O olho misterioso que inspirou uma coleção peculiar e romântica

CNN , Jacqui Palumbo | Fotografias de Austin Steele
16 ago, 09:00
Anel "olho do amante" (Austin Steele/CNN)
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"Não sabemos nada sobre a pessoa retratada, isso faz parte do mistério dos 'olhos de amante'", explica David Skier. "Foram criados para serem anónimos."

Enquanto procuravam antiguidades, um olho específico chamou a atenção de David e Nan Skier. O casal procurava tesouros na feira Cyclorama Antiques Show durante uma estadia em Boston para uma conferência médica. David, um oftalmologista hoje na reforma, estava habituado a examinar olhos o dia todo, mas não daquela maneira: entre os tesouros, avistou uma pupila cinzenta, delicadamente pintada, que parecia olhar para o lado, como se estivesse perdida em pensamentos. Estava incrustada na face oval de um anel adornado com esmalte azul, diamantes e pérolas. David e Nan nunca tinham visto nada parecido.

Quatro décadas depois, o casal reuniu uma coleção de 158 destas misteriosas miniaturas de olhos – conhecidas como "olhos de amante" (lover’s eyes) – aplicadas a joias e outros pequenos objetos. Popularizaram-se inicialmente na Inglaterra georgiana como pequenas demonstrações de afeto, paixão ou luto, podendo ser encontrados exemplares em grandes museus, como o Victoria & Albert Museum, em Londres, e o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. No entanto, os Skier acreditam possuir a maior coleção do mundo; já a exibiram numa exposição itinerante e publicaram um livro sobre o assunto – com uma nova edição prevista para o próximo ano.

Numa conversa por vídeo a partir da sua casa em Birmingham, no Alabama, Nan Skier levanta a mão para mostrar a primeira peça da coleção, que se ajusta perfeitamente ao seu dedo indicador.

"Costumamos dizer que, quando comprámos este anel, ele vinha com um aviso e com uma história", diz Nan Skier, recordando a ocasião em que o adquiriram à falecida negociante nova-iorquina Edith Weber. Especialista em peças raras e comemorativas – incluindo joias de luto –, Edith é creditada pela criação do termo "olho de amante".

O anel com motivo de olhos — peça que deu início à coleção de David e Nan Skier — fotografado na casa do casal em Birmingham, no Alabama, a 24 de julho de 2026. foto Austin Steele/CNN
Nan e David Skier na sua casa em Birmingham, Alabama. David é oftalmologista reformado, embora o casal se tenha conhecido enquanto estudava arte na licenciatura na Universidade de Syracuse. foto Austin Steele/CNN
A coleção "The Skier's" conta agora com 158 objetos e serviu de base para uma exposição itinerante e duas edições de um livro, com uma terceira a caminho. foto Austin Steele/CNN

O aviso era para nunca lavar as mãos ao usar o anel, pois o olho poderia acabar por se apagar. A história envolvia o Rei George IV de Inglaterra – então Príncipe de Gales – e a sua profunda paixão por uma plebeia católica, Maria Fitzherbert. Casaram-se secretamente e de forma não oficial, após uma série de tentativas dramáticas do futuro rei para a conquistar, incluindo o envio de uma pequena pintura em aguarela do seu olho. No final da sua vida, foi sepultado com uma representação do seu olho. Este gesto romântico deu início a uma tendência e, entre 1790 e 1830, os artistas de miniaturas começaram a incorporar estes olhos minúsculos em joias, transformando-os em memórias preciosas. No entanto, como acontece com a maioria dos objetos que adquiriram, os Skier não sabem de quem é o olho representado no anel, embora a peça date de cerca de 1790.

"Não sabemos nada sobre a pessoa retratada, isso faz parte do mistério dos 'olhos de amante'", explica David Skier. "Foram criados para serem anónimos."

A coleção detida pelo casal inclui anéis, pregadeiras e pulseiras, mas também conta com outros objetos, como um alfinete de lapela, estojos forrados a veludo, uma carteira e uma chávena de chá. Alguns objetos ostentam inscrições; outros contêm madeixas de cabelo. Existem também variações do motivo do "olho de amante" que tornam certas peças ainda mais raras, como a substituição do olho por lábios pintados – caso de uma pulseira cujo fecho se abre para revelar uma boca sensual rodeada de nuvens difusas.

