"Os professores tentam fazer milagres". Há cada vez mais alunos em explicações de Matemática e uma série de razões para o explicar

CNN Portugal , MGR
12 jun, 08:30
Famílias gastam em média 120 euros mensais em explicações

Professores sem tempo, programas extensos e alunos desconcentrados podem explicar essa necessidade

Ana Paula Frederico é professora de Matemática há 32 anos e oito dos trinta alunos da sua turma de 9.º ano frequentam centros de estudo que apoiam os alunos em diversas disciplinas. Um dos casos mais relevantes é o de matemática, cujos alunos desta professora de Setúbal vão realizar esta quarta-feira um exame nacional que significa um peso de 30% na nota final do último ano do 3.º ciclo do ensino básico.

Odiada por muitos, a matemática parece estar mais difícil, o que aumenta o recurso a explicações privadas. Este facto é confirmado pela plataforma “Explicando”, que revela que, em janeiro, a disciplina mais procurada pelos alunos portugueses para explicações foi precisamente Matemática. Com efeito, 44% dos alunos que contactaram o site pretendiam explicações naquela área.

Um dos fatores que contribui para esta procura é a falta de professores qualificados em Matemática. Ana Paula Frederico conta que no ano passado quem deu aulas à turma de 9.º ano que agora leciona foi alguém licenciado em Engenharia. Devido à falta de competências para ensinar os alunos, a professora viu-se obrigada a substituir o colega. “Há falta de professores e as carências são colmatadas com professores que são engenheiros”, explica à CNN Portugal.

A Matemática é uma disciplina que precisa de “bons alicerces” e, se houver falta deles, os alunos têm muita dificuldade, afirma a professora. Nuno Crato, antigo Ministro da Educação, concorda com esta visão, destacando à CNN Portugal o "caráter cumulativo" dos conteúdos, o que intensifica as dificuldades para quem não aprendeu os conceitos no momento adequado.

Além disso, o tempo é escasso, sobretudo tendo em conta o programa da disciplina: “temos aula com 30 alunos, só dez minutos são para eles se sentarem e só há quatro aulas por semana”. A falta de tempo e a pressão para cobrir um programa extenso em pouco tempo limita a capacidade dos professores de abordar individualmente as dificuldades dos alunos.

A introdução das “Aprendizagens Essenciais” desde 2017/18 marcou uma mudança significativa no currículo que, de acordo com Nuno Crato, representou uma transição de um currículo bem estruturado e progressivo em 2015 para um currículo desorganizado e pouco ambicioso. "Foi uma mudança dramática", afirma o antigo ministro, referindo-se à quebra no progresso contínuo observado até 2015, que colocava Portugal acima da média da OCDE em avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) e o Tendências em Estudo Internacional de Matemática e Ciência (TIMSS).

A desconcentração dos alunos é sublinhada pela professora de Setúbal, que reflete sobre o uso indevido dos aparelhos eletrónicos nas salas de aula. “Os alunos não conseguem largar os telemóveis e não conseguimos dar aulas com qualidade”, lamenta, observando que “cada ano que passa os alunos têm menos interesse em aprender”.

A abolição das provas finais de 4.º e 6.º anos e a desvalorização da percentagem para nota final dos exames do 9.º e do 12.º também contribuíram para que a avaliação externa não seja “rigorosa e fiável como deveria ser”, segundo Nuno Crato. A diminuição da exigência na avaliação externa pode ter impacto direto na preparação dos alunos, reduzindo a motivação para um estudo mais profundo e contínuo.

A soma desses fatores resulta em alunos menos preparados e com mais dificuldades, não apenas em Matemática, mas em todas as áreas. "Os professores, com toda a boa vontade e esforço, tentam fazer milagres. Mas é muito difícil fazer milagres quando as orientações curriculares são péssimas, frouxas e mal estruturadas", conclui Nuno Crato.

Educação

Mais Educação

Patrocinados