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Pode ter sido o último com Saramago obrigatório e é o primeiro com correção digital. Exame de Português do 12.º não deixou alunos “intimidados”

16 jun, 17:19
Jovens (Reuters)
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Associação de Professores de Português diz que era expectável que o Nobel da Literatura fosse alvo de avaliação na prova que se realizou na manhã desta terça-feira e repete a crítica que tem feito nos últimos anos: há “um peso excessivo” de questões de escolha múltipla

O exame nacional de Português do 12.º ano que se realizou esta terça-feira de manhã pode fazer parte do último lote em que José Saramago era autor obrigatório. A prova dava à escolha aos alunos entre a análise de dois excertos de duas obras do único Nobel português da Literatura – Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. A professora Carmo Oliveira, da Associação de Professores de Português (APP) considera mesmo que “era previsível” que o autor fizesse parte da prova e diz que os próprios alunos “estavam confiantes” que tal fosse acontecer.

José Saramago pode deixar de ser obrigatório no Ensino Secundário já no próximo ano letivo, conforme consta da revisão das aprendizagens essenciais que está em curso. A proposta do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) foi enviada às escolas no final de março. O período de consulta pública terminou a 28 de abril, mas ainda não foi apresentado o documento final. A polémica estalou assim que a proposta foi conhecida e prolonga-se, assim, até aos exames nacionais.

Miguel Real e Filomena Oliveira, especialistas em José Saramago e biógrafos do autor, esperam que a proposta não se concretize, o MECI recue e que, para o ano, o amor de Baltazar e Blimunda venha a ser tema obrigatório no exame do 12º ano. Ou, se não for Memorial do Convento a obra escolhida para avaliar os conhecimentos dos alunos, possa constar do enunciado da prova um excerto de O Ensaio Sobre a Cegueira ou de O Ano da Morte de Ricardo Reis.

“Saramago não é só um escritor português de qualidade. Além de ser o nosso único Nobel da Literatura é um autor universal, traduzido em todo mundo. Em 2010, no ano da sua morte, estava traduzido em 42 línguas em 53 países. Até à sua morte, tinha vendido mais de 10 milhões de exemplares. Só em Portugal, tinha vendido três milhões, o que significa que cada família portuguesa tinha pelo menos um exemplar de uma obra de Saramago em casa. Ou seja, além de universal é popular”, defendem.

Miguel Real e Filomena Oliveira justificam ainda a importância e o carácter imprescindível de Saramago com a temática abordada pelo autor: “As suas obras estão para além do universo português, além da qualidade literária. São temas universais e profundos tendo em conta a realidade mundial em que vivemos”.

Os dois especialistas repetem que há um cariz ideológico nesta possibilidade e sublinham que a Escola Pública “deve garantir o acesso dos alunos a um património comum” e questionam, “se autores como Camões ou Fernando Pessoa” são entendidos como sendo obrigatórios nesse património comum, “como é possível Saramago não integrar esta lista”.  

“Retirar a hipótese às novas gerações de conhecer uma das três obras fundamentais de Saramago – Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Ensaio Sobre a Cegueira - é inqualificável. A opção não pode ser dar menos aos nossos alunos. Temos de dar mais. E Saramago é mais”, resume Filomena Oliveira.  

“Não acredito que seja o último ano que Saramago saia em exame”, concorda a professora Carmo Oliveira. “Mesmo que deixe de ser obrigatório, não acredito que os professores deixem de estudar Saramago, em detrimento de Mário de Carvalho, que não reúne o mesmo consenso. Não é líquido que este autor saia do currículo. Acho que a discussão é prematura”.

Alunos “confortáveis” e perguntas “primárias”

Como estavam à espera de que Saramago saísse no exame, os alunos não foram apanhados de surpresa e, além de “confiantes”, estavam “confortáveis”. “Estive na escola onde dou aulas e estive a conversar com os meus alunos. Não se sentiram intimidados em relação ao exame”, revela Carmo Oliveira.

