A "bofetada" a Macron, a subida "preocupante" de Le Pen e a voz "diminuída" de França na Europa. A análise aos resultados das legislativas

20 jun, 13:43

Na ótica dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, a maior dificuldade de Emmanuel Macron nos próximos cinco anos vai ser conseguir aprovar políticas concretas que resolvam os problemas do dia a dia dos franceses. Isto porque é neste campo que os extremos - esquerda e direita - jogam. A nível europeu, Macron sai enfraquecido

A segunda volta das eleições legislativas francesas decorreu este domingo e apesar do partido de Emmanuel Macron ter vencido com 38,57% dos votos - conquistando 245 assentos dos 577 da Assembleia Nacional - uma das grandes vitórias da noite ficou nas mãos de Marine Le Pen. O partido de extrema-direita Rassemblement National (União Nacional) passou de oito para 89 deputados, tornando-se na terceira força política. Em segundo lugar ficou a coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES), liderada por Jean-Luc Mélenchon: 131 deputados (31,60% dos votos).

"A bofetada", "França ingovernável", "estratégia do nim" são algumas das expressões que a imprensa francesa tem utilizado nas manchetes dos jornais e também nos sites para descrever o cenário pós-legislativas. Todas elas têm o mesmo alvo: Emmanuel Macron. Depois deste ter perdido a maioria absoluta na Assembleia Nacional, o diretor do Le Monde fala numa "votação de sanção". Alexis Brézet, diretor de redação do Le Figaro, escreve que Macron tem pela frente "um mandato de cinco anos natimorto" e que esta segunda volta das legislativas mais pareceu um "referendo anti-Macron".

Com quem é que Macron vai casar ou ter um affair

França tem agora um parlamento fragmentado e neste novo equilíbrio de poderes resta saber com quem Macron vai dançar nos próximos cinco anos. Longe dos 289 deputados necessários para aprovar leis, as "tropas macronistas", como lhes chamam a imprensa francesa, vão ter de encontrar aliados e assumir compromissos para conseguirem aplicar o seu programa. 

Em declarações à CNN Portugal, o embaixador Francisco Seixas da Costa descreveu esse trabalho como uma "pesca à linha" que vai ser muito difícil porque nenhum partido quer "dar a mão" a Emmanuel Macron para a criação de um governo de maioria. Aliás, os Les Républicans (LD), a direita tradicional francesa - que desceu de 112 para 61 deputados - já excluiu essa hipótese: "Fizemos campanha na oposição, estamos na oposição e vamos permanecer na oposição", disse o presidente Christian Jacob.

Provavelmente, segundo o comentador, o cenário vai passar por coligações pontuais para fazer aprovar determinadas reformas e medidas legislativas. "Vamos ter aqui a extrema-direita e a esquerda radical com muita força na Assembleia e uma grande dificuldade por parte de Macron de ir buscar apoios que não sejam de natureza pontual", afirmou. 

A subida histórica de Le Pen. Como e porquê? 

Assim que foram conhecidas as primeiras projeções, Marine Le Pen não demorou a reagir. "Estamos a tornar-nos no maior grupo da história da nossa família política", disse no seu discurso. A líder da extrema-direita francesa prometeu ainda que o partido vai fazer uma oposição "firme" e "sem conluio", ainda que de forma "responsável e respeitosa" das instituições francesas.

Le Pen conseguiu um resultado histórico e foi, de longe, a surpresa da noite. Aliás, como disse à CNN Portugal João Ribeiro Bidaoui, do Observatório da Política Externa Nacional, as "análises estavam a centrar-se muito na subida de Mélenchon e distraíram-se com a subida da extrema-direita". Uma ascensão de oito para 89 deputados e que, segundo o especialista, faz com que Le Pen passe a ter um grupo parlamentar com "muito mais poder, muito mais acesso mediático e muito mais presente no palco político francês". 

"É muito significativo porque passa a ter um grupo parlamentar com mais meios, com mais financiamento público, passa a poder apresentar moções de censura e passa a poder pedir a fiscalização constitucional de diplomas", acrescentou. 

Na mesma linha, Victor Ângelo, ex-secretário-geral adjunto da ONU, classificou este resultado como "uma subida espetacular e, ao mesmo tempo, preocupante", porque as movimentações futuras da líder da extrema-direita podem constituir "um perigo para a democracia em França e para a unidade europeia". 

A que se deve esta subida? Na ótica de João Ribeiro Bidaoui, isto acontece quando "as condições económicas do eleitorado justificam que, por vezes, tenham de votar em propostas mais radicais". Portanto, o eventual crescimento da extrema-direita nos próximos anos depende muito "da capacidade que o presidente Macron tiver de melhorar as condições de vida dos franceses". 

Como fica França aos olhos da Europa? 

Como referiu Victor Ângelo, os 89 deputados da Rassemblement National não trazem preocupações apenas ao nível da política nacional francesa, mas também no cenário europeu. Seixas da Costa disse mesmo que "a posição da França e a capacidade de atuar no plano europeu vai-se ressentir deste tipo de resultado".

"O líder de um grande país europeu que não tem atrás de si, no plano interno, um forte apoio de natureza parlamentar, naturalmente que vê a sua capacidade de expressão da sua voz no plano europeu diminuída. E Emmanuel Macron apresenta-se neste momento perante os seus parceiros, como alguém que tem uma maioria relativa, que vai ter necessidade de fazer acordos de natureza pontual para sobreviver no dia a dia", explicou.

Desde que Angela Merkel passou a pasta de chanceler a Olaf Scholz, e com o surgimento da guerra na Ucrânia, Emmanuel Macron tem tentado impor-se na agenda mediática, assumindo um lugar de relevo nas negociações e aproveitando ao máximo o vazio deixado por Merkel. Uma das suas principais bandeiras nesta campanha era o reforço da integração europeia. Um caminho que, segundo João Ribeiro Bidaoui, parece estar "mais minado". 

O crescimento da extrema-direita "é, obviamente, uma má notícia para a Europa, [Le Pen] vai reforçar o discurso europeísta no parlamento francês e nas televisões francesas e isso é a pior notícia que o presidente Macron poderia ter recebido", afirmou. No entanto, olhando muito concretamente para o contexto da guerra, o especialista acredita que este resultado pode ser positivo. "Eu diria que pode potenciar, dar mais sustento político ao caminho que o presidente Macron que, de forma mais discreta, mais cuidada, tem vindo a fazer. De criar condições para que se possa encontrar um cessar-fogo, para que se possa encontrar um acordo de paz e para que se possa restabelecer, de uma forma realista, as relações com a Rússia". 

Neste contexto, Victor Ângelo relembrou que Marine Le Pen "é, em certa medida, uma aliada do presidente Vladimir Putin" e que isso não pode ser colocado de parte. "Eu acho que é importante mencionar que esta perturbação interna em França vai enfraquecer a sua posição enquanto líder europeu. Macron esqueceu-se de uma premissa que é fundamental em política: só se é forte na política externa, quando se é forte na política interna", concluiu. 

 

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