Ministro garante notas dos exames na sexta-feira, mas escolas duvidam: “Temo que não possamos dar essa alegria aos nossos alunos”

4 ago, 07:00
Fernando Alexandre (Tiago Petinga/Lusa)
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Fernando Alexandre garantiu, no Parlamento, que 97% dos itens dos exames nacionais da segunda fase estão classificados e que 50% das reapreciações estão “prontas”. E são os processos de reapreciações que mais preocupam docentes e diretores

O ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI), Fernando Alexandre, voltou a garantir, esta segunda-feira, na comissão permanente da Assembleia da República, que as notas da segunda fase dos exames nacionais e das mais de 20 mil reapreciações da primeira fase que foram pedidas estarão lançadas na próxima sexta-feira. O ministro assegurou que 97% dos itens dos exames da segunda fase já estão classificados e que “mais de 50% das reapreciações estão prontas”. Mas professores e diretores têm dúvidas que esteja tudo pronto daqui a tempo.

“Já se tornou um hábito o ministro apresentar números. Hoje apresenta-nos 97% das provas da segunda fase totalmente corrigidas. Lembremos que, na primeira fase, no dia 17, dia em que estava prevista a afixação dos resultados, garantiu também no Parlamento que estavam concluídas todas as classificações. Considerar que, neste momento, o número 97% traz alguma tranquilidade, pelo menos a nós, que já conhecemos os números de Fernando Alexandre, não nos tranquiliza”, sublinha Cristina Mota, porta-voz do movimento cívico de professores Missão Escola Pública.

“O melhor é o ministro não falar em números, porque ouvirmos o ministro da Educação falar em números não tranquiliza ninguém. Pelo contrário”, concorda Alberto Veronesi, diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, em Lisboa.

Fernando Alexandre afirmou, esta segunda-feira à tarde, que o processo está a decorrer “com normalidade e tranquilidade”, apesar das falhas na primeira fase. O diretor escolar Alberto Veronesi não sente essa tranquilidade no terreno: “Estamos a falar de cerca de 90 mil exames na segunda fase. Os problemas são proporcionais à quantidade de exames e parece de facto que está tudo a correr muito melhor do que correu na primeira fase”. O responsável sublinha que há falhas que foram corrigidas e “algumas redundâncias que foram criadas”, dando como exemplo a mensagem para os professores a avisar que têm itens novos para classificar, o que não aconteceu na primeira fase, mas assegura que os problemas de mantêm.

A porta-voz do movimento Missão Escola Pública também reporta relatos falhas que são já conhecidas desde a primeira fase. Cristina Mota diz que esses relatos que chegam ao movimento são sobretudo de falta de folhas de continuação. “Tanto existem falta de folhas de continuação que o Júri Nacional de Exames (JNE) enviou uma informação aos professores classificadores de Biologia, referindo que se deu conta dessa ausência no Grupo III. A Deloitte, pelos vistos, não conseguiu corrigir esta ausência de folhas de continuação”, ironiza.

À CNN Portugal chegaram, nos últimos dias, relatos de professores a receberem emails dos agrupamentos do JNE com convocatórias para classificarem exames ou para classificarem mais itens. Um professor conta que tinha os seus itens corrigidos e aguardava apenas “os critérios definitivos, para poder rever o meu trabalho e submetê-lo” e foi surpreendido com um pedido para classificar mais um lote de itens. Há também relatos de professores de Português, por exemplo, que receberam exames de Filosofia, História e até de Matemática para classificar.

“Processo muitíssimo burocrático”

Talvez mais do que as classificações dos exames da segunda fase, os responsáveis ouvidos pela CNN Portugal temem não conseguir afixar os resultados dos pedidos de reapreciação, que este ano foram três vezes mais do que no ano passado. O ministro disse que 50% dos pedidos de reapreciação estão revistos, mas o número não tranquiliza Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “Queremos na sexta-feira afixar as pautas. Mas estou com receio de não conseguir afixar as pautas das reapreciações. Hoje [ontem foi] é segunda-feira. Estamos a poucos dias da data de afixação e ainda só estão feitas 50% das reapreciações?”, duvida Filinto Lima, frisando que teme que “na sexta-feira não possamos dar essa alegria aos nossos alunos.

Cristina Mota lembra que o processo de reapreciação vai muito além de uma simples classificação. “É um processo muitíssimo burocrático. Não é um classificador. É um relator. Além da classificação do exame, terá de produzir um relatório que tem de estar fundamentado na argumentação que o aluno apresenta juntamente com o pedido de reapreciação. Argumentação essa que não está a chegar a muitos dos relatores neste momento”, sublinha.

A docente garante que, durante o fim de semana, muitos professores relatores estiveram a receber convocatórias para rever exames, “algumas delas não atendidas por professores que já estavam de férias”. Cristina Mota acredita que as pautas vão ser afixadas na sexta-feira, mas, à semelhança do que aconteceu na primeira fase, com muitas notas em falta. “Acreditamos que será muito semelhante ao que aconteceu na primeira fase. Os números serão diferentes, porque a dimensão também é diferente. Mas entendemos que essa tranquilidade que Fernando Alexandre sente não é sentida pela maioria dos professores e sobretudo pelos alunos que aguardam os resultados”, defende.

O processo de classificação dos exames nacionais do Ensino Secundário foram, à exceção de Geometria Descritiva, pela primeira vez este ano corrigidos em formato digital. Os exames foram resolvidos em papel e posteriormente digitalizados e fragmentados para serem entregues aos professores classificadores através de uma plataforma do EduQa, o organismo do MECI responsável pela avaliação externa. O processo sofreu alguns constrangimentos, que levaram a adiamentos sucessivos de prazos. Quando foram afixadas as pautas, havia muitos alunos com notas suspensas. Quando os alunos receberam os PDF com os respetivos exames e as classificações dos mesmos, depararam-se com desconformidades nas classificações, folhas de exames em falta e até exames desaparecidos.

Os problemas levaram mesmo o ministério a criar uma época especial de exames em setembro e a adiar o início do ano letivo do Ensino Secundário uma semana mais tarde.

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