A docente, membro da APP, considera que o exame foi fácil e que está em linha com os níveis de exigência das provas dos últimos anos. “As perguntas dos exames do 12 são muito primárias. A APP considera que, nos últimos anos, os exames têm um peso excessivo de questões de escolha múltipla. É um exame de uma disciplina estruturante. Mais do que ler um texto e saber que, de quatro hipóteses de interpretação, uma está correta e três estão erradas, os alunos devem ser capazes de autonomamente redigir uma interpretação crítica do excerto que lhes é apresentado”, explica.

“As interpretações não deviam surgir em opções para alunos que estudaram Português durante 12 anos”, reforça Carmo Oliveira.

Até porque, considera Carmo Oliveira, os exames nacionais acabam por ser referenciais para o que é expectável que as escolas façam com os alunos: “Conformamos a nossa prática consoante aquilo que achamos que vai ser a avaliação externa. As nossas expectativas em relação ao sucesso do aluno acabam por ser que eles sejam capazes de ter esse raciocínio menos desafiador. As expectativas da própria sociedade e dos pais informados é que a escola replique os critérios do exame”, lamenta.

Isso acaba por se traduzir numa exigência menor e faz com que os alunos estejam a sair menos preparados para tarefas tão simples como interpretar um texto: “Hoje tenho alunos com notas de 15, 16 ou 17 valores que, há 10 anos, seriam alunos de 9 ou 10”.

“Acho que este modelo de exame não é produtivo. Um aluno se acertar as escolhas múltiplas todas, tem 9,1 valores. Depois, basta-lhe responder a uma pergunta das outras, mesmo que a resposta não esteja correta, tem 10 no exame”, acrescenta.

Correção digital

O exame que se realizou esta terça-feira é também o primeiro que vai ser corrigido em formato digital. As provas foram realizadas em papel, levadas pelas autoridades para um centro de digitalização da Imprensa Nacional Casa da Moeda e as perguntas vão ser distribuídas pelos professores corretores. Nenhum professor corretor vai ter acesso à prova na íntegra de um aluno. O MECI quer, com esta modalidade “introduzir maior equidade” na correção das provas. A decisão tem levantado várias polémicas.

Sublinhando que, neste aspeto, está a falar do ponto de vista “estritamente pessoal” e não em representação da associação de docentes que representa, Carmo Oliveira manifesta-se preocupada. “Para introduzir aquilo que o Eduqa entende ser o maior nível de equidade, os professores corretores não vão ter a noção da totalidade do exame e isso pode ser prejudicial para o aluno”, defende.

“Cada professor vai corrigir só uma ou duas perguntas dos exames de vários alunos. Imagine que a mim me calha corrigir só as questões da parte poética, que é onde os alunos demonstram maiores fragilidades. Provavelmente, na grande maioria dos casos, vou considerar que os alunos andam ali nos 4 em 10. No caso de um aluno que por exemplo esteja na visão global do exame nos 13,4, numa visão de conjunto, eu podia fazer uma reapreciação dessas questões da parte poética e dar-lhe a décima que faltava para ter os 13,5. Desta forma repartida, isso não vai acontecer”, alerta.

A professora defende que a avaliação dos alunos “sempre foi séria e vai continuar a ser”, porque os professores “são sérios e honestos”, mas vai passar a ser uma “classificação cega”. Uma “cegueira” que pode, em última instância, aproximar ou afastar um jovem do Ensino Superior, porque, para chegar lá, aquela décima pode fazer muita diferença.

“Na área das humanidades, tudo o que for feito de uma forma cega, para mim não é válido. O fator humano, mesmo numa situação em que se exige quase absoluta isenção, é fundamental”, sublinha Carmo Oliveira.

A primeira fase dos exames nacionais arrancou esta terça-feira e decorre entre 16 e 26 de junho, começando depois a 2.ª fase, entre 16 e 22 de julho. Mais de 81 mil alunos estavam inscritos para fazer o exame nacional de Português do 12.º ano, o mais concorrido por ser o único obrigatório para concluir o Ensino Secundário.

Mais de 166 mil alunos estão inscritos nos exames nesta primeira fase. E, pela primeira vez, apesar de ainda serem feitas em papel, as provas vão ser corrigidas em formato digital.

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