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Comentador da CNN Portugal

A França à beira do abismo

25 ago 2025, 20:05

“Quand on n’a que l’amour / À offrir en partage” - cantava Jacques Brel, lembrando que, quando tudo falta, resta apenas o essencial. Mas e quando o essencial também se esvai? Quando a confiança, a estabilidade e o futuro parecem escorrer por entre os dedos de uma nação que durante décadas se quis apresentar como farol da Europa? É essa a interrogação que hoje se levanta em Paris e que ecoa inevitavelmente em todo o continente.

François Bayrou, primeiro-ministro escolhido por Emmanuel Macron para dar uma ilusão de equilíbrio a uma Assembleia fragmentada, decidiu jogar a cartada mais arriscada da sua carreira política: pediu um voto de confiança marcado para 8 de setembro, em torno de um orçamento que mais parece um programa de austeridade dos anos 80. Dois feriados eliminados, pensões e apoios sociais congelados, impostos agravados e uma nova taxa sobre os mais ricos. Um país que se descobre endividado até ao pescoço, com uma dívida pública que já devora mais do que a própria despesa em defesa e educação, e um governo que aposta tudo numa jogada parlamentar que dificilmente vencerá. A Bolsa de Paris reagiu com queda imediata, os juros da dívida subiram e, de imediato, a política francesa mergulhou em mais um episódio de incerteza.

A oposição, essa, encontrou um raro momento de unidade. Da esquerda radical da France Insoumise até à direita nacionalista de Marine Le Pen e Jordan Bardella, todos prometeram votar contra. Os socialistas de Olivier Faure chamaram ao gesto “uma autodissolução”, os comunistas falam em traição social e os Verdes acusam Bayrou de irresponsabilidade. Do outro lado, apenas um punhado de ministros fiéis ainda se esforça por pintar de coragem o que é, no fundo, desespero. O cenário mais plausível é o da queda do governo e a abertura de um caminho que poderá desembocar em eleições antecipadas.

Tudo isto acontece com Emmanuel Macron numa encruzilhada fatal. Externamente, continua a tentar desempenhar o papel de líder da Europa, articulando esforços de guerra em apoio a Kiev, dialogando com Washington e Berlim, projetando a imagem de estadista capaz de enfrentar Moscovo. Mas internamente, a realidade é crua: um presidente desgastado, com índices de popularidade abaixo dos 30%, incapaz de transmitir confiança, e sobretudo impossibilitado de concorrer a um terceiro mandato. Macron sabe que a sua herança política não está em Bruxelas nem em Kiev, mas em Paris.

É precisamente este contraste que fragiliza a sua posição: tudo o que se passa agora em França retira-lhe a robustez política necessária para continuar a assumir-se como pilar europeu. A imagem de liderança que procura cultivar fora de portas perde densidade quando, em casa, a contestação aumenta e o risco de implosão do próprio sistema político se torna cada vez mais real.

E em Paris, as sondagens são inequívocas: o partido presidencial está em queda livre, enquanto Jordan Bardella surge como provável candidato da extrema-direita às presidenciais de 2027, liderando já as intenções de voto na primeira volta. Marine Le Pen permanece como figura tutelar, mas é Bardella quem encarna a nova face de um movimento que se normalizou junto do eleitorado e que poderá, pela primeira vez na história da Quinta República, conquistar o Eliseu.

Eis a grande contradição europeia do nosso tempo: a mesma França que procura liderar a União Europeia, ditando a estratégia militar e económica para resistir à Rússia, é um país internamente esvaziado de autoridade, incapaz de garantir a sua própria estabilidade política. Macron insiste em proclamar unidade europeia, mas em casa reina a divisão; fala de grandeza nacional, mas o seu governo sobrevive dependente de votos alheios; promete futuro, mas entrega austeridade e incerteza.

Se a França cair numa crise política que abra as portas a uma vitória da extrema-direita, toda a arquitetura europeia construída em torno da solidariedade à Ucrânia e da defesa comum ficará em risco. A União pode ver-se paralisada não pela pressão externa de Putin, mas pela implosão interna de um dos seus pilares. E nesse caso, a Europa não será apenas cúmplice de uma guerra que lhe exige cada vez mais sacrifícios; será também vítima colateral da sua própria fragilidade.

A verdade é que o centro político francês - e europeu - perdeu o fio que o ligava às pessoas. Em vez de oferecer soluções concretas para o custo de vida, a habitação, a mobilidade social, escondeu-se em fórmulas tecnocráticas e no conforto da gestão de curto prazo. Essa distância deixou o campo aberto para os extremos, em particular para uma extrema-direita que já não assusta como outrora, mas que se apresenta como voz legítima da frustração popular.

O voto de confiança de Bayrou é mais do que uma jogada parlamentar: é o reflexo da erosão de toda uma ordem política. Se o governo cair, não será apenas Bayrou a sair derrotado; Macron cairá também — cairá politicamente, mesmo que se mantenha como Presidente até ao fim do mandato — e cairá como uma pedra num charco. Nesse colapso, não será apenas um homem ou um executivo a ruir, mas uma certa visão de França e de Europa incapaz de se reinventar. É nesse vazio que a pergunta de Brel ressoa com uma inquietação nova: quando já não restar nem sequer o amor, nem sequer a confiança, o que sobrará à França e à Europa?

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