"Fim da caserna e da máquina de guerra"? Como é que o Exército se está a adaptar

3 set 2025, 09:30
Exército português

Inconformados e com um telemóvel na mão, os jovens nascidos entre 1996 e 2012 estão a obrigar o Exército Português a reinventar-se, deixando para trás uma cultura de rigidez para adotar uma nova visão, mais humana e social, que procura olhar para eles não apenas como números

Os orçamentos da Defesa estão a crescer e com eles as ambições das Forças Armadas. Mas, enquanto os três ramos planeiam comprar novos equipamentos, o Exército Português enfrenta um desafio que o dinheiro sozinho não consegue resolver: conquistar a Geração Z. Nascidos na era da internet, moldados por crises económicas e políticas, estes jovens são exigentes, valorizam a realização imediata e priorizam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional — características que chocam com a tradicional rigidez da vida militar. Longe vão os dias das casernas lotadas e dos instrutores ásperos: no Exército há uma transformação silenciosa em curso que procura um complexo equilíbrio entre a valorização dos seus militares e a missão de servir o país.

"Esta geração não é pior do que as outras, é diferente. Isso desafia-nos a perceber as características desta geração para compreender onde é que podemos melhorar, para que a missão seja cumprida e que as pessoas fiquem simultaneamente mais comprometidas", explica à CNN Portugal o major-general Dias Martins, chefe da Direção de Recursos Humanos do Exército.

Atrair a Geração Z exige mais do que novos carros de combate ou helicópteros — requer uma reinvenção cultural. Desde 2013, que o número de jovens soldados e cabos que compõem a base do exército está em "queda livre". O contingente caiu de 11.651 em 2007 para o seu ponto mais baixo em 2024, com apenas 3.953 efetivos. A crise de recrutamento do exército é agravada por uma demografia limitada: Portugal tem apenas 1,09 milhão de jovens entre 15 e 24 anos, cerca de 10% da população, de acordo com o Eurostat. Esta realidade levou os militares a olhar para dentro e a repensar as práticas de outros tempos ao seu "novo público-alvo", a Geração Z. 

Para isso foi preciso começar por alterar toda a filosofia de recrutamento e formação, abandonando práticas ligadas aos tempos do Serviço Militar Obrigatório. As casernas, que juntavam dezenas de recrutas em beliches com apenas um cobertor, deixaram de ser uma realidade e a ideia antiga de que um instrutor deve tratar os recrutas de forma áspera, com treinos punitivos, já não é vista com bons olhos. Os militares entendem agora que a dureza do treino não contribui para a formação de um bom militar e que é possível garantir a disciplina e o respeito de outras formas. 

"Havia muito a ideia de que ser áspero fazia parte da formação. Hoje entendemos que isso não contribui em nada para a formação de um militar. Estar a ser áspero e rude para uma pessoa não lhe vai dar melhor formação. É possível o recruta fazer carreira de tiro, aprender a trabalhar com a arma, ganhar resistência e fazer tudo na mesma sem ter de passar por isso", garante o major-general Dias Martins. 

Esta mudança de filosofia obriga a um acompanhamento mais atento aos quarteis onde existe "uma cultura mais enraizada", com as práticas herdadas dos tempos em que a população portuguesa era obrigada a servir no exército. Ainda assim, isto não se traduz numa redução da exigência e das metas necessárias para formar militares aptos para cumprir missões em cenários como na República Centro-Africana ou na Roménia, onde os erros podem custar caro. 

Na formação, a palavra-chave é "gradualidade". Em vez de treinos punitivos que deixam recrutas “doridos logo nas primeiras semanas”, o Exército aposta numa progressão que evita traumas e promove confiança, permitindo que, “ao fim de três ou quatro meses, [o recruta] chegue na mesma àquele nível, mas percorra outro caminho diferente”. Até porque nem todos os recrutas pretendem entrar para unidades de combate de elite, mas sim para ocupar outra das muitas funções que o exército tem.

