Exportações da China caíram 1,1% em outubro face ao mesmo mês de 2024, logo depois da trégua comercial entre Trump e Xi Jinping
Após meses de crescimento constante, as exportações da China registaram em outubro uma queda inesperada de 1,1% (em dólares), comparativamente com o mesmo período do ano anterior. Trata-se da primeira contração desde o início da guerra comercial com os Estados Unidos, um sinal de que as tensões entre as duas maiores economias do mundo começam a refletir-se de forma mais evidente na balança comercial da China.
De acordo com a Administração Geral das Alfândegas da China, a descida nas exportações contrasta com o aumento de 8,3% registado em setembro, o melhor resultado em seis meses. Um economista citado pelo Financial Times afirma que o recuo foi a “maior surpresa deste ano” para os mercados, já que se previa um crescimento na ordem dos 3%.
O Produto Interno Bruto (PIB) chinês demonstra sinais de desaceleração, crescendo 4,8% no terceiro trimestre, face aos 5,4% do primeiro e 5,2% do segundo. A situação é vista como um reflexo direto da guerra comercial desencadeada por Donald Trump, que há meio ano impôs uma série de tarifas sobre produtos chineses.
Segundo o El País, a retração nas exportações deve-se, em parte, ao esgotamento do “impulso artificial que as tinha sustentado durante o verão”, quando as empresas chinesas anteciparam os envios para evitar as tarifas. Outro fator de peso foi a valorização do yuan (moeda chinesa), que “encareceu as vendas ao exterior e reduziu a competitividade” dos produtos chineses no mercado internacional.
Apesar deste revés, os líderes das duas potências mundiais procuram aliviar a tensão. A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, realizada na Coreia do Sul, resultou num acordo de trégua comercial de um ano, que prevê a redução parcial de alguns impostos e a suspensão temporária de outros. O pacto pretende “reduzir a tensão num ano marcado pela volatilidade do comércio bilateral”, nomeadamente as relacionadas com o controlo chinês das terras raras e as restrições americanas aos produtos tecnológicos.
Os efeitos do conflito são evidentes nas relações bilaterais: as exportações chinesas para os EUA caíram 25,2% em outubro, após uma queda de 27% em setembro. Até agora, essa redução tinha vindo a ser compensada pelo aumento das vendas à ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) e à União Europeia, mas até esses mercados começaram a abrandar – as exportações para a UE cresceram apenas 0,9%, muito abaixo dos 14,2% de setembro, e as destinadas ao sudeste asiático aumentaram 11%, o valor mais baixo desde fevereiro.
A tendência também se verificou em África e na América Latina. No continente africano, o crescimento caiu para 10,5%, após um salto de 56% no mês anterior, enquanto na América Latina o aumento limitou-se a 2,1%, bem longe dos 15,2% registados em setembro. Especialistas apontam que o México, pressionado por Washington, “restringiu os controlos sobre as importações chinesas”, contribuindo para esta desaceleração regional.
Em contrapartida, as importações chinesas cresceram 1% em outubro, um valor modesto face aos 7,4% de setembro e abaixo da previsão dos analistas, que esperavam 4,5%. O superavit comercial da China reduziu-se para 90 mil milhões de dólares (cerca de 78 mil milhões de euros), o que representa uma queda de 5,7% em termos anuais.
Ainda assim, os especialistas mantêm uma visão relativamente otimista. O economista-chefe do grupo Macquaire, Larry Hu, afirmou que “os dados do comércio tendem a ser muito voláteis” e que as exportações foram a grande surpresa do ano, mas que têm sido fortes e “deverão manter-se fortes nos próximos seis a 12 meses”, citado pelo Financial Times.
Num contexto de crise imobiliária interna, fraco consumo doméstico e tensões geopolíticas persistentes, o comércio externo continua a ser “um pilar essencial para a recuperação da economia chinesa”, segundo o South China Morning Post. No entanto, a queda nas exportações lança o alerta de que o crescimento da China poderá depender menos da sua força industrial e mais da sua capacidade de adaptação às mudanças globais no comércio internacional.