acaba por acontecer é que a ascensão destas mulheres a líderes da extrema-direita está relacionada com a ascensão da primeira geração de mulheres que chega à política”, explica a investigadora, argumentando que este fenómeno não deve ser dissociado “do fenómeno de uma série de lideranças femininas em vários países e em partidos moderados.”,

“A questão de a política ser uma coisa só para homens foi ultrapassada por esta geração que tem agora 40, 50 anos. É uma questão de conjunto que não está apenas ligada à extrema-direita, ainda que aí este fenómeno possa ser um bocadinho mais estranho tendo em conta a tradição de conservadorismo. No entanto, penso que o conservadorismo está relacionado com a família, com uma certa homofobia em determinados casos, mas não está propriamente relacionada com o papel social da mulher”, explica.

Já o politólogo e sociólogo José Filipe Pinto destaca o papel das novas gerações e da diferença de mentalidade face às pessoas mais velhas.

“A ala mais conservadora de um partido, mais patriarcal e extremista, vai ter sempre uma atitude de desconfiança. Não vai ver em qualquer mulher um líder natural, esse teria de ser um homem. No entanto, temos de perceber que esta extrema-direita está a atrair muitos setores da juventude, que têm uma visão completamente diferente, não foram moldados pelo modelo antigo e têm uma mundividência diferente. Esta parte dos partidos vai conviver muito bem com esta característica, a questão do género é vista de forma muito diferente pela juventude”.

Também separando claramente Le Pen, que veio de uma família política, de Meloni e Weidel, José Filipe Pinto considera que as duas últimas já se enquadram no fenómeno que designa por “carreirismo político”, isto é, o facto de já haver mulheres que fazem carreira na política e são políticas desde sempre.

“Há a ambição, que durante muito tempo foi apenas uma característica do homem, de chegar a deputada e, imediatamente, dentro do jogo partidário, tentar ligar-se aos grupos e fações certas para conseguir a sua ascensão. Meloni foi ministra da Juventude, foi deputada e sempre sonhou ser presidente da Câmara de Roma. Em 2016 disse que iria concorrer e desistiu, mas, na última eleição, ela poderia ter ganho. Porque é que não concorreu? Porque percebeu que havia um bem maior, a chefia do governo”, sublinha, referindo que esta última opção já se enquadra nos “jogos de poder” da política.

“Começamos agora aqui a ver os ‘jogos de poder’ também por parte da mulher que, ao chegar à política, apesar da sociedade ainda ser altamente patriarcal, se apercebe que há um campo de afirmação novo: se se souber ligar aos grupos corretos, no momento correto, vai estar no sítio certo à hora certa”, afirma o politólogo.

José Filipe Pinto destaca ainda o facto de as mulheres terem hoje terem mais formação universitária, maior autonomia financeira e começarem a ombrear com os homens na disputa dos lugares políticos.

“É isso que faz com que a extrema-direita, que ainda tem uma visão muito patriarcal e machista da família e da sociedade e está habituada a líderes carismáticos do sexo feminino, comece a perceber que chegou ao ponto da inevitabilidade; no momento, quem há para escolher é uma mulher”, afirma José Filipe Pinto.

A mensagem antifeminista fica mais legitimada com uma mulher na liderança?

Uma das características mais apontadas aos partidos de extrema-direita é o facto de serem antifeministas. Esta vertente faz-se notar na posição destas forças, por exemplo, no que diz respeito ao aborto, ao papel da mulher na sociedade e à família nuclear.

Diana Soller separa, no entanto, aquilo que é a posição da mulher na sociedade das questões fraturantes, como o aborto e os direitos das minorias étnicas e sexuais.

“O discurso antifeminista que a extrema-direita tinha, tem vindo a desaparecer, e isso é que abre as portas para que determinadas mulheres subam ao poder. Relativamente às questões das minorias étnicas, das minorias sexuais e do aborto, estes partidos, mesmo que não sendo propriamente de extrema-direita, são ultraconservadores, defendem valores religiosos relacionados com a família tradicional e com o casamento heterossexual. Esse discurso mantém-se”, aponta a especialista em política internacional, que não considera que esta mensagem fique mais legitimada apenas por ser uma mulher a transmiti-la.

“O que me parece que existe é uma insistência nessa retórica que está relacionada com duas coisas: a tradição ultraconservadora e religiosa e, ao mesmo tempo, uma reação à extrema-esquerda, que fez das políticas identitárias a sua bandeira. Decorre uma batalha sobre que tipo de sociedade vai existir daqui para a frente: uma sociedade radicalmente igualitária, em que aqueles que votam na extrema-direita têm um papel diminuído, ou uma visão da sociedade em que voltamos a valores muito conservadores e muito religiosos, em que esse eleitor volta a ser predominante na sociedade”.

Questionado sobre esta eventual legitimação, José Filipe Pinto menciona que as problemáticas do aborto e da mulher no mundo de trabalho, por exemplo, se enquadram numa questão mais abrangente que não está relacionada com o antifeminismo: a baixa natalidade na Europa.

“A taxa de natalidade é baixa e a Europa tem dificuldade em renovar as populações. Perante isto, ou recebe imigrantes e refugiados para recompor o tecido social ou tem, forçosamente, de aumentar a taxa de natalidade”, explica o sociólogo.

“O que estes partidos vão fazer, e que aliás Orbán já faz na Hungria, é criar medidas para aumentar a natalidade, o que implica, imediatamente, a condenação do aborto, mas outras coisas como a diminuição do horário de trabalho das mulheres, redução dos impostos para famílias numerosas e por aí em diante. A mulher aqui vai aparecer como alguém que diz o que o partido quer ouvir que, no caso de Itália, é dizer que quer uma Itália povoada de italianos e não de migrantes ou refugiados. Não quer que haja uma renovação social à custa da imigração. O facto de ser o homem ou uma mulher à frente do partido não implica uma grande mudança, vão implementar aquilo que Orbán já implementa na Hungria, que colhe muito bem tanto junto do eleitorado masculino como do feminino”, considera José Filipe Pinto.

Estará a mulher a ser instrumentalizada pela extrema-direita europeia?

Muitos dos migrantes e refugiados que chegaram à Europa na última década são originários de países e regiões, como o Médio Oriente ou a África Subsariana, onde a mulher ainda não se emancipou como no Ocidente. Sendo o combate à imigração não-europeia uma das prioridades dos partidos de extrema-direita, o politólogo considera que estas forças estão a instrumentalizar a experiência das mulheres para seu próprio benefício.

“Há essa instrumentalização para mostrar à mulher francesa, italiana e alemã que a xenofobia que resulta da chegada do estranho, com a sua cultura diferente, resulta não da culpa própria, mas da culpa alheia de querer impor um modelo que não respeita a mulher. O facto de, neste momento, termos mulheres à frente destes partidos reforça essa imagem, em que a mulher pode dizer ‘eu só cheguei aqui porque vivo no Ocidente, a minha situação seria de subalternidade caso fosse de um dos países de onde vêm os migrantes’”, exemplifica.

“Nesses países domina a ideia de que a mulher não foi feita da cabeça do homem para não pensar pelo homem nem foi feita dos pés do homem para não ser pisada pelo homem. Foi feita da costela, e do lado do coração, para ser protegida e para ser amada. Na visão ocidental, isto é uma proteção desprotegida; não há o reconhecimento da diferença da mulher, mas sim da sua menoridade. As mulheres na liderança dos partidos de extrema-direita vão dizer isto: “Nós chegámos aqui porque não somos produtos dessas culturas”.

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