Português lidera estudo internacional e conclui que dez minutos de exercício por dia salvariam mais de 100 mil vidas por ano

30 jan, 11:00
Exercício físico

Pedro Saint-Maurice é investigador no Instituto Nacional de Cancro dos EUA e autor do estudo agora publicado que indica que dez minutos de exercício físico diário evitariam cerca de 110 mil mortes anuais. Apesar de o estudo ser sobre a população americana, Saint-Maurice admite que um aumento da atividade física também contribuiria para salvar um grande número de vidas em Portugal

Quantas tarefas conseguimos concluir em dez minutos? É o tempo de tomar um duche, ler uma notícia, tomar o pequeno-almoço, até de fazer uma pausa para fumar. Mas bastariam dez minutos apenas de atividade física por dia para salvar centenas de milhares de vidas. É esta a conclusão de um estudo agora publicado no Journal of the American Medical Association Internal Medicine, que usou dados da população norte-americana mas que tem como autor o investigador português Pedro Saint-Maurice, que há cerca de 14 anos desenvolve a sua atividade nos Estados Unidos da América.

Juntamente com outros dois investigadores, Saint-Maurice chegou à conclusão de que se a população adulta dos EUA - entre os 40 e os 85 anos, ou ainda mais velhos - acrescentasse à sua atividade diária dez minutos de atividade física moderada a vigorosa seria possível prevenir um total de 111.174 mortes por ano.  Se a atividade física fosse mais prolongada, até 20 ou 30 minutos, os resultados seriam ainda melhores.

O estudo é “um pouco diferente do que se tem feito”, diz o investigador à CNN Portugal, numa entrevista ao telefone. “Já sabíamos que a atividade física, por si só, é importante e tem muitos benefícios para a saúde”, frisa. “O que não sabíamos , sabendo que a atividade física é benéfica, era quais seriam as implicações se uma população inteira aumentasse os seus níveis de atividade”, explica o investigador. “Alguns estudos tentaram perceber isto com as suas limitações, com amostras mais reduzidas, limitadas a algumas zonas geográficas, ou que só incluíam um certo grupo da população. Não eram representativos de um país”, explica.

Movimento medido por acelerómetro

Neste estudo foram utilizados dados recolhidos entre 2003 e 2006 no National Health and Nutrition Examination Survey, um programa financiado pelo governo norte-americano que procura avaliar o estado da saúde e da alimentação da população. Ao todo, analisaram-se os dados de cerca de 5000 adultos representativos da população americana em género e etnia, a quem foi pedido que usassem ao longo de sete dias um acelerómetro, um dispositivo “semelhante a um Fitbit”, explica o investigador português. “É um wearable colocado na cintura que avalia o movimento que é feito e recolhe dados a cada minuto”, explica Saint-Maurice. Ou seja, a atividade física não foi medida por questionário, o que garante informação mais fiável.

Os investigadores analisaram o movimento bem como outras variáveis recolhidas neste programa, nomeadamente o índice de massa corporal ou a existência de doenças como diabetes ou hipertensão. Após a recolha destes dados, os participantes no estudo foram acompanhados “ao longo de dez anos, até 2015. E durante esses dez anos temos os registos das pessoas que faleceram durante esse período e relacionámos o nível de atividade física com a probabilidade de morte”, explica Saint-Maurice à CNN Portugal.

Os resultados não foram uma surpresa. A projeção de menos 110 mil mortes anuais foi “na direção que esperava”, admite o investigador. “Resultou num número substancial. É uma projeção mas é a melhor forma que temos de tentar avaliar este tipo de impacto, muito útil numa vertente de saúde pública, e que esforços devem ser investidos neste sentido”, acrescenta.

O investigador português optou por centrar o estudo em dez minutos de atividade física porque “sabemos que pedir a alguém que não faz nada que faça de repente 30 minutos de atividade física diária não é fácil”, admite. “Pensámos numa solução mais modesta. Claro que com 20 ou 30 minutos os resultados são ainda melhores, também os medimos, mas são aumentos de atividade física bastante ambiciosos. A nossa forma de pensar aqui é diferente, em vez de pensarmos no indivíduo pensámos numa população inteira. Os objetivos tinham de ser mais realistas”, esclarece Saint-Maurice. E para dez minutos de exercício bastaria o esforço de deixar o carro mais longe do trabalho e concluir o percurso a pé com uma caminhada mais vigorosa, isto para quem não quiser dedicar dez minutos a fazer trabalho de cardio, uma aula de cycling ou a exercitar-se com um dos muitos vídeos de exercícios disponíveis online. 

Tendência seria semelhante em Portugal

Pedro Saint-Maurice, que começou a formação académica na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, licenciando-se em Ciências do Desporto no ramo de exercício e saúde, foi para os Estados Unidos completar o mestrado na universidade do estado do Iowa, onde fez investigação. Atualmente, trabalha em Rockville, Maryland, no Instituto Nacional de Cancro dos EUA, um dos 27 organismos de investigação dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA,  onde se dedica a investigar a relação entre o exercício físico e doenças crónicas. “Faço trabalho de epidemiologia do cancro, com este interesse que tenho na atividade física”, revela.

O investigador admite que as conclusões da pesquisa agora publicada "estão muito dependentes das principais causas de morte de um país" e que estas são normalmente as mesmas nos países desenvolvidos. "No nosso estudo sabemos que as primeiras duas causas de morte nos Estados Unidos são as doenças cardiovasculares e o cancro, em Portugal será semelhante. Sendo o caso, os mecanismos de prevenção passam pela atividade física", sublinha. "Em Portugal, vamos encontrar uma tendência muito parecida, um esforço físico desta ordem resultaria numa diminuição do número de mortes", resume. 

"É importante investir mais em formas de tornar a população mais ativa", diz Saint-Maurice, que esteve recentemente em Portugal para passar o Natal com os familiares. "Reparei que há mais ciclovias em Lisboa, há um esforço de tornar as pessoas mais ativas, mas é necessário mais investimento", sublinha.

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