O primeiro anel da coleção (topo), um retrato de um olho rodeado de dedaleiras — provavelmente uma referência à pessoa retratada, Mary Sarah Fox (à direita) —, um pendente em forma de lágrima recentemente adquirido que, acredita-se, exibe um retrato de família (parte inferior), e um retrato da irmã do artista, atribuído a John Cox Dillman Engleheart (à esquerda).foto Austin Steele/CNN
Os "olhos de amante" (*lover's eyes*) tornaram-se populares na Inglaterra georgiana pouco antes de 1800. Apenas cerca de uma dúzia de pintores de miniaturas os produziam na época, embora joalharias tenham sido responsáveis ​​por um ressurgimento por volta da década de 1890. foto Austin Steele/CNN

Elle Shushan, especialista em pinturas em miniatura, e o historiador de arte Graham Boettcher, diretor do Museu de Arte de Birmingham, são dois dos especialistas que ajudaram a orientar a formação e a exposição da coleção. O casal procura novas peças junto de antiquários, vendedores particulares e em leilões. Embora não tenham comentado os valores, as peças originais de "olhos de amante" podem custar de milhares a dezenas de milhares de dólares.

Os "olhos de amante" são frequentemente retratos comemorativos ou de memória, mas "também eram usados ​​em casamentos, noivados e como lembranças de despedida, pois, quando se viajava, ficava-se fora por meses e meses a fio", explica Shushan.

Contudo, não eram trocados entre quaisquer pessoas. Embora os retratos em miniatura já tivessem ganhado popularidade antes do aparecimento da fotografia, Shushan estima que apenas cerca de uma dúzia de artistas de renome produziam retratos de olhos, incluindo os pintores George Engleheart e Richard Cosway. Acomodados em peças de design elaborado e de elevado custo, estes retratos eram inacessíveis para a maioria das pessoas.

Os Skiers examinam parte da sua coleção, que inclui joias, mas também outros artigos com o motivo "olhos de amante", como caixas de recordações, uma carteira e uma chávena de chá. foto Austin Steele/CNN
Uma pulseira de elos de ouro traz o olhar de um homem de olhos castanhos; a peça está datada de cerca de 1840. foto Austin Steele/CNN
Um relicário que contém um olho azul, iniciais e cabelo entrançado de um lado, e uma madeixa de cabelo do lado oposto. foto Austin Steele/CNN

“Quando os ‘olhos’ [miniaturas de olhos] surgiram, as miniaturas já eram produzidas há mais de 300 anos no Reino Unido e tinham-se disseminado pelas várias camadas socioeconómicas, ao ponto de até a mulher do talhante poder ter uma”, explica Shushan. “A Duquesa de Devonshire não queria necessariamente a mesma coisa que a mulher do talhante; foi a alta aristocracia que iniciou a tendência, e foi preciso esperar até à década de 1830 para que começasse a chegar às classes mais baixas.”

Por volta de 1890, voltaram a estar na moda, mas desta vez produzidas internamente por grandes joalharias, como a Tiffany’s, explica Shushan. Miniaturistas da própria equipa pintavam os olhos dos clientes, mas nenhuma das obras estava assinada pelos artistas – o que, segundo Shushan, torna ainda mais difícil encontrar informação sobre as mesmas.

Os Skier afirmam que as miniaturas originais de “olhos de amante” são extremamente raras e adquirem apenas uma ou duas peças novas por ano. A maioria das que encontram hoje “é falsa, de fraca qualidade ou está muito desgastada pelo tempo”, explica David Skier. Tal como a água, a luz solar também representa um risco. Deparam-se frequentemente com falsificações, nas quais os olhos foram recortados de retratos maiores – ou até mesmo impressos a laser – e inseridos em armações baratas.

Algumas das peças mais recentes incorporadas na coleção apresentam múltiplos retratos de olhos que podem ter servido como uma espécie de registo familiar, adianta Shushan; alguns exemplos incluem um pendente dourado estilo lustre com retratos individuais em forma de gota e uma pulseira com cinco ovais exibindo partes de rostos – incluindo um retrato duplo central –, adornados com elementos atmosféricos como folhas e nuvens.

O casal chegou mesmo a incluir uma peça contemporânea, encomendada pessoalmente a um artista do Etsy, na qual o olho pintado foi colocado numa armação antiga. A peça está devidamente identificada no inventário para evitar confusão com um original, mas acrescenta um toque pessoal à sua coleção. Graças à coleção dos Skier, assistiu-se a um ressurgimento do interesse por estas miniaturas de olhos; David sublinha que não se trata de um “projeto de vaidade”, mas sim de uma forma de preservar e documentar estes delicados objetos.

No entanto, o fascínio e o mistério de cada peça também continuam a motivar a sua busca.

“Cada uma destas peças é, de certa forma, uma história de amor”, diz Nan Skier. “Alguém amava esta pessoa ao ponto de pintar uma miniatura do seu olho e incrustá-la nesta joia. Não conhecemos as circunstâncias. Não sabemos quem eram, mas a peça fala de amor entre duas pessoas e de como ele se expressa.”

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