Uma visão de si próprio fora do corpo, sensação de paz ou um caminho em direção à luz: os relatos de quem esteve à beira da morte e viveu algo que não esperava são comuns e a ciência está à procura de explicações. A CNN Portugal falou com uma mulher, Sofia, que viveu esta experiência e com a conhecida neurocientista belga, Charlotte Martial, que procura explicações para estes fenómenos
Sofia aceita que as outras pessoas possam duvidar dela. Por isso, até hoje, só tinha falado disto uma vez. Mas diz que sabe bem o que viveu. Em 2012, a vida deu uma volta de 180.º. A empresária, agora com 47 anos, regressava de uma reunião com um cliente ao fim do dia, quando uma ultrapassagem mal calculada de um condutor colocou-a frente a frente com um carro bem maior do que o seu Smart. Tinha 33 anos. A imagem daquele SUV a vir em direção a si, sem lhe dar a possibilidade de se desviar, é a última imagem que tem na cabeça. Sofia ficou presa num emaranhado de lata e foi preciso muito esforço e trabalho de vários bombeiros e técnicos do INEM para a manterem viva e a retirarem de dentro do carro.
A imagem seguinte que tem de si é “como se não fosse” ela. “Parecia que era outra pessoa que estava a olhar para mim mesma. Estava nas urgências do hospital com várias pessoas à minha volta e o meu corpo não respondia aos estímulos. A minha cara estava cheia de sangue, tinha um colar cervical… estava um grande aparato à minha volta e sentia todos muito aflitos. Mas eu sentia uma paz e uma tranquilidade enormes”, recorda.
“Não sei precisar quanto tempo aquilo durou. Sei que, de repente, aquela imagem desapareceu e eu voltei a sentir muitas dores. Soube depois que tinha várias fraturas, uma lesão na cervical e um traumatismo craniano. Fiquei 28 dias em coma. Não me lembro de nada desses dias, mas aquela imagem ainda hoje não me sai da cabeça”, acrescenta.
O caso de Sofia pode configurar aquilo a que os especialistas chamam experiência quase-morte (EQM), que muitos asseguram serem experiências reais e outros desvalorizam e dizem serem impossíveis. Catorze anos depois, as marcas físicas e as sequelas não a deixam esquecer aquela manhã de fevereiro. A memória não apaga aquela espécie de “fotografia” que tirou de si própria inerte, na maca do hospital enquanto a tentavam reanimar.
A vergonha e o medo do descrédito
Charlotte Martial é neurocientista. Aos 37 anos, dedica-se a investigar as experiências estruturadas e vívidas que muitas pessoas descrevem quando estão em paragem cardiorrespiratória, em coma ou sob anestesia geral. Em abril deste ano, esteve em Portugal, no Simpósio Aquém e Além do Cérebro, organizado pela Fundação Bial e que se realizou na Casa do Médico, no Porto. O encontro contou com a participação de especialistas de áreas tão diversas como ciência, medicina, psicologia e filosofia. Na sequência desse encontro, a CNN Portugal trocou emails com a investigadora da Universidade de Liège, na Bélgica.
“As EQM são experiências subjetivas vívidas que podem ocorrer durante circunstâncias que colocam a vida em risco. Uma das suas características marcantes é a recorrência de temas semelhantes entre os indivíduos. As pessoas descrevem frequentemente uma profunda sensação de paz, experiências extracorporais e a sensação de se deslocarem através de um túnel em direção a uma luz brilhante”, começa por explicar Charlotte Martial.
A neurocientista diz que “estas semelhanças podem sugerir que as EQM refletem padrões identificáveis na forma como o cérebro responde sob stress fisiológico extremo”. “Em suma, quando o cérebro é privado de oxigénio, os níveis aumentam, o que provoca uma notável falta de energia nas células cerebrais. Isto desencadeia uma reação em cadeia, tornando certas áreas cerebrais, como as envolvidas na perceção e na consciência - tais como as regiões occipital e temporoparietal - muito mais ativas”, esclarece.
Charlotte Martial diz que as substâncias químicas produzidas pelo cérebro, os neurotransmissores, podem ter um papel importante nestes episódios descritos por mais pessoas do que aquilo que se julga. A vergonha e o medo de serem descredibilizados leva muitos a guardarem essas experiências “num cofre fechado a sete chaves”. Foi assim com Sofia, que prefere ocultar o sobrenome e garante que a conversa com a CNN Portugal é a segunda vez que fala do assunto. Até agora, só a psicóloga com quem tem consultas uma vez por mês sabia desta questão. “A minha terapeuta diz que há mais pessoas a sentirem isto do que se imagina e diz que a ciência já começa a encontrar explicações para estes episódios”, diz a empresária.