"Antigamente havia a visão de que um indivíduo que vinha para a tropa tinha de ser um Adonis, fisicamente muito desenvolvido, uma máquina de guerra. Essa visão, por si só, é redutora. No exército temos pessoas que trabalham no laboratório, investigadores, cozinheiros, pessoas da comunicação, serralheiros, juristas, metalúrgicos, um combatente, bem como o homem que opera várias plataformas tecnológicas altamente complexas", frisa o major-general Dias Martins.

A Geração Z, moldada pela era digital, encara o trabalho com uma flexibilidade que desafia as tradições do Exército Português. Diferentemente das gerações passadas, que buscavam no serviço militar um vínculo “para a vida”, estes jovens veem com naturalidade a possibilidade de mudar de emprego abruptamente, sobretudo se o trabalho não atender às suas expectativas de propósito e bem-estar, segundo o Centro de Psicologia Aplicada do Exército (CPAI).

Vários estudos apontam a saúde mental como uma das características que diferenciam a Geração Z de outras gerações, como os Millenials, a Geração X ou os Baby Boomers. Segundo um estudo da Deloitte, 40% dos jovens nascidos entre 1996 e 2012 sofrem de elevado stress e problemas de ansiedade. Para lidar com estas características, os especialistas do CPAI desenvolveram o Programa de Promoção da Robustez Mental, que ajuda a promover nos recrutas a resiliência e a capacidade de tomada de decisões racionais em ambientes de elevado stress, com base em três pilares: controlo emocional, compromisso e superação de desafios. Cerca de 10% dos jovens Geração Z que se voluntariam para o exército citam a vontade de desenvolver a "robustez mental e psicológica". 

O fim da visão "acasernada"

Para responder às características da Geração Z, identificadas pelo CPAI como uma geração que valoriza flexibilidade, propósito e bem-estar, o Exército Português está a implementar mudanças que vão além da formação. Os militares estão a modernizar as suas infraestruturas, substituindo as antigas casernas por quartos com lotação para até quatro pessoas, equipados com edredons com o símbolo da unidade e mobílias de madeira. E, como não podia deixar de ser, todos os quartos têm acesso à internet, porque "o telemóvel anda sempre com eles" e restringir o seu uso poderia causar "um choque cultural" que não seria benéfico.

Até porque é através dos telemóveis que o exército está a tentar chegar a esta geração. Muitos deles já não veem televisão e quase todo o seu consumo mediático é feito através das redes sociais. Isto levou o exército a adaptar também a forma como comunica com os jovens, adaptando-se a um número cada vez maior de plataformas digitais - cada uma com a sua linguagem - mas utilizadas para destacar histórias de militares em diversas funções — de operadores de carros de combate Leopard digitais a investigadores em laboratórios —, até mesmo com os seus próprios influencers, como é o caso do Padre Guilherme, capelão do Exército.

“Temos de terminar a visão 'acasernada', com as unidades do exército assentes em casernas, com quartos com muita gente. Queremos que eles sintam que estão num lugar que olha para eles de uma forma social, que procura não olhar para eles como um número, mas sim como um ser humano”, afirma o major-general Dias Martins à CNN Portugal.

A valorização dos militares também passa por medidas como apartamentos de renda económica para famílias de praças deslocadas e parcerias com autarquias para creches e ocupações. Em maio, o Ministério da Defesa anunciou a recuperação de 13 edifícios, com 427 apartamentos para alojar 600 militares, com apoio de verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Esta é uma das formas que os militares têm de "ir ao encontro das ansiedades e expectativas" de uma geração onde 95% dos jovens portugueses com idades entre 15 e 24 anos vivem com os pais, segundo dados da Pordata, e onde o desemprego jovem se situa nos 19,5%.

