A pergunta consta de um manual de preparação para os exames da Leya lançado em janeiro. E a mesma pergunta com ligeiras variações de vocabulário constava do exame nacional de Português do 12.º ano que se realizou ontem. O cartoon para análise é o mesmo e o que é pedido aos alunos é basicamente o mesmo. A coincidência está a levantar suspeitas e a levar professores e académicos a pedir explicações à tutela
Há uma pergunta do exame nacional de Português do 12.º ano que se realizou esta terça-feira que está a levantar suspeitas e a suscitar polémica. A questão do grupo III, a última pergunta do exame, que pedia uma análise crítica do cartoon “Child Labor”, do artista iraniano J. J. Takjoo, é muito semelhante a uma que consta de um manual de preparação para os exames nacionais da editora Leya, lançado em janeiro deste ano.
“É muito grave mesmo. O exame nacional tem de ter perguntas originais. Não pode ir copiar perguntas a livros de autoajuda que servem de treino para os exames”, defende, em declarações à CNN Portugal, Carlos Ceia, docente universitário, com um vasto currículo ligado à formação de professores e que também ele foi autor de exames de avaliação externa.
O especialista considera que a situação fere a equidade que se exige de um exame nacional e sublinha que o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) "devia anular esta questão". “Houve escolas que usaram este manual para preparar os alunos para o exame. Há alunos que partiram para este exame com um Euromilhões. Uns já conheciam e já tinham preparado aquela pergunta e outros nunca a tinham visto. Há alunos que partiram de uma situação de privilégio”, explica.
Carlos Ceia fala de “incompetência científica e institucional” e de “irresponsabilidade”. “Até copiaram o erro que já estava no sítio de onde copiaram. O original não tinha o título original do cartoon - Child Labor - que é imprescindível para a correta interpretação da imagem”, destaca.
Carlos Ceia fala mesmo em “caso de polícia”: “Se um exame nacional, que está obrigado a uma confidencialidade extrema, vai copiar perguntas de manuais escolares, é inadmissível”. E a possibilidade de os autores do exame e dos manuais serem os mesmos só agrava a sua perceção. “Já acho que é um caso de polícia com a hipótese de ser apenas uma ‘coincidência’. Se for o caso de os autores serem os mesmos, então… A autoria dos exames é confidencial e não pode ser revelada de forma alguma!”, explica.
O docente universitário considera que a situação “compromete o IAVE e o ministro responsável” e, por isso, pede explicações.
E não é o único. Multiplicam-se nas redes sociais as críticas e os pedidos de explicações e até de anulação do exame feitos por professores e escritores:
Também o movimento cívico de professores Missão Escola Pública (MEP) emitiu um comunicado a exigir ao ministro Fernando Alexandre que venha a público explicar-se. “A MEP reconhece que a imagem utilizada no exame poderia, por si só, ser selecionada por diferentes autores. Contudo, quando a coincidência envolve simultaneamente a imagem, o texto de contextualização e a formulação da questão, deixa de poder ser encarada como um mero acaso e exige esclarecimentos públicos. Esta situação coloca em causa a perceção de rigor, equidade e segurança que deve estar associada aos exames nacionais, levantando dúvidas legítimas junto de alunos, famílias e professores”, sublinha o movimento.
Assim, também a MEP quer saber “como foi possível surgir esta coincidência entre um exercício de um manual comercial e uma questão de exame nacional” e “se existem ou existiram ligações entre autores de materiais de preparação para exames e equipas responsáveis pela elaboração ou validação das provas”, exigindo garantias de que “todos os mecanismos de prevenção de conflitos de interesse” foram assegurados e de que situações semelhantes não vão repetir-se.
A CNN Portugal pediu um comentário ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), mas não conseguiu resposta até ao momento de publicação desta notícia.