A relação entre o cérebro e a consciência
Charlotte Martial explica que o cérebro humano não pára “instantaneamente” em caso de paragem cardíaca. “Os investigadores documentaram atividade cerebral residual e, por vezes, intensificada, pouco depois da paragem cardíaca, incluindo picos neuroquímicos dramáticos. Por exemplo, registos em humanos e animais revelaram picos dramáticos de neurotransmissores nos minutos após o coração deixar de bater. Estas descobertas sugerem que o cérebro permanece biologicamente ativo durante esta fase de transição, mantendo capacidade funcional suficiente para potencialmente sustentar experiências semelhantes à consciência, embora esta última parte ainda requeira confirmação empírica direta”, indica a cientista.
Charlotte Martial diz que estas experiências não acontecem em “estado de silêncio cortical completo”, ou seja, quando o cérebro já parou por completo. As evidências científicas indicam que estas experiências acontecem quando o cérebro ainda é “capaz de gerar fenómenos mentais complexos”. “Também vale a pena notar que a consciência humana não requer que todo o cérebro esteja ativo. A investigação mostra consistentemente que certas regiões do cérebro desempenham um papel particularmente crítico no suporte à experiência consciente”, acrescenta.
A neurocientista sublinha que os investigadores conseguem distinguir entre uma EQM e uma memória que possa ter sido criada ou distorcida. Para isso, usam uma Escala de Conteúdo de Experiências de Quase Morte, que ajuda a determinar se uma experiência contém as características específicas tipicamente associadas às EQM. “De forma mais geral, compreender como estas memórias evoluem ao longo do tempo continua a ser um desafio importante. A maioria dos estudos na área é retrospetiva, o que limita a nossa capacidade de observar como as memórias de ECM se desenvolvem nas fases iniciais após o evento. Os dados empíricos limitados disponíveis sugerem que alterações relacionadas com o conteúdo podem surgir logo um mês após o episódio, com base em avaliações realizadas pouco depois do evento agudo. É importante notar que o facto de uma memória ser reconstruída não nega a ocorrência de uma EQM. Tal como todas as memórias humanas, as memórias de EQM podem estar sujeitas aos processos normais de maleabilidade da memória”, reforça.
O impacto emocional das EQM
Sofia garante que aquilo que viveu há 14 anos ainda está muito presente na sua vida. Não o acidente, claro, mas aquela imagem do seu corpo imóvel e desobediente, “desligado da essência”. Aquele episódio provoca-lhe ainda hoje um sentimento profundamente ambíguo. Se, por um lado, a enche de esperança e lhe dá um conforto que não consegue explicar, por outro, traduz-lhe uma imagem de finitude que a assusta.
De acordo com Charlotte Martial, as EQM podem ter um “impacto duradouro” e “muito profundo”. “Muitas pessoas relatam mudanças psicológicas positivas, tais como uma redução do medo da morte, um aumento da compaixão e um sentido renovado de propósito. Em alguns casos, estas transformações remodelam a visão de mundo da pessoa de formas que descrevem como profundamente significativas”, diz a investigadora, acrescentando que as EQM “também podem trazer desafios”.
“Os indivíduos podem ter dificuldade em integrar a experiência nas suas vidas quotidianas, enfrentar mal-entendidos por parte da família ou da equipa médica, ou sentir-se isolados quando os outros não conseguem compreender o que viveram”, especifica.
Sofia procurou ajuda psicológica precisamente por causa desta experiência. Viveu quase dez anos com isto dentro de si, sem contar a ninguém, “nem ao marido”, e isso estava a “sufocá-la”. Acabou por resolver “outros dramas”, mas a razão que a levou a procurar uma psicóloga há quatro anos foi tentar compreender aquilo que tinha vivido e que a tinha marcado profundamente. Charlotte Martial não fica surpreendida por Sofia ter procurado compreender o que lhe tinha acontecido com a ajuda de um profissional: “Uma proporção significativa das pessoas que passaram por uma EQM procura alguma forma de apoio psicológico ou emocional posteriormente.”
Ainda assim, Charlotte Martial ressalva que é “difícil determinar se as mudanças a longo prazo decorrem especificamente da própria EQM ou do trauma mais amplo associado ao evento com risco de vida”. E é precisamente esta distinção que continua a ser um tema importante para a investigação que está a ser levada a cabo por vários especialistas.