Muitos dos jovens que acabavam por ingressar no exército como praças, apenas o conseguiam fazer por tempo limitado de seis anos. Este limite, criado para manter a juventude da base de soldados do exército, acabava por ser um fator que levava a saídas da instituição. Para inverter esse cenário, o Exército criou o Quadro Permanente (QP) para Praças, um concurso que dá oportunidade aos militares de irem além dos seis anos de contrato. O QP permite “casar com a tropa" e está a ter uma grande adesão. Em 2024, o programa atraiu 700 candidaturas para 110 vagas e o terceiro curso já está a ser preparado.

O exército admite que gostaria de ver o número de vagas deste programa aumentar para 150 ou 200 por ano. No entanto, este processo está a ser "estudado cautelosamente" e a ter em conta as aprendizagens de outros ramos onde este programa foi aplicado. Um jovem de 21 anos que ingressa no QP chegará aos 50 em três décadas, criando vários desafios. Este cenário levanta a possibilidade de um cabo de 50 anos acabar por ser subordinado a um jovem tenente de 25, recém-formado. Sem uma gestão cuidadosa, o programa pode não só criar desequilíbrios de sustentabilidade, mas também problemas disciplinares numa instituição onde a hierarquia é fundamental.

"A relação [entre o exército e o militar] tornou-se mais complexa. A sociedade enriqueceu, ganhou complexidade. Antigamente, costumávamos dizer que casávamos com a tropa. Acho que hoje essa relação é uma espécie de bigamia", afirma o major-general Dias Martins.

Não basta ter equipamentos

O Exército Português não está sozinho na luta para atrair a Geração Z. Países como a Suécia e a Finlândia enfrentam crises de recrutamento semelhantes e instauraram o Serviço Militar Obrigatório (SMO) para garantir efetivos necessários. Até mesmo a maior potência militar do mundo, os Estados Unidos da América, têm ficado aquém das suas metas de recrutamento, nos últimos anos. A situação é agravada pela competição feroz do mundo empresarial, com as empresas a conseguirem oferecer condições que os militares simplesmente não conseguem dar, como o regime de trabalho híbrido, que permite aos trabalhadores cumprirem as suas funções remotamente. 

Estas dificuldades fazem com que especialistas e políticos tragam de volta o debate em torno do Serviço Militar Obrigatório. Mas para o homem que lidera dos Recursos Humanos do Exército, o regresso desse modelo pode não ser benéfico nem para a instituição, nem para a sociedade. "Não quero que venha um indivíduo obrigado porque a nação lhe diz que tem de estar aqui contra a sua vontade, mesmo sem ter jeito nenhum para isto. O que vai acabar por acontecer é que vamos ter muita dificuldade em formá-lo. Também não quero que o país sinta que as pessoas são arrancadas de forma unilateral das suas vidas para vir resolver o problema das Forças Armadas", defende Dias Martins.

Mas os números recentemente apresentados dão esperança de que uma solução extrema não seja necessária. Em 2024, o exército conseguiu fazer "uma inflexão da queda" do número de militares, mas este ano estão já a projetar um crescimento na ordem dos 500 a 700 novos militares. O objetivo final para 2025 é conseguir atingir entre 13.300 e 13.500 militares no ativo. A inversão na tendência de efetivos do Exército Português coincide com uma significativa valorização financeira da carreira militar, essencial para atrair a Geração Z. Em 2024, o salário médio líquido dos profissionais das Forças Armadas aumentou 19%, ou 286 euros por mês, atingindo 1.802 euros — bem acima dos 7% de crescimento da média nacional. Nos últimos dois anos, os aumentos salariais acumulados chegaram a 40%.

"Não basta ter os melhores equipamentos. Posso ter os melhores equipamentos, mas se não cuidar das pessoas não me adianta nada. O cerne da questão no exército é, inequivocamente, a questão das pessoas. Compreender as pessoas da sociedade atual sem saudosismos e denegrir as gerações porque gostaríamos que fossem diferentes", insiste o major-general Dias Martins.

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